“A situação é bem pior”: economista alerta para contas de RO e prevê “dor de cabeça”

Publicado em: 17/08/2026 19:15
Foto – RondonoticiasMaterial de referência geográfica

PORTO VELHO, RO – Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá e conduzido excepcionalmente pelo comunicador e jornalista Ray Lavareda, que substitui temporariamente o titular durante sua viagem, o programa A Voz do Povo desta segunda-feira (17/08) recebeu o professor e economista Otacílio Moreira para uma análise sobre a situação econômica de Rondônia e os desafios que deverão estar na mesa do próximo governador a partir de 2027.

Docente da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e colunista da Rádio Caiari, Otacílio concentrou sua análise no comportamento das contas públicas, no crescimento das despesas e na situação de setores produtivos que, segundo ele, perderam força nos últimos anos. Em um momento marcado pelo início da campanha eleitoral, o economista avaliou que o cenário econômico deverá ocupar espaço importante no debate pela sucessão estadual.

Logo no início da entrevista, Otacílio afirmou acompanhar com preocupação a condução econômica do Estado, principalmente nos últimos dois anos. Para ele, o quadro apresentado recentemente pelo Tribunal de Contas aos candidatos ao Governo de Rondônia não mostraria toda a dimensão do problema.

“A situação que o Tribunal de Contas mostrou ali para os candidatos não é totalmente a verdade. A situação é bem pior”, afirmou.

Campanhas e eleições

 

Ao sustentar sua avaliação, o economista comparou receitas e despesas estaduais ao longo dos últimos anos. Segundo os números apresentados por ele durante o programa, Rondônia registrava em 2022 mais de R$ 13,1 bilhões em receitas e aproximadamente R$ 12 bilhões em despesas, deixando uma diferença próxima de R$ 1 bilhão.

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Otacílio afirmou que essa margem diminuiu posteriormente. Em 2023, segundo ele, foram aproximadamente R$ 14 bilhões em receitas diante de R$ 13,6 bilhões em despesas. Na avaliação do professor, o cenário mais recente indica uma aproximação cada vez maior entre aquilo que entra nos cofres públicos e o volume de gastos.

“O governo atual está gastando tudo”, criticou.

Além das despesas gerais, o economista chamou atenção para a utilização de recursos originalmente vinculados a fundos destinados a setores específicos. Um dos exemplos apresentados foi o ProLeite, criado para fomentar a cadeia produtiva do leite.

Segundo Otacílio, recursos que poderiam ser direcionados à produção e à melhoria da atividade passaram a ser utilizados para despesas correntes. Ele relacionou esse cenário às dificuldades enfrentadas atualmente pelo setor leiteiro de Rondônia.

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O professor afirmou que o Estado chegou a possuir cerca de 41 mil produtores de leite e hoje teria aproximadamente 25 mil. Também apontou redução na produção diária, que teria passado de cerca de 2,8 milhões para aproximadamente 1,5 milhão de litros.

“Você tem uma crise no setor lácteo”, resumiu.

Outro fundo citado foi o FESA, relacionado à sanidade animal. Otacílio demonstrou preocupação com a utilização desses recursos para outras finalidades e argumentou que fundos dessa natureza são importantes para garantir condições de resposta a problemas sanitários e proteção aos próprios produtores.

As críticas também alcançaram a fiscalização sobre a gestão pública. Na avaliação do economista, a Assembleia Legislativa deveria exercer uma atuação mais efetiva diante da situação apresentada.

“Nós temos uma Assembleia que está paralisada, não faz nada em relação a isso. Você tem dois ou três deputados ali que vão à tribuna, falam alguma coisa, gritam e tudo mais, mas são vozes isoladas”, declarou.

Otacílio também questionou a atuação do próprio Tribunal de Contas diante dos problemas apontados e defendeu maior rigor na fiscalização das contas estaduais.

Apesar das críticas, o economista reconheceu avanços registrados anteriormente na administração estadual. Segundo ele, houve um período em que diferentes cadeias produtivas apresentavam desempenho mais favorável e o Governo de Rondônia buscava mercados externos para a produção local.

“Em outros momentos eu falei muito bem do governador aqui”, ponderou, antes de acrescentar que, na avaliação dele, houve posteriormente uma mudança de direção: “Chegou o momento que ele esqueceu um pouco do Estado”.

