Quem é Abelardo de la Espriella, candidato da extrema-direita na Colômbia, e o risco para Lula

Publicado em: 01/06/2026 11:32
Abelardo de la Espriella

Com a camisa amarela da seleção colombiana e protegido por um vidro blindado, o autodenominado “Tigre” Abelardo de la Espriella celebrou no domingo (31) sua vitória no primeiro turno das eleições presidenciais, com um recorde de mais de 10 milhões de votos.

O advogado e empresário teve 43% dos votos, garantindo sua vaga no segundo turno contra o líder de esquerda Iván Cepeda, que busca dar continuidade às políticas do presidente Gustavo Petro.

Sua promessa é de uma “mão de ferro” contra o crime, a ilegalidade, o narcotráfico e a corrupção, problemas que ele identifica como os principais desafios da Colômbia, ecoando discursos autoritários que ganham força na região.

Sem experiência política prévia, De la Espriella se apresenta como um “outsider”, um empresário bem-sucedido e independente. Sua campanha, segundo ele, é financiada pelos lucros de suas dezenas de empresas em setores como imobiliário, comércio de alimentos, bebidas, roupas e pecuária, além de sua firma de advocacia, De la Espriella Lawyers. Ele afirma receber ameaças de morte frequentemente, o que justifica a presença de pelo menos 35 seguranças em cada evento, além de um forte esquema policial.

O candidato não esconde sua admiração pelas gestões de Nayib Bukele em El Salvador, Javier Milei na Argentina e Donald Trump nos EUA, líderes que representam a nova onda da direita radical global. Esse alinhamento ideológico é reforçado pelo apoio explícito de figuras como Flávio Bolsonaro.

De la Espriella rejeita governar “com os de sempre”, uma frase comum para se referir à elite política tradicional que dominou o país até a chegada de Gustavo Petro à presidência em 2022. Com seu movimento, “Defensores da Pátria”, ele aspira a canalizar o mal-estar dos colombianos que veem na velha guarda política a origem de muitos desafios.

De la Espriella, de 47 anos, é carismático e utiliza um discurso incisivo, apelando ao espetáculo e fazendo declarações categóricas e provocativas. Ele mora em Miami e muitos integrantes do Partido Republicano apostaram na candidatura dele, um advogado que construiu parte de sua fortuna atuando na defesa de figuras ligadas ao narcotráfico e ao paramilitarismo colombiano, alguns deles investigados ou processados pela Justiça dos Estados Unidos.

O senador republicano Bernie Moreno, do estado de Ohio, visitou a Colômbia em meio à disputa eleitoral. Setores do governo Donald Trump passaram a enxergar em De la Espriella uma alternativa mais viável para retomar a influência de Washington sobre Bogotá.

Entre os clientes defendidos pelo advogado está Alex Saab, empresário colombiano e aliado do governo venezuelano, que foi extraditado para os Estados Unidos após anos de disputa judicial. A relação estratégica entre Estados Unidos e Colômbia sofreu mudanças significativas após a chegada de Gustavo Petro à Presidência, em 2022. O primeiro presidente de esquerda da história do país adotou uma política externa mais autônoma e passou a estabelecer limites à influência de Washington em temas de segurança e política regional.

Essa diferença ficou evidente em março deste ano, quando Donald Trump lançou o chamado Escudo das Américas, um acordo regional voltado para cooperação em segurança. Colômbia, Brasil e México ficaram fora da iniciativa. A exclusão não significou o fim da cooperação com os Estados Unidos, mas indicou que esses governos passaram a exigir maior respeito à sua soberania e às decisões internas.

Uma eventual vitória de De la Espriella é vista por setores progressistas como uma oportunidade para que Washington recupere parte da influência perdida. Críticos do candidato avaliam que isso poderia aproximar a Colômbia do modelo de alinhamento adotado por governos de extrema-direita da região, ampliando o peso dos Estados Unidos sobre decisões de política interna e segurança.

Para o governo Lula, esse cenário representaria a formação de um entorno regional mais alinhado à extrema direita e à agenda internacional de Donald Trump.

De la Espriella anunciou suas intenções de buscar a presidência em julho de 2025, um mês após o pré-candidato Miguel Uribe Turbay ser baleado em Bogotá. Ele soube capitalizar o momento digital do país, gerando conversas sobre segurança antes mesmo de lançar sua candidatura. Promete desmantelar a política de “paz total” de Petro.

Ele chamou a esquerda de “inimiga da república” e, como Bukele em El Salvador, diz que pretende construir megacárceres. Também planeja “eliminar” narcotraficantes, dissidências guerrilheiras e outros grupos armados, anunciando que fumigará hectares de coca, bombardeará acampamentos “narcoterroristas” e abaterá qualquer avião ou embarcação com drogas que saia da Colômbia, pedindo ajuda aos Estados Unidos, Europa e Israel.

O pacote é completo. Combinando sua postura de homem forte com a valorização da família tradicional e do cristianismo, De la Espriella também promete ser implacável contra a corrupção e incentivar o crescimento da economia com a exploração de hidrocarbonetos e minerais, liberdades tributárias, ajustes fiscais e severos cortes estatais. Para isso, ele declarou que usará “a motosserra”, assim como Milei na Argentina.

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