Concessão inédita na Flona Bom Futuro em RO: R$ 87 milhões para restaurar 6 mil hectares

Publicado em: 08/04/2026 15:55

Modelo inédito concede área na Flona do Bom Futuro, em Rondônia, à Re.green por 40 anos; iniciativa projeta restaurar mais de 6 mil hectares e gerar quase 1,9 milhão de toneladas de CO₂ equivalente

Em resumo

  • Governo federal conclui, em 25 de março, primeiro leilão de concessão voltado à restauração florestal com geração de créditos de carbono, na B3, em São Paulo.
  • Re.green vence certame e assume gestão de 51.211 hectares na Floresta Nacional do Bom Futuro (RO) por 40 anos, com investimento estimado de R$ 87 milhões.
  • Projeto prevê restauração direta de 6.290 hectares, geração de 479 empregos e participação do povo indígena Karitiana na cadeia de sementes nativas.
  • Por que isso importa: O modelo estabelece um precedente para financiar recuperação de biomas brasileiros via mercado de carbono, alinhando política ambiental, atração de capital privado e metas internacionais do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg).

Em 25 de março, o Governo do Brasil realizou, na B3 em São Paulo, o primeiro leilão de concessão voltado à restauração florestal com geração de créditos de carbono. A vencedora, Re.green, assumirá por 40 anos a gestão da Unidade de Manejo II da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia — um marco que vincula recuperação ambiental a mecanismos de mercado.

“Essa é uma proposta inédita. Somos um país de cultura extrativista, mesmo que em bases sustentáveis. Por meio desta iniciativa, estamos impulsionando a agenda de restauração, que gera como frutos, neste caso, créditos de carbono.”Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Um modelo inédito que transforma restauração em ativo econômico

O certame, conduzido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), representa uma inflexão na política ambiental brasileira. Pela primeira vez, a restauração ecológica deixa de ser apenas uma obrigação regulatória ou projeto pontual para se tornar o núcleo de um contrato de concessão de longo prazo.

A proposta aprovada permite ao parceiro privado comercializar créditos de carbono e produtos da silvicultura de espécies nativas. Esses fluxos de receita financiam a recuperação da floresta, criando um ciclo virtuoso: quanto mais eficaz a restauração, maior o volume de créditos gerados e a sustentabilidade financeira do projeto.

Garo Batmanian, diretor-geral do SFB, destacou que o resultado valida a modelagem técnica desenvolvida pelo órgão. “A restauração é uma necessidade no Brasil para protegermos nossos biomas e garantirmos que as populações locais possam utilizar os serviços ambientais gerados”, afirmou. “O sucesso do leilão de hoje é um marco que coincide com os 20 anos do Serviço Florestal Brasileiro, iniciando uma nova fase.”

 

  1. Área total sob gestão: 51.211 hectares na Flona do Bom Futuro.
  2. Área de restauração direta: 6.290 hectares de áreas degradadas.
  3. Investimento estimado (Capex): R$ 87 milhões ao longo de 40 anos.
  4. Impacto climático: Potencial de geração de 1.897.302 toneladas de CO₂ equivalente.
  5. Geração de empregos: 479 postos na região, sendo 272 diretos e 207 indiretos.
  6. Retorno financeiro público: Outorga média anual de R$ 89 mil, com repasses garantidos ao SFB, Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal (FNDF), estado, município e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“É uma experiência capaz de iluminar o caminho para a restauração necessária nas florestas brasileiras em áreas públicas.”Ian Ramalho, superintendente de Infraestrutura do BNDES.

Contexto estratégico: pressão sobre a Amazônia e metas nacionais

A Floresta Nacional do Bom Futuro está entre as Unidades de Conservação mais pressionadas da Amazônia. De acordo com Iara Vasco, diretora de Criação e Manejo de UCs do ICMBio, a região sofre com desmatamento, queimadas, mineração ilegal, garimpo e expansão agropecuária — dinâmicas que convertem floresta em pastagem e agricultura.

Nesse cenário, a concessão cumpre dupla função: proteger uma área vulnerável por meio de gestão profissionalizada e demonstrar que é possível atrair capital privado para a conservação sem abrir mão de rigor ambiental. O projeto se alinha ao Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que prevê restaurar 12 milhões de hectares até 2030. Atualmente, o Brasil conta com 3,4 milhões de hectares em processo de recuperação — quase um terço da meta.

Inclusão produtiva e o papel das comunidades tradicionais

Um diferencial estrutural do edital foi a consulta prévia e a previsão de participação ativa de comunidades locais. O povo indígena Karitiana, consultado durante a estruturação do processo, manifestou interesse e terá papel na cadeia produtiva, fornecendo sementes e mudas de espécies nativas — insumos essenciais para a restauração ecológica na região.

Essa abordagem reconhece que a efetividade de longo prazo de projetos de conservação depende da integração com quem vive no território. Mais do que mitigar riscos sociais, a inclusão produtiva potencializa o conhecimento tradicional e fortalece a governança local.

Próximos passos: aprimoramento do modelo e expansão da carteira

A concessão da Flona do Bom Futuro integra um portfólio mais amplo de estruturação de ativos ambientais pelo Governo do Brasil. Em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), o SFB estrutura atualmente 17 novos projetos de concessão — 10 de manejo florestal sustentável e sete focados em restauração.

O órgão realizará agora uma avaliação técnica detalhada deste primeiro processo para incorporar aprendizados e aprimorar os próximos editais. Isso inclui a UMF I, lote que não recebeu propostas nesta rodada, com o objetivo de ampliar a competitividade sem renunciar à integridade ambiental.

O leilão da Flona do Bom Futuro não é apenas um contrato assinado. É um teste de conceito para uma pergunta estratégica: é possível financiar a recuperação da Amazônia por meio de mecanismos de mercado, sem subordinar a conservação à lógica do lucro? A resposta virá nos próximos anos, à medida que a Re.green implementar o plano de restauração e os créditos de carbono forem efetivamente gerados e comercializados.

Se bem-sucedido, o modelo pode ser replicado em outras unidades de conservação pressionadas, criando uma nova frente de atuação para o Estado brasileiro: não apenas fiscalizar e punir, mas estruturar arranjos que tornem a floresta em pé mais valiosa do que derrubada. O desafio agora é garantir transparência, monitoramento independente e participação social contínua — condições sem as quais qualquer inovação corre o risco de se perder no caminho.

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