A piscicultura foi outro exemplo apresentado. Otacílio afirmou que Rondônia já registrou produção superior à atual e defendeu uma estratégia para recuperar setores que perderam espaço. Para ele, leite e pescado estão entre as cadeias que precisarão de atenção da próxima administração.

Ao projetar 2027, o economista foi categórico sobre o tamanho do desafio que encontrará quem vencer a eleição deste ano.

“O próximo governador já vai entrar com uma dor de cabeça”, afirmou.

Entre os pontos que deverão pressionar a futura gestão, Otacílio mencionou o crescimento da estrutura administrativa, despesas com servidores e a situação da Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia (Caerd), que passou à condição de estatal dependente.

O orçamento estadual também entrou no debate. Questionado sobre a previsão de aproximadamente R$ 18 bilhões para 2026, o professor argumentou que uma arrecadação maior não significa necessariamente equilíbrio fiscal quando as despesas crescem no mesmo ritmo.

“O grande problema para esse orçamento está do outro lado, não na receita. Está no gasto. Realmente o gasto tem preocupado bastante”, afirmou.

Nesse contexto, Otacílio defendeu uma discussão sobre reformas administrativas que atinjam benefícios considerados excessivos sem prejudicar servidores de menor remuneração. Ele citou licenças-prêmio e pagamentos que podem elevar significativamente a remuneração em determinados períodos.

A recuperação das contas, porém, não dependeria apenas de cortes. O economista defendeu uma política de desenvolvimento capaz de ampliar a industrialização e agregar valor à produção de Rondônia.

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Entre as possibilidades mencionadas estão a atração de frigoríficos, laticínios, indústria de calçados e uma usina de etanol. Para Otacílio, projetos industriais precisam estar associados às matérias-primas disponíveis no próprio Estado e à qualificação da mão de obra.

“Nós temos condição, porque nós temos matéria-prima para atender esse mercado”, destacou.

O professor também analisou os efeitos da reforma tributária sobre a capacidade dos estados de atrair empresas por meio de incentivos fiscais. Segundo ele, o fim gradual da chamada guerra fiscal pode reduzir a competitividade de projetos que dependam essencialmente de benefícios tributários para se instalar em Rondônia.

A entrevista ganhou contornos políticos ainda mais fortes quando o economista abordou a relação entre o Governo de Rondônia e a União. Otacílio criticou o que considera falta de articulação institucional do Estado para buscar investimentos federais.

Segundo ele, enquanto prefeituras, a Unir e o Instituto Federal de Rondônia apresentaram demandas ao Novo PAC, o Governo do Estado não teria aproveitado da mesma maneira as oportunidades disponíveis.

“Por uma questão ideológica, o atual governo foi um dos poucos a não, por exemplo, submeter nenhum projeto para o Governo Federal, para o Novo PAC”, afirmou.

Para Otacílio, diferenças políticas não deveriam impedir a construção de parcerias institucionais capazes de trazer investimentos para Rondônia.

“Não é porque lá é vermelho, eu sou azul, que eu não vou chegar lá”, declarou.

O economista também citou a concessão da BR-364 e os pedágios previstos na rodovia como exemplo de tema que, em sua avaliação, deveria provocar maior mobilização da bancada federal e das lideranças políticas do Estado.

Ao mesmo tempo em que apontou problemas, Otacílio ressaltou que Rondônia possui força econômica, especialmente no agronegócio. O desafio, segundo ele, é transformar essa capacidade produtiva em desenvolvimento sustentável, industrialização e aumento de produtividade sem depender continuamente da abertura de novas áreas.

A questão ambiental também entrou na análise. O professor demonstrou preocupação com o avanço da fronteira agrícola sobre áreas protegidas e lembrou que exigências ambientais estão cada vez mais relacionadas ao acesso da produção brasileira aos mercados internacionais.

Com a disputa pelo Governo de Rondônia oficialmente nas ruas, a análise de Otacílio coloca as contas públicas e o modelo de desenvolvimento econômico entre os temas que deverão pressionar os candidatos. Para o economista, o próximo chefe do Executivo não terá apenas o desafio de ampliar receitas e investimentos, mas precisará controlar despesas, recuperar cadeias produtivas e reconstruir capacidade de planejamento para evitar que o crescimento do orçamento seja consumido pelo avanço dos gastos.

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