COLAPSO CLIMÁTICO: Calor extremo causou 885 mortes em Rondônia em duas décadas, aponta estudo

Publicado em: 24/08/2026 12:42

Rondoniaovivo.com

Pesquisa nacional inédita do MCTI, Fiocruz e UFBA revela que ondas de calor são fator direto de óbitos no estado; idosos concentram 71% dos casos

Um estudo inédito do governo federal e de instituições de pesquisa revelou que a exposição às ondas de calor extremo provocou 885 mortes em Rondônia entre os anos de 2000 e 2019. Os dados constam no relatório “Saúde e Ondas de Calor: Mortalidade, morbidade e implicações para o SUS no Brasil”, elaborado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em todo o país, a estimativa é de que aproximadamente 120 mil mortes por causas naturais estejam associadas a esse estresse térmico.

O levantamento epidemiológico quantificou o impacto real do calor no território rondoniense e indicou que as mortes não ocorrem de forma homogênea, atingindo com maior gravidade as populações mais velhas.

Do total de 885 óbitos atribuídos às temperaturas extremas no estado, 630 ocorreram na faixa etária de 65 anos ou mais, o que equivale a 1,1% de todas as mortes de idosos registradas em Rondônia no período analisado. Entre a população de 0 a 64 anos, foram estimadas 208 mortes (fração de 0,39% do total).

Ao estratificar os óbitos por patologias específicas, o estudo destaca as doenças cardiovasculares e respiratórias como as principais causas de letalidade induzidas pelo calor no estado:

Doenças cardiovasculares: Foram estimadas 316 mortes em Rondônia associadas ao estresse térmico, o que corresponde a 0,96% de todos os óbitos por causas cardíacas no estado.

Doenças respiratórias: O calor extremo foi o responsável por 183 óbitos na área respiratória, representando uma fração de 1,47% das mortes totais por esse grupo de doenças em Rondônia.

Rondônia lidera tendência de intensificação das ondas de calor

O estudo aponta que o perfil das ondas de calor no Brasil varia geograficamente. Enquanto o Sul e o Sudeste sofrem com episódios curtos e de forte variação térmica, a Região Norte e o Centro-Oeste registram eventos de longa duração, maior número de dias quentes e estresse térmico contínuo.

A análise histórica das duas décadas aponta que o número de dias sob ondas de calor e a intensidade média desses eventos cresceram em quase todo o país.

Rondônia e Mato Grosso destacam-se nacionalmente pela tendência de aumento na intensidade média, indicando que as temperaturas registradas durante esses episódios estão se afastando de forma progressiva da média climatológica histórica de referência.

Mecanismos fisiológicos e o “gradiente social” do risco

O estresse térmico prolongado afeta o corpo humano ao sobrecarregar os mecanismos naturais de termorregulação e o equilíbrio hidroeletrolítico.

A exposição contínua ao calor intenso gera desidratação, vasodilatação periférica, hipotensão e inflamação sistêmica, o que pode agravar rapidamente quadros crônicos preexistentes.

Em idosos, a sensibilidade é ampliada por dificuldades circulatórias e pelo uso de de medicamentos diuréticos ou anti-hipertensivos, que dificultam a regulação da hidratação.

O relatório técnico também documenta uma aparente contradição estatística: a redução de internações por doenças cardiovasculares concomitante ao aumento expressivo de óbitos por essas mesmas patologias em dias quentes.

Segundo a análise médica, isso ocorre porque, em episódios severos de calor, a deterioração das funções cardiovasculares é tão acentuada que o paciente enfarta e morre antes de conseguir ser hospitalizado, eliminando a chance de registro de internação prévia.

A pesquisa reforça ainda que o impacto das ondas de calor é profundamente modulado pelas condições sociais e de infraestrutura. Os cientistas identificaram um nítido “gradiente social de risco” no país, no qual o aumento percentual de mortes é significativamente maior entre pessoas com menor nível de escolaridade.

Essa vulnerabilidade decorre da falta de acesso a ambientes climatizados, moradias sem isolamento térmico adequado, condições de trabalho com exposição direta ao sol e restrições no acesso a serviços de saúde preventiva.

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