A nova fronteira do crime organizado está na Amazônia
Estudo revela que atividades ilegais e facções impulsionaram quase 19 mil homicídios, reposicionando a violência no interior do Brasil
O crime organizado brasileiro deixou de ser um problema doméstico. Hoje, atravessa fronteiras, pressiona governos e entra no radar de disputas geopolíticas.
Dos Estados Unidos aos países vizinhos da América Latina, cresce a cobrança por respostas mais duras ao tráfico e às redes ilegais que operam na região. Mas há um ponto cego nesse debate: a Amazônia. É ali que parte decisiva dessa engrenagem se estrutura, se financia e se expande.
Um novo estudo do projeto Amazônia 2030 mostra por que ignorar esse território é um erro estratégico. A pesquisa, entitulada “Da exploração ilegal de recursos naturais ao tráfico internacional de cocaína: padrões de violência na Amazônia brasileira”, analisa a evolução dos homicídios e sua relação com diferentes atividades ilegais ao longo do tempo.
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O trabalho é de Leila Pereira e Rafael Pucci, ambos do departamento de Economia da USP; e Rodrigo Soares, da Cátedra Fundação Lemann no Insper. Os pesquisadores relatam como, nas últimas duas décadas, a violência nos pequenos municípios da Amazônia Legal seguiu um caminho distinto do restante do país. Entre 1999 e 2023, a região acumulou 18.755 homicídios a mais do que teria registrado se tivesse acompanhado a trajetória dos demais municípios de pequeno porte.
O crime organizado brasileiro deixou de ser um problema doméstico. Hoje, atravessa fronteiras, pressiona governos e entra no radar de disputas geopolíticas. Dos Estados Unidos aos países vizinhos da América Latina, cresce a cobrança por respostas mais duras ao tráfico e às redes ilegais que operam na região. Mas há um ponto cego nesse debate: a Amazônia. É ali que parte decisiva dessa engrenagem se estrutura, se financia e se expande.
Um novo estudo do projeto Amazônia 2030 mostra por que ignorar esse território é um erro estratégico. A pesquisa, entitulada “Da exploração ilegal de recursos naturais ao tráfico internacional de cocaína: padrões de violência na Amazônia brasileira”, analisa a evolução dos homicídios e sua relação com diferentes atividades ilegais ao longo do tempo.
O trabalho é de Leila Pereira e Rafael Pucci, ambos do departamento de Economia da USP; e Rodrigo Soares, da Cátedra Fundação Lemann no Insper. Os pesquisadores relatam como, nas últimas duas décadas, a violência nos pequenos municípios da Amazônia Legal seguiu um caminho distinto do restante do país. Entre 1999 e 2023, a região acumulou 18.755 homicídios a mais do que teria registrado se tivesse acompanhado a trajetória dos demais municípios de pequeno porte.
No início dos anos 2000, o padrão era semelhante. Municípios pequenos da Amazônia e do restante do Brasil registravam cerca de 10 homicídios por 100 mil habitantes. A partir de 2005, as curvas se separam. Em 2023, esses municípios amazônicos atingem 30 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto o restante do país permanece em torno de 20. A diferença indica que algo mudou na forma como o crime se organiza e opera na região. O estudo identifica quatro vetores principais dessa mudança:
Exploração ilegal de madeira;
Grilagem de terras;
Mineração ilegal de ouro; e
Presença de facções ligadas ao tráfico.
Juntos, esses fatores explicam 18.367 homicídios que poderiam ter sido evitados no período analisado. Os dados não apontam para variáveis isoladas e sim partes de um mesmo sistema econômico ilegal que se fortalece à medida que avança sobre o território, ou como os autores preferem chamar: “economia ilícita” .
Ao longo do tempo, esse sistema também mudou de eixo. Até meados dos anos 2000, a violência estava mais associada à exploração ilegal de madeira. Em seguida, ganham peso os conflitos fundiários e a mineração ilegal. Mas é a partir da segunda metade da década de 2010 que ocorre a virada mais preocupante, com o tráfico de drogas e as facções ocupando o centro da cena.




