Erros de pesquisa nas eleições: discrepâncias entre projeções e resultados

Publicado em: 06/10/2026 22:04

Os resultados do primeiro turno das eleições de 2023 revelaram uma significativa discrepância entre os dados projetados por institutos de pesquisa e os resultados efetivamente apurados nas urnas. Tanto em níveis nacional quanto estadual, as pesquisas realizadas por Datafolha, Quaest, Atlas, CNT e Real Time Big Data não conseguiram prever com precisão os resultados das eleições realizadas no dia 4 de outubro.

No cenário presidencial, as pesquisas indicavam uma liderança de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas intenções de voto, mas os números finais mostraram Flávio Bolsonaro (PL) à frente, com 47% dos votos, enquanto Lula obteve 45%. A diferença entre os dois candidatos foi de 2,2 milhões de votos a favor do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

As principais projeções de intenção de voto para a presidência antes do primeiro turno foram:
– Datafolha: Lula (PT) – 45%; Flávio Bolsonaro (PL) – 42%
– Quaest: Lula (PT) – 46%; Flávio Bolsonaro (PL) – 45%
– Real Time Big Data: Lula (PT) – 43%; Flávio Bolsonaro (PL) – 39%
– Atlas: Lula (PT) – 47%; Flávio Bolsonaro (PL) – 44,1%
– CNT: Lula (PT) – 47,8%; Flávio Bolsonaro (PL) – 42,1%

Além da corrida presidencial, os erros se repetiram nas pesquisas para os governos estaduais. No Distrito Federal, as projeções indicavam uma vitória tranquila da atual governadora Celina Leão (PP) sobre Leandro Grass (PT), mas os resultados mostraram que seria necessário um segundo turno, com Celina obtendo 49,9% e Grass 34,4%. As últimas sondagens no DF apontavam:
– Quaest: Celina Leão (PP) – 53%; Leandro Grass (PT) – 32%
– Real Time: Celina Leão (PP) – 52%; Leandro Grass (PT) – 29%
– Datafolha: Celina Leão (PP) – 55%; Leandro Grass (PT) – 27%
– Atlas: Celina Leão (PP) – 45,3%; Leandro Grass (PT) – 34%

No Rio de Janeiro, as pesquisas também falharam ao prever o resultado do primeiro turno para o governo. Embora Eduardo Paes (PSD) fosse frequentemente apontado como líder, Douglas Ruas (PL) terminou à frente com 49% dos votos, enquanto Paes ficou com 42%. As últimas sondagens para o Rio indicavam:
– Quaest: Eduardo Paes (PSD) – 49%; Douglas Ruas (PL) – 40%
– Real Time Big Data: Eduardo Paes (PSD) – 37%; Douglas Ruas (PL) – 31%
– Datafolha: Eduardo Paes (PSD) – 49%; Douglas Ruas (PL) – 40%
– AtlasIntel: Eduardo Paes (PSD) – 46,4%; Douglas Ruas (PL) – 38%

As falhas se estenderam também à disputa pelo Senado. No Distrito Federal, as pesquisas mostravam Michelle Bolsonaro (PL) liderando, mas o resultado final foi de 29,05% para Michelle e 27,44% para Bia Kicis (PL), ambos eleitos. Os dados das pesquisas para o Senado no DF incluíam:
– Quaest: Michelle – 31%; Leila – 27%; Bia – 24%; Erika – 17%
– Datafolha: Michelle – 30%; Bia – 24%; Leila – 21%; Erika – 18%
– AtlasIntel: Bia – 27,2%; Michelle – 26,1%; Leila – 21,3%; Erika – 21,3%

No Rio de Janeiro, as pesquisas previam Benedita da Silva (PT) como a favorita, mas ela não conseguiu se eleger, enquanto Carlos Portinho (PL) e Carlos Jordy (PL) foram os eleitos. As últimas projeções para o Senado no Rio mostravam:
– Quaest: Carlos Portinho (PL) – 23%; Carlos Jordy (PL) – 22%; Benedita da Silva (PT) – 21%; Pedro Paulo (PSD) – 13%
– Real Time Big Data: Carlos Jordy (PL) – 18%; Benedita da Silva (PT) – 15%; Carlos Portinho (PL) – 14%; Pedro Paulo (PSD) – 12%
– Datafolha: Benedita da Silva (PT) – 26%; Carlos Portinho (PL) – 19%; Carlos Jordy (PL) – 18%; Pedro Paulo (PSD) – 13%

Em São Paulo, as pesquisas indicavam um cenário de empate técnico, mas Guilherme Derrite (PP) conquistou 30,59% dos votos, seguido por André do Prado (PL) com 29,28%. As últimas projeções para o Senado em SP foram:
– Quaest: Guilherme Derrite (PP) – 25%; André do Prado (PL) – 23%; Marina Silva (Rede) – 22%; Simone Tebet (PSB) – 22%
– Datafolha: Derrite – 22%; André – 22%; Marina – 21%; Tebet – 20%
– AtlasIntel: Derrite – 25,9%; André – 24,2%; Tebet – 22,2%; Marina – 21,5%

Os institutos de pesquisa, ao serem questionados sobre os erros, defenderam que as pesquisas representam “retratos do momento” e não previsões, como explicou Lucas Thut Sahd, diretor executivo do Real Time Big Data. Segundo ele, as sondagens podem apontar tendências, mas não capturam o sentimento do eleitor no dia da votação.

Ainda assim, o professor Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí, destacou que a falta de interesse do eleitor pela eleição de senadores e o alto número de indecisos podem dificultar as projeções. A abstenção, especialmente entre eleitores de baixa renda, também pode ter influenciado os resultados, conforme mencionado pelo cientista político Antônio Lavareda.

Por fim, Murilo Hidalgo, da Paraná Pesquisas, informou que o instituto suspendeu as sondagens para o Senado antes das eleições devido à dificuldade de medir a intenção de voto real, já que muitos eleitores decidem seus votos apenas próximo ao dia da eleição.

Texto de Carinne Souza, publicado originalmente em Metrópoles.

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