PF APONTA QUE DANIEL VORCARO ENTREGOU TEXTO DA “EMENDA MASTER” A CIRO NOGUEIRA
Publicado em: 07/05/2026 10:32
Investigação indica que empresário teria participado diretamente da elaboração de proposta que ampliava cobertura do FGC para beneficiar bancos médios
As investigações da Polícia Federal envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, ganharam novos capítulos após a revelação de mensagens, documentos e trocas internas obtidas durante a Operação Compliance Zero. O material, extraído do celular de Vorcaro e encaminhado à CPMI do INSS, passou a ser utilizado também em outras frentes investigativas que apuram possível influência política em favor de interesses do banco no Congresso Nacional.
No centro da apuração está uma proposta de emenda apresentada em 2024 pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) durante a tramitação da PEC da autonomia do Banco Central. A medida previa ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dos atuais R$ 250 mil para até R$ 1 milhão por depositante. Nos bastidores do mercado financeiro, a proposta rapidamente passou a ser chamada de “Emenda Master”, por beneficiar especialmente bancos médios e instituições que operam com captação agressiva de investimentos, como o Banco Master.
Segundo as investigações, Daniel Vorcaro comemorou a apresentação da proposta em conversas privadas mantidas com sua então companheira, Martha Graeff, em agosto de 2024. Em uma das mensagens analisadas pela PF, o empresário teria classificado a medida como uma verdadeira “bomba atômica no mercado financeiro”, afirmando que ela reduziria o domínio dos grandes bancos e fortaleceria instituições de médio porte.
A Polícia Federal afirma ainda que há indícios de participação direta de Vorcaro na elaboração do texto da emenda. Relatórios apontam que o empresário teria encaminhado a redação da proposta ao entorno político de Ciro Nogueira, seja por meio de assessores ou entrega indireta ao escritório do senador. Em mensagens apreendidas, Vorcaro teria afirmado que o texto “saiu exatamente como mandei”, frase que passou a ser considerada peça-chave pelos investigadores.
Os documentos também revelam a proximidade pessoal entre o empresário e o senador. Em diversas conversas, Vorcaro se refere a Ciro Nogueira como “grande amigo de vida”. A PF agora busca esclarecer se a relação extrapolou os limites políticos e institucionais, entrando em uma possível dinâmica de favorecimento indevido.
As suspeitas não se limitam à elaboração da emenda. A investigação apura se o senador teria recebido vantagens indevidas para atuar em defesa de interesses ligados ao Banco Master dentro do Congresso Nacional. Entre os benefícios analisados estão supostos pagamentos periódicos, viagens, hospedagens em hotéis de luxo e outras despesas que teriam sido custeadas por pessoas ligadas ao empresário.
Nesta quarta-feira (7), a operação avançou com novas diligências autorizadas pela Justiça. O senador Ciro Nogueira tornou-se alvo formal da investigação, fato que ampliou a repercussão política do caso em Brasília. A defesa do parlamentar nega qualquer irregularidade e afirma que a emenda fazia parte de um debate legítimo sobre competitividade no sistema bancário nacional. Aliados do senador também sustentam que propostas semelhantes já circulavam no mercado financeiro antes mesmo da atuação de Ciro.
Especialistas ouvidos por diferentes veículos destacam que o aumento do limite do FGC teria potencial para alterar significativamente a dinâmica do sistema financeiro brasileiro. O Fundo Garantidor de Créditos funciona como uma espécie de seguro para investidores e correntistas em caso de quebra bancária. Atualmente, o teto de proteção é de R$ 250 mil por CPF e instituição financeira. A proposta de elevar esse valor para R$ 1 milhão poderia beneficiar especialmente bancos que dependem fortemente da atração de investidores por meio de títulos de renda fixa de maior risco e rentabilidade.
A repercussão do caso provocou forte reação no mercado. Executivos de grandes bancos, segundo relatos divulgados pela imprensa, enxergaram a proposta como uma ameaça à estabilidade concorrencial do setor. Isso porque instituições menores poderiam captar volumes ainda maiores de recursos utilizando a proteção ampliada do FGC como garantia adicional aos investidores.
Embora a emenda não tenha sido aprovada, as investigações agora concentram atenção sobre os bastidores da sua formulação e articulação política. A PF tenta determinar se houve tráfico de influência, corrupção passiva, advocacia administrativa ou outros crimes relacionados à atuação parlamentar em benefício privado.
O caso passou a ocupar espaço central no noticiário político e econômico nacional, com ampla cobertura de veículos como Globo, G1, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, UOL, O Globo e InfoMoney. A expectativa é que novas informações sejam reveladas nos próximos dias, especialmente após a análise completa do conteúdo apreendido nos aparelhos eletrônicos ligados aos investigados.
Enquanto isso, a operação reforça o debate sobre a relação entre o setor financeiro e o poder político em Brasília, levantando questionamentos sobre os limites da influência empresarial na formulação de propostas legislativas com impacto direto no mercado brasileiro.
Foto: Divulgação
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