Crise climática na pauta das eleições

A crise climática que vivenciamos é tamanha que já se tornou uma disputa sobre modelo econômico, soberania nacional e futuro dos territórios brasileiros. Em meio às eleições de 2026, cresce a pressão para que candidaturas apresentem respostas concretas para eventos climáticos extremos, proteção de comunidades vulnerabilizadas, transição energética e reorganização do sistema agroalimentar. No centro do debate, uma pergunta incontornável: como é possível enfrentar a emergência climática mantendo intacto o modelo de crescimento econômico baseado na expansão minerária, na dependência de combustíveis fósseis e nas cadeias produtivas concentradoras de riqueza?
A situação é preocupante. Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em relatório de 2025, mostram que, em 2024, o país registrou 3.620 alertas de desastres naturais, o maior número desde o início da série histórica (2011), e 1.690 ocorrências de desastres naturais, com 68% de origem hidrológica, como enchentes, enxurradas e transbordamento de rios, e 32% de origem geológica, como deslizamentos de terra e quedas de encosta.
Em Minas Gerais, estado marcado por tragédias minerárias, conflitos territoriais e disputas em torno dos minerais críticos, essa discussão tem ainda mais peso político. A cientista política e pré-candidata ao Senado por Minas, Áurea Carolina (PSOL), defende que o agravamento da crise climática exige romper com o paradigma extrativista que organiza a economia brasileira. Ex-deputada federal, Áurea foi vice-presidenta da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Rompimento da Barragem de Brumadinho e integrante da Comissão Externa do Desastre de Brumadinho. Durante o mandato (2019-2022), apresentou propostas para conter o avanço da mineração predatória, como o Novo Marco Regulatório da Mineração e o Enfrentamento ao Terror de Barragens (PL 2.945/2021), e foi premiada pelo Congresso em Foco 2020 como uma das melhores parlamentares na categoria Clima e Sustentabilidade.
A agenda da justiça climática vem articulando o enfrentamento à mineração, a defesa dos territórios tradicionais, o fortalecimento do transporte coletivo, a reorganização da produção agrícola e questionando os rumos da transição verde. Para especialistas e lideranças territoriais, o risco é que a corrida internacional por minerais críticos, usados em carros elétricos, baterias e tecnologias de energia renovável, reproduza antigas formas de exploração do Sul Global. “Precisamos estar atentos às falsas soluções de transição ecológica vendidas pelo mercado. Precisamos de modelos verdadeiramente alternativos à mineração predatória”, afirma Áurea.
Um estudo da S&P Global (2025) aponta que 43% das 16.810 minas associadas à transição energética mapeadas no mundo estão localizadas em territórios indígenas, áreas de comunidades tradicionais reconhecidas oficialmente ou em suas proximidades. O levantamento também identificou quase 800 registros de conflitos entre mineradoras e comunidades locais desde 2005.
A mineração verde e o novo extrativismo
A pressão internacional pela extração de minerais críticos e terras raras transformou o Brasil em alvo prioritário das empresas de mineração. A Agência Internacional de Energia (IEA), no relatório Global Critical Minerals Outlook 2025, mostra que a busca por minerais críticos cresceu rápido demais, com aumento de 30% para o lítio em um ano. A projeção do Emissões Líquidas Zero até 2050 (NZE) é de que a demanda por lítio aumentará nove vezes até 2040; por grafite, quase quatro vezes; por níquel, cobalto e o grupo de 17 minerais denominado terras raras, duas vezes.

Em Minas Gerais, projetos ligados à transição energética têm avançado sobre territórios como o Vale do Jequitinhonha, apelidado de “Vale do Lítio” pelas mineradoras, por concentrar 85% das reservas conhecidas de lítio do país. “A promessa do Governo de Minas é de desenvolvimento sustentável, mas os moradores já reclamam de problemas no abastecimento de água e do barulho de explosões”, comenta Áurea Carolina.
Pesquisadores, movimentos sociais e lideranças populares denunciam a chamada economia verde, que estaria apenas revestindo de sustentabilidade antigas práticas de exploração. Eles definem esse processo como “colonialismo verde”, no qual os países periféricos continuam sendo fornecedores de recursos naturais enquanto os ganhos tecnológicos e econômicos permanecem concentrados nas grandes potências.
A crítica alcança a própria ideia de transição energética baseada apenas na troca tecnológica, que demanda aumento da produção mineral. A deputada federal, Duda Salabert (PSOL), aponta como o mercado quer pular etapas no caminho para a eletrificação. “Como nós vamos pensar em transição energética no Brasil se questões básicas não foram resolvidas? A mineração urbana quase não existe aqui, e as cidades estão cheias de minerais críticos. Você vai ao Japão, quase 100% dos carros são reciclados. Aqui estamos cheios de cemitérios de carros. Por que vamos discutir carro elétrico sem políticas de fomento ao transporte coletivo? Há um fetiche pelo transporte individual, mas o transporte coletivo ainda é um caos”, argumenta.
