Porto Velho: Onde o Rondoniense e o Rondoniano se Encontram e se Alimentam.

Publicado em: 16/02/2026 12:38
Porto Velho: Onde o Rondoniense e o Rondoniano se Encontram e se Alimentam.
Por um capixaba de alma rondoniense.
Visitar Porto Velho não é apenas atravessar uma fronteira histórico-geográfica; é mergulhar em um caldo cultural denso, temperado por décadas de migração e resiliência. Como um migrante capixaba, cujas raízes se entrelaçam entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, encontrei nesta capital um espelho da pluralidade brasileira. Porto Velho não é apenas o destino de quem busca oportunidades; é o porto seguro de quem trouxe na bagagem o sotaque, a saudade e, principalmente, o sabor de casa.
A história da cidade se lê nas ruas. Ela começou a ser desenhada no final do século XIX com os trilhos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré inaugurada em 1912 e ganhou voz com as linhas telegráficas de Rondon em 1915. De lá para cá, as ondas migratórias não pararam: a exploração do látex durante a Segunda Guerra Mundial, a mineração dos anos 60, a agropecuária dos anos 70 e a consolidação do Estado em 1982 e as oportunidades do setor terciário.
Hoje, o que vemos é um contraste charmoso: o “novo” e o “arcaico” caminham de mãos dadas entre as largas avenidas do imponente Centro Político Administrativo (CPA), a Sete de Setembro e o pujante comércio, os reutasrantes e bares com uma diversidade culinária incrível se misturam com o histórico Mercado Central, o Palácio Getúlio Vargas, as famosas Caixas D’água e o espólio da Estrada de Ferro Madeira Momoré – os símbolos mais importantes de nossa história – a prefeitura e a antiga sede administrativa da ferrovia, o Memorial Rondon, o Porto Cai N’agua, a lindíssima Catedral, o complexo hidrelétrico e os novos empreendimentos.
Mas é no paladar que a cidade realmente se revela. Em Porto Velho, as cinco macrorregiões do Brasil se sentam à mesma mesa com indígenas, bolivianos, caribenhos, libaneses e vários outros povos que contribuíram com nossa cultura. Entre hamburguerias modernas, restaurantes asiáticos, comida mineira e nordestina, meu refúgio pessoal permanece sendo o Mercado Central.
Às margens do Rio Madeira, o Mercado é o resumo da alma rondoniense. É um local incrível, funcionando no passado como ponto estratégico unindo abastecimento, tradição cultural e intensa sociabilidade. Um espaço amplamente democrático, concentrando o comércio de produtos locais, artesanato e sabores regionais e uma arquitetura histórica muito comum nos mercados regionais amazônicos. É um espaço democraticamente ruidoso, onde o aroma do pirarucu salgado e dos peixes frescos se misturam ao das ervas medicinais e das garrafadas que prometem curas milagrosas. Ali, a arquitetura amazônica guarda tesouros que os supermercados gélidos não conseguem replicar: queijos, doces, peixes, farinhas, artesanato indígena e a autêntica carne de sol.
Meu ritual sagrado começa cedo. O café da manhã é um banquete de texturas: um mingau de banana com tapioca para suavizar o despertar e o lendário X-caboclinho. Imagine a combinação audaciosa do pão bengalinha com queijo coalho, banana frita, tucumã e carne de sol; é a síntese da energia amazônica. Para quem prefere outros caminhos, há sempre a saltenha boliviana ou o tradicional “baixaria” (cuscuz com carne, ovo e queijo), pastel, saltenha boliviana, pupunha, açaí, caldo de mocotó, tacacá, sopas, tapioca e várias outras iguarias garantindo que ninguém saia dali sem um sorriso no rosto.
O turismo gastronômico continua conforme o sol sobe e vai esquentando a moleira. Almoçar à beira do Madeira, degustando uma costela de tambaqui acompanhada de um chopp Coronel Church gelado, é entender que o velho ditado faz sentido; “quem comi do nosso tambaqui, nunca mais sai daqui.” E quando a noite cai, a continentalidade e a maior floresta tropical do mundo vai suavizando aquele calor característico, rendo-me a uma curiosa paixão local: os caldos. Para um capixaba que ama sopa, ver o povo amazônico se deliciar com caldos fumegantes sob o clima tropical não é um sacrifício, é uma celebração de pertencimento com o mais lindo por do sol do Brasil nas margens do Madeirão.
Após 16 anos nesta terra, Porto Velho me ensinou que esta capital não é apenas um ponto no mapa; é uma explosão de sabores e uma lição diária de acolhimento!
Alex Duarte do Espírito Santo

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