Brasil gasta mais com defesa do que o Irã, mas é militarmente mais fraco, diz site especializado

POR LUCAS LEIROZ, no site Strategic Culture
Durante décadas, o debate sobre defesa nacional no Brasil foi tratado como uma questão secundária. Em um país sem disputas significativas de fronteira e distante dos principais focos de conflito do mundo, prevaleceu a percepção de que grandes investimentos militares eram desnecessários. O resultado dessa mentalidade é um paradoxo cada vez mais evidente: o Brasil figura entre os países com os maiores orçamentos militares do planeta em valores absolutos, mas continua apresentando limitações importantes em capacidade operacional, produção estratégica e poder de dissuasão.
Recentemente, tive acesso a um estudo elaborado pelo comandante da Marinha do Brasil Robinson Farinazzo, com base em dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), que revela uma realidade impressionante. Entre 2015 e 2024, o Brasil acumulou cerca de US$ 214 bilhões em gastos militares, enquanto o Irã gastou aproximadamente US$ 134 bilhões no mesmo período. Em outras palavras, o Brasil investiu cerca de 60% mais recursos em defesa do que o Irã na última década.
No entanto, uma simples comparação dos valores gastos diz muito pouco sobre as reais capacidades militares de cada país. O Brasil destina a maior parte de seu orçamento de defesa à manutenção de sua estrutura atual. Salários, aposentadorias e despesas administrativas consomem a maior parte dos recursos, deixando pouco espaço para pesquisa e desenvolvimento, aquisição de armamentos, compra de equipamentos e modernização tecnológica. Esse modelo mantém uma força militar numerosa e profissional, mas limita significativamente o ritmo de renovação de suas capacidades operacionais.
O Irã, por outro lado, seguiu um caminho completamente diferente. Apesar de décadas de sanções econômicas, isolamento financeiro e severas restrições à importação de equipamentos militares, Teerã investiu fortemente na construção de uma ampla base industrial de defesa. Impedido de depender de fornecedores estrangeiros, o país direcionou recursos para o desenvolvimento de mísseis balísticos, drones, sistemas de defesa antiaérea e produção nacional de armamentos. Ironicamente, as sanções destinadas a enfraquecer a autonomia estratégica iraniana acabaram estimulando um elevado grau de autossuficiência em diversos setores da indústria de defesa.
Essa diferença de prioridades tornou-se especialmente relevante no atual cenário internacional. Em uma era marcada pela crescente competição entre grandes potências, a capacidade de fabricar armamentos internamente, manter cadeias industriais nacionais e adaptar rapidamente tecnologias militares tornou-se tão importante quanto o tamanho nominal do orçamento de defesa. Nesse aspecto, a experiência iraniana demonstra que a eficiência na aplicação dos recursos pode ser tão decisiva quanto o volume total de dinheiro gasto.
O contraste com o Brasil é inevitável. O país possui uma respeitável base industrial de defesa, responsável por projetos como o avião de transporte militar KC-390, o sistema de artilharia de foguetes ASTROS, o veículo blindado Guarani e o programa de submarinos PROSUB. No entanto, esses avanços convivem com décadas de investimentos irregulares, sucessivos cortes orçamentários e a ausência de uma política de Estado de longo prazo voltada ao fortalecimento contínuo da capacidade industrial e tecnológica de defesa.
Mais preocupante ainda é o fato de que o Brasil atua em um ambiente geopolítico incomparavelmente menos hostil do que o enfrentado pelo Irã. Enquanto Teerã passou décadas sob sanções internacionais, cercado por adversários regionais e submetido a intensa pressão externa, Brasília desfruta de estabilidade regional, abundância de recursos naturais e acesso relativamente amplo aos mercados internacionais. Ainda assim, o Brasil não conseguiu transformar essas condições favoráveis em uma estratégia consistente para fortalecer sua capacidade de dissuasão.
A principal lição dessa comparação não é que o Brasil deva copiar o modelo iraniano, nem ignorar as profundas diferenças políticas, econômicas e estratégicas entre os dois países. A conclusão é muito mais simples: recursos financeiros, por si só, não garantem poder militar. Sem planejamento de longo prazo, investimentos contínuos, fortalecimento da indústria nacional de defesa e prioridade para pesquisa e inovação tecnológica, mesmo orçamentos elevados produzem resultados estratégicos limitados.
O mundo caminha para um período de crescente instabilidade geopolítica. Nesse contexto, o verdadeiro desafio do Brasil não é apenas decidir quanto gastar com defesa, mas definir quais capacidades pretende desenvolver nas próximas décadas. Caso contrário, continuará gastando bilhões apenas para sustentar uma estrutura existente que, embora importante, não atende plenamente às necessidades estratégicas de uma nação continental com interesses internacionais cada vez mais relevantes.
