O preço de abrigar Tebet e Pacheco – como a estratégia nacional de Kassab pode impactar Adailton Fúria em Rondônia
Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, costuma repetir que seu partido é “um grande guarda-chuva”, capaz de abrigar desde governadores eleitos pelo bolsonarismo até nomes que apoiaram Lula em 2022. O problema é que, em Rondônia — o estado mais bolsonarista do país —, esse guarda-chuva pode estar protegendo as pessoas erradas aos olhos do eleitor local.
O cenário: Rondônia como termômetro do bolsonarismo
Rondônia não é apenas mais um estado onde Bolsonaro venceu. É o estado onde ele teve sua maior votação proporcional do país. O senador Marcos Rogério (PL), que lidera todas as pesquisas para o governo com 38,9% das intenções de voto no cenário estimulado , já teve sua candidatura lançada em evento com Flávio Bolsonaro . O bolsonarismo ali é estrutural, não conjuntural.
Nesse ambiente, a rejeição a Simone Tebet e Rodrigo Pacheco entre o eleitorado conservador é profunda. Tebet foi adversária de Bolsonaro no primeiro turno de 2022 e declarou apoio a Lula no segundo . Pacheco, como presidente do Senado, protagonizou embates públicos com o ex-presidente, arquivando pautas caras ao Planalto à época . Para o eleitor bolsonarista de Rondônia, ambos são “inimigos”.
O nó: Kassab comanda, Fúria paga a conta
É importante destacar: quem comanda a filiação de Tebet e Pacheco é Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, em uma articulação que visa fortalecer o partido para a disputa presidencial de 2026 . A estratégia é nacional, mas o impacto será local.
Adailton Fúria, pré-candidato ao governo, não tem ingerência sobre as decisões da executiva nacional. No entanto, em um estado polarizado, o eleitor raramente faz essa distinção. Para o eleitor conservador, Fúria é o candidato do PSD — e o PSD agora é o partido de Tebet e Pacheco.
O governador Marcos Rocha, que preside o diretório estadual do PSD e foi eleito na onda bolsonarista em 2022 , também será impactado. Mas para Rocha, o cálculo é diferente: ele não será candidato à reeleição e sim disputar uma vaga ao Senado. Para Fúria, que está em seu primeiro teste eleitoral em nível estadual, o desgaste pode ser maior.
Os números: Fúria até agora
A mais recente pesquisa do Instituto Veritá, realizada entre 13 e 19 de março, mostra Adailton Fúria na terceira posição no cenário estimulado, com 15,4% a 18,8% das intenções de voto, dependendo do recorte . Marcos Rogério lidera com folga, e o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes (Podemos), aparece em segundo, com 20,2% em um dos cenários .
Os números indicam que Fúria ainda tem espaço para crescer — mas também que há um eleitorado de direita em disputa. A questão é se esse eleitor, ao saber que o partido de Fúria abriga Tebet e Pacheco, migrará para Marcos Rogério ou para Hildon Chaves, que já flerta com uma aliança com o bolsonarismo .
O risco: contaminação pela rejeição nacional
O principal risco para a candidatura de Adailton Fúria é o que analistas chamam de “contaminação por associação partidária”. Em um estado onde a imagem de Bolsonaro ainda é forte, estar no mesmo partido que suas principais antipatias pode:
Afastar o eleitor bolsonarista moderado, que hoje vê em Fúria uma alternativa viável a Marcos Rogério, mas que pode se sentir “traído” pela sigla;
Dificultar alianças locais, já que prefeitos e vereadores bolsonaristas podem relutar em subir no palanque de um candidato cujo partido nacional abriga adversários do ex-presidente;
Ampliar a rejeição espontânea, que hoje ainda é baixa para Fúria, mas que tende a crescer à medida que a campanha avança e a vinculação partidária se torna mais evidente.
A tentativa de blindagem
Aliados de Fúria nos bastidores já trabalham com uma estratégia de blindagem: tentar descolar a candidatura do governador das articulações nacionais de Kassab, apostando na imagem de Fúria como gestor municipal (prefeito de Cacoal, com aprovação local reconhecida) e em sua capacidade de dialogar com diferentes espectros políticos .
A estratégia, no entanto, tem limites. Em um estado onde a política é fortemente nacionalizada, e onde o nome de Bolsonaro ainda dita os rumos da disputa, separar a imagem de um candidato da do partido que ele representa é uma tarefa difícil — especialmente quando o partido está prestes a abrigar duas das figuras mais rejeitadas pela base do ex-presidente.
A filiação de Simone Tebet e Rodrigo Pacheco ao PSD é um movimento nacional de Gilberto Kassab que tem tudo para dar certo em Brasília — mas que em Rondônia pode se revelar um tiro no pé para Adailton Fúria. O pré-candidato do PSD ao governo entrará na campanha com um peso que não pediu: ser do mesmo partido que duas figuras odiadas pelo eleitor bolsonarista, em um dos estados mais bolsonaristas do país.
Se Fúria conseguirá ou não se descolar dessa associação será um dos principais testes da campanha. O que está claro, neste momento, é que a estratégia nacional do PSD acaba de tornar a disputa em Rondônia mais complexa — e mais difícil para o candidato da legenda no estado.

