Quando o umbigo engole um partido de resistência – por Arimar Souza de Sá

Publicado em: 31/07/2026 15:16
Rondonoticias.com.br

 Quando o umbigo engole o partido de resistência

*Arimar Souza de Sá

Na política, derrotas raramente acontecem de um dia para o outro. São construídas lentamente, decisão após decisão, discurso após discurso, até que a realidade apenas oficializa o que as ruas já decidiram. A renúncia de Confúcio Moura à disputa pela reeleição ao Senado parece seguir exatamente esse roteiro.

Ninguém abandona uma candidatura poucos dias depois de uma convenção sem que o desgaste já estivesse instalado muito antes. A desistência foi apenas o capítulo final de uma sucessão de escolhas que corroeram sua competitividade.

A primeira delas foi abraçar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um dos estados mais bolsonaristas do país. Rondônia consolidou um eleitorado majoritariamente conservador, mas Confúcio apostou na direção oposta, acreditando que poderia reunir em torno de si o campo da esquerda que mais tarde se rebelou contra ele. O cálculo revelou-se mais otimista do que realista.

Outro desgaste veio com a defesa do pedágio na BR-364. Enquanto caminhoneiros, produtores e trabalhadores enxergavam mais um peso no bolso, o senador passou a ser identificado como defensor da cobrança, o pai do pedágio. Em eleição, dificilmente prospera quem é visto como aliado do custo, e não do usuário.

Seus discursos também se aproximaram cada vez mais da agenda da esquerda nacional. Não há demérito nisso. Mas existe uma distância entre convicção ideológica e estratégia eleitoral. Quando uma deixa de dialogar com o sentimento predominante do eleitor, o preço costuma aparecer nas urnas, no caso em tela apareceu antes.

A chamada Caravana da Esperança, organizada ao lado de partidos de esquerda pelo interior, simbolizou esse descompasso. O objetivo era apresentar as realizações do governo Lula, mas encontrou um eleitorado que, em grande parte, não reconheceu esses resultados em Rondônia. A caravana saiu para empolgar e voltou sem conseguir produzir o efeito político esperado.

Também pesou a demora em decidir se seria candidato. Durante meses, aliados e adversários aguardaram uma definição e Confúcioi enrolou. Na política, quem hesita por muito tempo acaba vendo outros ocuparem o espaço.

Nos bastidores, chamou atenção a tentativa de inviabilizar candidaturas concorrentes no próprio campo progressista, como a da  jornalista Luciana Oliveira. A impressão que ficou foi a de que o senador passou a olhar mais para a própria sobrevivência eleitoral do que para a construção de um projeto coletivo.

Esse comportamento repetiu-se dentro do MDB. Em vez de fortalecer o partido, Confúcio empenhou-se em sufocar a candidatura de Amir Lando ao Senado. Jurista, intelectual respeitado e um dos pioneiros da representação política de Rondônia em Brasília, Amir acumulou serviços relevantes ao Estado e à própria legenda. Ainda assim, foi colocado à margem. O personalismo falou mais alto que o interesse partidário. A ironia veio logo depois: quem trabalhou para retirar Amir da disputa acabou retirando a si mesmo, deixando o MDB sem candidato ao Senado e competitivo ao próprio governo.

Enquanto cuidava do próprio projeto, o partido seguia perdendo força. O MDB chegou às eleições com uma nominata considerada frágil, sem protagonismo e distante da influência que um dia exerceu em Rondônia. A legenda que já comandou a política estadual hoje luta para não se tornar mera coadjuvante.

A idade de Confúcio, naturalmente, também entrou na equação. Não por diminuir a importância da experiência, mas porque o eleitor demonstra crescente desejo de renovação. Em política, biografia abre portas; não garante votos.

Confúcio Moura encerra sua trajetória eleitoral com um currículo respeitável e serviços inegáveis prestados a Rondônia. Mas a política ensina que o passado constrói reputação, enquanto o presente decide eleições.

Sua renúncia não parece um fato isolado. É o desfecho de uma estratégia que perdeu sintonia com o eleitor e de um projeto que, em muitos momentos, preferiu olhar para o próprio umbigo. E quando um líder abandona o partido para preservar a si mesmo, corre o risco de perder ambos.

No fim, a política produziu uma de suas ironias mais conhecidas. Durante meses, Confúcio empunhou o machado, decidiu quem teria espaço, quem seria descartado e quem deveria deixar o caminho livre para sua reeleição.  Cortou cabeças, isolou aliados e concentrou o partido em torno de si. Mas o destino costuma reservar surpresas aos que acreditam ser donos do cadafalso. O carrasco que cortava o pescoço de todo mundo acabou conduzido ao próprio cadafalso. E, ao baixar a lâmina sobre a própria candidatura, descobriu tarde demais que, na política, quem transforma o partido em instrumento de um projeto pessoal corre o risco de perder ambos: o poder e a história.

*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, 103,1.

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