Polícia Civil envia ao MP inquérito sobre uso de milícia durante invasão em Alto Paraíso

Publicado em: 23/05/2026 18:01

Inquérito aponta possível participação de policiais militares em invasão de propriedade para extrair cassiterita sem autorização

Policial militar que estaria a serviço de um invasor é acusado de apontar a arma funcional para a cabeça do verdadeiro dono da terra

Tensão em Alto Paraíso, com denúncia de ameaça, esbulho possessório, constituição de milícia privada e furto qualificado. A vítima: Iporan Affonso Henrique Buss Melotto, dono da terra na região do Garimpo Bom Futuro. Para quem não sabe, esbulho possessório é quando alguém perde o controle do que é seu devido à invasão, apropriação indevida ou recusa de devolução por parte de terceiros. Furto qualificado é quando duas ou mais pessoas participam do crime.

Iporan Melloto compareceu à delegacia da Polícia Civil de Alto Paraíso, juntamente com sua mãe, Creuza Buss Melotto, que depôs como testemunha. Iporan explicou que os vizinhos Ernesto e Evandro Peper constantemente invadem suas terras com maquinário para extrair cassiterita sem autorização.

O dono da propriedade citou que pediu para que as máquinas fossem retiradas de suas terras, e que os funcionários de Ernesto e Evandro Peper saíram pacificamente, mas 20 dias depois as máquinas do vizinho estavam novamente no local. Ele acrescentou que pegou o celular para filmar a ação dos infratores, quando um homem saiu de um HB20 e apontou uma pistola para sua cabeça, ameaçando tirar sua vida e jogar o corpo na vala se não parasse de filmar.

Iporan disse que, então, guardou o celular e ele e sua mãe pediram calma ao homem. A vítima explicou que posteriormente identificou o homem como o policial militar Julio Cezar Fernandes da Silva, lotado no 7º Batalhão de Ariquemes.

De acordo com o depoimento prestado, conforme consta na conclusão do inquérito da Polícia Civil, Iporan Melloto disse que Julio Cezar faz parte de uma milícia comandada pelo sargento Davino, que atua no Garimpo do Futuro a mando da Coopersanta, composta pelo presidente, Jaime Morgan, e por Gilberto Kunotani, Carlinhos Cascavel, Bartolomeu Fernandes e Paulo Amâncio.

Imagem gerada por IA

Iporan afirmou em depoimento que reside no local há 15 anos, e que nesse período vem sendo oprimido pela Coopersanta, anteriormente por “guachebas”, e depois por alguns policiais militares do 7º Batalhão da PM em Ariquemes, que estariam de conchavo com a cooperativa, e também pela Agência Nacional de Mineração (ANM). A agência deveria fiscalizar a extração de cassiterita, mas ao invés disso o técnico em mineração José Raimundo dos Anjos também teria partido para a tentativa de intimidação.

O depoimento foi prestado por Iporan no dia 20 de setembro de 2024. A mãe dele, Creuza Buss Melotto, confirmou as declarações.

Testemunhas

Depois a Polícia Civil ouviu outras testemunhas. Carlos Antonio Mendes confirmou o que foi dito por Iporan, a vítima. Ele relatou que era o operador da pá carregadeira de Ernesto Peper, e que viu o homem apontado a arma de fogo para o dono da terra. Ele também disse que não sabia que se tratavam de policiais militares.

A testemunha Manoel Alberto de Sa é vizinho de Iporan e de Ernesto Peper. Ele disse que Ernesto extrai cassiterita ilegalmente de sua propriedade, resultando em prejuízo de milhões de reais, e que nunca confrontou o vizinho porque teme por sua integridade. Segundo a testemunha, Ernesto tinha guachebas, que são pessoas perigosas, e que agora, segundo ele, o sargento Davino é chefe do grupo que faz segurança privada.

A esposa de Manoel de Sa, Maria da Conceição Alves Silva, disse que Ernesto Peper praticava os mesmos crimes com ela e o marido. Ela disse ter conhecimento de que policiais militares fazem o serviço de segurança para as mineradoras da região.

Outra testemunha é Antonio Edson. Ele disse que Ernesto Pepper invade e retira cassiterita da propriedade de Iporan e de outras pessoas. A testemunha disse ter conhecimento de que Ernesto possui segurança privada, e a conversa que circula é que seriam policiais aposentados. Antonio disse que estava presente quando aconteceu a ameaça, e que viu o homem apontado a arma de fogo para a cabeça de Iporan.

Outro investigado é o policial militar Alexsandro Evangelista de Souza. Ele deu sua versão dos acontecimentos, dizendo que não conhece Ernesto nem Evandro Peper, e que convidou o também policial Julio Cezar para tirar fotografias no garimpo. Ele disse que não viu o colega de farda sacar a arma e que houve uma discussão verbal.

Área onde o acusado extrai cassiterita

O policial Julio Cezar disse que não conhece Ernesto ou Evandro Peper e negou que faça bicos como segurança. Ele também disse que nunca tinha ido ao Garimpo Bom Futuro antes, e que estava no local porque sua esposa, que é digital influencer, lhe pediu para tirar algumas fotos. Ele argumentou que Iporan veio em sua direção e ele tentou se afastar, empurrado seu peito e depois puxou a arma, apontando-a para baixo. Ele também disse não ter conhecimento de quem seja o sargento Tavino, e admitiu que a arma é da Polícia Militar.

Ernesto Peper disse ser proprietário da Eh Mineração e afirmou que extrai cassiterita da propriedade desde 1989. Ele alega que não invadiu a propriedade sem autorização. Ele argumentou que Iporan realizou um georreferenciamento homologado pelo Incra e começou a expandir suas terras.

Depois, Ernesto Peper disse que paga ao sargento Tavino, que não está mais na ativa, para trabalhar na segurança nos finais de semana, mas não há policiais na ativa trabalhando.

Homicídios

No inquérito policial consta que apesar de vários inquéritos de homicídio terem sido instaurados, foram arquivados por falta de provas de autoria.

Agora mais recentemente, sob a justificativa de legítima defesa, pessoas desarmadas têm sido encontradas mortas, alvejadas por disparos de arma de fogo efetuados por supostos seguranças de empresas mineradoras, dentro da área dessas empresas, quando estavam supostamente prestes a furtar cassiterita do local.

Indícios

No final, o inquérito cita que, com base nos depoimentos de testemunhas, há fortes indícios de que os policiais Julio Cezar e Alexsandro Evangelista de Souza estavam exercendo a segurança dos funcionários e dos maquinários de Ernesto, enquanto minério era extraído da propriedade de Iporan.

Em 7 de maio de 2025 o delegado da Polícia Civil em Alto Paraíso, Cristiano Martins Mattos, encaminhou o inquérito para o Ministério Público e para o Poder Judiciário.

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