Vorcaro surta com decisão que o mantém preso, dá socos na parede e precisa de atendimento

Daniel Vorcaro precisou de atendimento médico no presídio federal de Brasília após reagir de forma exaltada à decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que formou maioria na última sexta-feira (13) para manter sua prisão preventiva. Segundo informações publicadas pelo jornalista Ricardo Noblat, o dono do Banco Master teria esmurrado a parede da cela, machucado as mãos e gritado nomes de políticos e autoridades com quem teria mantido “relações financeiras”.
De acordo com relatos de interlocutores do banqueiro, o episódio ocorreu logo depois de Vorcaro ser informado de que os ministros André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam o entendimento pela manutenção da prisão.
O ministro Gilmar Mendes ainda não havia votado até aquele momento. A reação dentro da cela aumentou a tensão em torno do caso, que já vinha mobilizando o meio político e jurídico diante da possibilidade de uma colaboração premiada.
Ainda segundo pessoas próximas ao empresário, Vorcaro entrou em desespero ao perceber que a decisão do STF fechava, ao menos por ora, a principal chance de deixar a prisão. Durante o surto, ele teria mencionado em voz alta nomes de figuras públicas que, na avaliação dele, não estariam atuando para ajudá-lo a sair da cadeia. Os nomes citados não foram divulgados.

No mesmo dia em que o Supremo confirmou a manutenção da prisão, Vorcaro também promoveu uma mudança em sua defesa. O advogado Pierpaolo Bottini deixou o caso alegando “motivos pessoais”, e a representação passou a ser feita por José Luis Oliveira Lima. A troca foi interpretada nos bastidores como um movimento que pode anteceder a abertura de negociações para um acordo de delação premiada.
Oliveira Lima tem histórico em casos de grande repercussão e conduziu delações premiadas como a do ex-presidente da OAS, Leo Pinheiro, no âmbito da Operação Lava Jato. Também atuou na defesa do ex-ministro José Dirceu, no mensalão, e do general Braga Netto no processo sobre tentativa de golpe de Estado. Além disso, já havia trabalhado para o Banco Master antes da liquidação determinada pelo Banco Central.
Segundo informações da jornalista Mônica Bergamo, Vorcaro aguardava justamente a definição da Segunda Turma do STF para decidir se avançaria ou não em tratativas por uma delação. Com a maioria formada pela manutenção da prisão, a avaliação é que o banqueiro deve agora iniciar esse processo, num movimento que pode ampliar a crise em torno do caso e atingir também o campo político.
Vorcaro pagou R$ 24 milhões para “Sicário” cometer crimes e invadir sistemas, diz PF

A Polícia Federal do Brasil afirma que o banqueiro Daniel Vorcaro pagou ao menos R$ 24 milhões a Luiz Phillipi Mourão, apontado nas investigações como seu “Sicário”, para executar uma série de serviços ilícitos. Entre as atividades atribuídas ao operador estão invasão de sistemas de investigação, ameaças a adversários e a remoção de conteúdos desfavoráveis ao Banco Master nas redes sociais. A defesa de Mourão e a de Vorcaro não se manifestaram.
Segundo relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e obtido pelo Estadão, o valor foi estimado a partir de planilhas de controle de despesas do próprio banqueiro. Nos documentos analisados pelos investigadores, Mourão aparecia listado com um pagamento mensal de R$ 1 milhão.
O operador foi preso durante a Operação Compliance Zero, deflagrada na semana passada, mas morreu após cometer suicídio em uma cela da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais.
“É plausível inferir que Sicário pode ter recebido no mínimo R$ 24 milhões, tendo em vista que estava incluído na lista de despesas mensais para receber R$ 1 milhão por mês e que estes pagamentos perduram pelos anos de 2024 e 2025”, escreveu a PF no relatório.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro também revelam detalhes da atuação do operador. Em outubro de 2025, quando temia ser alvo de investigações da Polícia Federal, cerca de um mês antes de sua prisão, o banqueiro pediu que Mourão verificasse se havia algum mandado de prisão contra ele nos sistemas da Interpol.
Segundo os registros, Mourão acionou um contato para realizar a consulta e enviou uma foto da tela ao empresário. “A Interpol está limpa”, escreveu em 24 de outubro de 2025. “Estamos aguardando o relatório principal do FBI (Departamento de Federal de Investigação dos EUA)”, acrescentou na conversa.
De acordo com os investigadores, Mourão também intermediava serviços realizados por terceiros. Entre eles estaria o escrivão de polícia federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado como integrante do braço armado da organização criminosa investigada.
Nas conversas analisadas, Marilson aparece como responsável por organizar um grupo chamado “A Turma”, descrito pela PF como uma espécie de milícia subordinada ao banqueiro. O policial aposentado seria responsável por monitorar adversários e obter informações sobre investigações em andamento.
“O grupo denominado A Turma, que era liderado pelo policial federal Marilson Roseno da Silva, pode ter recebido R$ 9,6 milhões para ratear entre os integrantes”, aponta o relatório da Polícia Federal.
As autoridades ainda não conseguiram detalhar completamente os repasses financeiros ligados ao grupo. Por isso, os investigadores ainda apuram se parte dos valores destinados à chamada “Turma” foi transferida por meio dos pagamentos feitos diretamente a Mourão.
