Abate controlado de búfalos na Amazônia: ICMBio inicia teste para salvar ecossistemas ameaçados por espécie invasora

Publicado em: 30/12/2025 23:44
Imagem: Arquivo/Estadão – O juiz Frank Eugênio Zakalhuk reconheceu a gravidade do problema, mas recusou um abate imediato. Em vez disso, determinou que o ICMBio e o governo de Rondônia apresentem, em 90 dias, um plano técnico de erradicação.

No coração da Amazônia Ocidental, onde a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado se encontram, uma crise ambiental silenciosa ameaça o futuro de espécies endêmicas e ecossistemas únicos. Mais de 5 mil búfalos selvagens, introduzidos no Brasil há sete décadas, reproduzem-se sem controle nas unidades de conservação do oeste de Rondônia, causando danos irreversíveis à biodiversidade local. Diante da urgência, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) prepara-se para realizar um teste piloto de abate controlado de 500 animais — cerca de 10% da população invasora — em uma das regiões mais remotas e sensíveis do país.

Os búfalos, originários da Ásia, foram trazidos ao estado em 1953 por um projeto governamental de exploração leiteira e de carne que, após fracassar, deixou os animais abandonados. Sem predadores naturais e com alta capacidade reprodutiva, eles se espalharam pelas Reservas Biológica Guaporé, Extrativista Pedras Negras e de Fauna Pau D’Óleo, transformando-se em uma praga ecológica de proporções alarmantes.

“É um ambiente único, com várias espécies endêmicas — residentes ou migratórias — que só existem aqui. A presença do búfalo vai levar à extinção de várias delas”, alerta Wilhan Cândido, biólogo e analista ambiental do ICMBio, após meses de monitoramento com drones e levantamentos de campo.

Impactos devastadores

Os danos causados pelos búfalos vão muito além da competição por alimento. Seus hábitos de deambular em grandes grupos compactam o solo, desestabilizam margens de lagoas e desviam cursos naturais de água ao abrir trilhas profundas que funcionam como canais artificiais. Em áreas alagadas fundamentais para a manutenção de buritizais — ecossistemas ricos em palmeiras de buriti, essenciais para a fauna local —, o solo já cedeu até um metro de profundidade, arrancando raízes de árvores e deixando desertos de terra batida.

“Estimávamos que levaria de 70 a 100 anos para recuperar essas áreas. Mas, se não removermos o principal fator de impacto — o próprio búfalo —, acredito que esse buritizal nunca voltará a existir”, afirma Cândido.

A fauna também sofre diretamente. O cervo-do-pantanal, classificado como vulnerável à extinção, foi praticamente expulso de seus habitats tradicionais. “Passamos 10 dias na região com drones e câmeras. Não registramos um único cervo convivendo com búfalos. Eles estão sendo confinados a pequenos refúgios, com risco crescente de desaparecimento local”, relata o biólogo.

Por que o abate?

Apesar da controvérsia ética, o abate surge como a única alternativa viável diante das condições logísticas e sanitárias do local. A região é extremamente remota, sem estradas ou infraestrutura para a retirada dos animais vivos. Além disso, os búfalos nunca foram submetidos a controle sanitário, tornando sua carne imprópria para consumo humano ou comercialização. “Ou protegemos nossas espécies nativas ameaçadas, ou ficamos apenas com a espécie exótica invasora”, resume Cândido.

O plano piloto, aprovado com cautela pela Justiça Federal, envolve uma parceria tríplice: o ICMBio coordena a logística e o manejo da área, a Universidade Federal de Rondônia (Unir) analisará a sanidade dos animais abatidos, e uma empresa especializada — que se ofereceu voluntariamente — executará o abate com métodos considerados humanos e técnicos.

Pressão judicial e prazo apertado

Em 24 de novembro, o juiz Frank Eugênio Zakalhuk reconheceu a gravidade do problema, mas recusou um abate imediato. Em vez disso, determinou que o ICMBio e o governo de Rondônia apresentem, em 90 dias, um plano técnico de erradicação que inclua: metodologia científica, avaliação de riscos ambientais, medidas de segurança, cronograma, custos e destinação das carcaças. A expectativa do MPF é clara: sem ação eficaz, a população de búfalos poderá explodir para 50 mil cabeças em cinco anos, acelerando a degradação de um dos pontos de maior biodiversidade do planeta.

Via Media Press

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