O que acontece com o cérebro quando temos pesadelos e por que descansar não é a mesma coisa que dormir

Publicado em: 05/06/2026 10:57
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Eles alteram a percepção do descanso, comprometem a regulação emocional e podem ser um sinal de que algo está acontecendo

Você corre, mas as pernas não avançam. Há alguém atrás. Ou alguma coisa. Você não consegue ver, mas a presença ocupa o sonho inteiro. Tenta gritar, mas a voz não sai da garganta. Tenta se mover mais rápido e o corpo cede para a frente. O medo não é dramático: é físico e incapacitante. Depois vem o despertar abrupto e a respiração ofegante em um quarto escuro que leva um segundo para voltar a parecer familiar.

 

Há noites em que se acorda com o coração acelerado, uma cena vívida ainda presa à consciência e a sensação de não ter descansado nada, embora, em teoria, tenha dormido entre sete e oito horas. Isso levanta a pergunta: descansamos de verdade quando temos pesadelos? A resposta é complexa.

 

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Os pesadelos são sonhos vívidos, emocionalmente intensos e de conteúdo negativo — ameaças à sobrevivência, à integridade física ou à autoestima — que despertam quem os vivencia. Eles ocorrem principalmente durante a fase REM do sono, etapa caracterizada pelo movimento rápido dos olhos e pela atividade cerebral mais intensa do ciclo noturno. É nesse momento que o cérebro processa emoções, consolida memórias e, segundo as evidências mais recentes, trabalha na regulação do estado emocional.

 

Convém distingui-los dos terrores noturnos: enquanto os pesadelos ocorrem durante o sono REM e a pessoa consegue se lembrar do conteúdo ao despertar, os terrores noturnos são um tipo de parassonia que ocorre nas fases profundas do sono não REM. Quem os sofre pode gritar ou se movimentar, mas normalmente não desperta completamente nem se recorda do episódio no dia seguinte.

 

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Uma das questões que intrigam os pesquisadores é se os pesadelos alteram objetivamente a arquitetura do sono ou se seu impacto se limita à percepção subjetiva de quem os experimenta.

 

Um estudo publicado na revista Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation comparou, por meio de polissonografia domiciliar durante três noites consecutivas, 17 pessoas com pesadelos frequentes e 17 participantes do grupo controle. As pessoas com pesadelos relataram pior qualidade do sono, mais dificuldades ao despertar e mais sintomas de insônia.

 

No entanto, os registros polissonográficos não revelaram diferenças significativas na arquitetura global do sono, na duração dos ciclos REM nem na densidade dos movimentos oculares — nem mesmo nas noites em que os pesadelos foram efetivamente registrados.

 

Em outras palavras: tecnicamente, o cérebro estava dormindo, mas a pessoa não percebia o descanso como se tivesse realmente descansado.

 

Os autores concluíram que os pesadelos provocam um comprometimento significativo independentemente de alterações na arquitetura do sono, e que essa especificidade exige atenção e tratamento diferenciados.

 

Outra linha de pesquisa sugere que pessoas com pesadelos frequentes apresentam menor eficiência do sono, mais despertares noturnos, menor proporção de sono de ondas lentas — a fase mais restauradora — e maior duração do sono REM.

 

A divergência entre esses achados sugere que a relação entre pesadelos e descanso depende de fatores individuais, da frequência e intensidade dos episódios e da existência ou não de algum transtorno subjacente.

 

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Dra. Christiane Ribeiro | Pesadelos - Dra. Christiane Ribeiro Psiquiatra em  BH - Christiane Carvalho Ribeiro é médica graduada pela UFMG e possui  título de especialista em Psiquiatra

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Entender o impacto dos pesadelos sobre o descanso exige compreender a função do sono REM. O sono REM fragmentado interrompe a resolução noturna do sofrimento emocional, um processo crucial para a regulação das emoções. Quando um pesadelo interrompe esse ciclo — quando o cérebro desperta justamente no momento em que deveria estar processando uma emoção difícil —, esse trabalho fica inacabado.

 

Evidências emergentes apontam que determinadas alterações específicas do sono REM — como a fragmentação, o conteúdo onírico perturbador e os movimentos oculares de alta densidade — prejudicam o processamento emocional. A fragmentação do sono REM, marcada por interrupções e mudanças de estágio, compromete os processos restauradores dessa fase.

 

Em termos mais simples: o sono não serve apenas para descansar o corpo, mas também para processar aquilo que sentimos. E quando esse processo é interrompido repetidamente — noite após noite, sonho após sonho —, o custo não é apenas o cansaço do dia seguinte, mas também um enfraquecimento da capacidade de regular as emoções.

 

Michael Schredl, pesquisador do Instituto Central de Saúde Mental da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, observa que a frequência dos pesadelos é mais influenciada pelo nível atual de estresse do que por traços de personalidade relativamente estáveis, como o neuroticismo. Nesse sentido, os pesadelos podem ser entendidos como um termômetro: um sinal de que algo na vida desperta está gerando uma carga emocional que o cérebro não consegue processar completamente durante o sono.

 

Embora a ciência do sono continue avançando, os pesadelos ainda constituem um território com mais perguntas do que respostas definitivas. Não está claro por que algumas pessoas têm pesadelos recorrentes sem qualquer transtorno aparente; a distinção entre um pesadelo ocasional e um padrão que exige atenção clínica nem sempre é evidente; e a relação entre a qualidade objetiva e subjetiva do sono na presença de sonhos perturbadores continua sendo uma área aberta de investigação.

 

 

 

O que está claro é que minimizar noites ruins apenas porque, tecnicamente, foram dormidas as horas necessárias pode ser um erro. O sono não é apenas tempo passado na cama, mas um processo ativo e emocionalmente exigente que o cérebro nem sempre consegue concluir quando algo o interrompe.

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