Conflito em torno da BR-319 expõe disputa histórica entre integração e preservação na Amazônia
Foto: Divulgação/Dnit e Brenno Carvalho / Agência O Globo

Pregões a serem realizados nesta semana visam escolher as empresas para a realização da pavimentação da via, que corta o coração da Floresta Amazônica
A BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), voltou ao centro de um embate político e ambiental que atravessa diferentes governos desde sua criação na ditadura militar até as gestões mais recentes.
Inaugurada na década de 1970 como parte da estratégia do regime militar para integrar a Amazônia ao restante do país, a estrada foi asfaltada rapidamente, mas acabou abandonada nos anos seguintes e perdeu trafegabilidade em grande parte do trecho central.
Desde então, a rodovia se tornou símbolo de um projeto inacabado de ocupação da região. Ao longo das décadas, sucessivos governos tentaram retomar obras de recuperação, sempre enfrentando resistência de ambientalistas, indígenas e órgãos de fiscalização, que alertam para o risco de aumento do desmatamento na área.
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Nos governos recentes, o tema voltou a ganhar força. Durante a gestão de Jair Bolsonaro, houve avanço de autorizações para pavimentação, o que foi acompanhado por crescimento do desmatamento no entorno da estrada, segundo estudos e organizações ambientais.
Já no governo Lula, a proposta de retomada das obras também foi defendida sob a justificativa de melhorar a logística e o acesso entre regiões isoladas da Amazônia, especialmente em períodos de seca severa que dificultam o transporte fluvial.
Ao mesmo tempo, decisões judiciais e pressões de entidades ambientais têm imposto restrições ao avanço do asfaltamento, sob o argumento de que a obra pode acelerar a devastação florestal e facilitar a ocupação irregular de áreas preservadas.
O impasse reflete um conflito antigo: de um lado, a defesa da integração rodoviária como vetor de desenvolvimento econômico; de outro, o alerta de que a abertura definitiva da estrada pode intensificar pressões sobre a maior floresta tropical do planeta.
Ao longo de quase 50 anos, a BR-319 permanece como um dos principais pontos de tensão entre políticas de infraestrutura e conservação ambiental na Amazônia brasileira.