Enquanto isso, o setor minerário mantém uma forte influência sobre decisões políticas e processos de licenciamento ambiental. O motivo seria a participação da mineração na economia e a geração de empregos. O Ministério de Minas e Energia informou que, em 2024, o setor respondeu por quase 4% do Produto Interno Bruto (PIB) e manteve empregados 230 mil trabalhadores diretos e mais de 832 mil indiretos.
Mas, em contraste, o IBGE já mostrava no Censo Agropecuário de 2017 (última edição do censo) que a agricultura familiar ocupava cerca de 10,1 milhões de pessoas, o que corresponde a 67% da mão de obra dos estabelecimentos agropecuários brasileiros; os outros 33% trabalhavam na agricultura não familiar, ligada sobretudo a grandes propriedades e ao agronegócio empresarial. “Onde está o poder de influência desses 67% nos rumos das políticas ambientais? Políticas essas que podem determinar o tamanho do desastre climático que suas terras e plantações vão enfrentar?”, questiona Áurea. “Fica claro que o lucro de poucos é que detém o poder.”
Transição agroalimentar e soberania alimentar
O mesmo mecanismo da mineração vale para o agronegócio empresarial, que, por meio da bancada ruralista, exerce forte influência sobre as leis ambientais no Brasil, mesmo insistindo em se apresentar como um modelo de negócio nocivo à sustentabilidade para maximizar seus lucros. De acordo com o relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), em 2024, o Brasil emitiu 2,145 bilhões de toneladas de gás carbônico, com 42% vindos da mudança de uso da terra, especialmente pelo desmatamento, 29% da agropecuária e 20% da energia — essas são as principais fontes de emissão brasileiras. Apesar da queda de 16,7% nas emissões em comparação a 2023, o país se mantém como 5º maior emissor global de gases de efeito estufa. A título de comparação, o Brasil emite, sozinho, mais carbono por desmatamento do que todas as emissões do Canadá juntas, que somam 760 milhões de toneladas de carbono.
Esses índices nos levam ao debate sobre o modelo agroalimentar brasileiro. Professor sênior do Instituto de Estudos Avançados e do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Abramovay avalia que o Brasil vive uma crise estrutural no atual padrão agrícola baseado em monoculturas (especialmente soja e milho), dependência de insumos químicos importados e crescente consumo de ultraprocessados.
O modelo consolidado, adotado na Revolução Verde, tinha o objetivo de acabar com a vulnerabilidade alimentar no mundo por meio de um aumento drástico na produção de alimentos. Isso foi possível pelo avanço tecnológico dos fertilizantes, agrotóxicos e seleção de sementes, assim como de antibióticos para animais, cuja produção se concentrou em um pequeno grupo de corporações. Após 30 anos desse modelo no Brasil, Abramovay o considera saturado. “Temos solos arrasados pela monotonia produtiva e microrganismos cada vez mais resistentes aos agrotóxicos. Com isso, a quantidade de insumos para a produção só aumenta. Com a venda de insumos controlada por grandes corporações oligopolistas, nossa produção está cada vez mais cara e insustentável”, aponta o especialista. “Já produzimos alimentos o suficiente. A palavra de ordem, hoje, é soberania alimentar”, enfatiza.
A área propícia ao cultivo de grãos no Cerrado está se reduzindo em função do avanço dos eventos extremos, por isso a pressão pela falta de respeito às áreas protegidas da Amazônia. Abramovay alerta que “parar de desmatar não deve ser nosso ponto de chegada, deve ser o ponto de partida” tanto para uma transição agroalimentar quanto para a diminuição das emissões de carbono por parte do Brasil, que atuam diretamente sobre a crise climática. Para o pesquisador, o país precisa reorganizar sua política agrícola em torno da regeneração ambiental, da diversificação produtiva e da redução da dependência de insumos químicos, com investimento em bioinsumos.
Território, raça e resistência
A disputa sobre como lidar com a crise climática passa também pela disputa de territórios. Um caso emblemático é o da Serra do Curral, símbolo histórico de Belo Horizonte e alvo de sucessivos projetos minerários. Em 2023, a Justiça Federal suspendeu as licenças para a mineração da região graças à ação movida pelo quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, que tem uma relação ancestral com a mata aos pés da Serra.
“Faz parte do nosso modo de vida, desde que os primeiros quilombolas chegaram aqui. As madeiras, frutas, ervas, tudo era colhido na Mata da Baleia”, conta Makota Kidoialê, líder do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango. Foi ali, na década de 1970, que a mãe de Makota fundou o Terreiro de Umbanda Senzala de Pai Benedito. “A gente chama a Serra do Curral de quintal de casa”, diz.
O caso é exemplar da relação entre preservação ambiental e direitos territoriais. O dossiê Reparação, do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), observa e sugere que “os povos quilombolas, indígenas e demais povos e comunidades tradicionais possuem conhecimentos que devem estar integrados nos processos de mitigação e adaptação locais” no contexto da crise climática.
Enquanto isso, o setor minerário mantém uma forte influência sobre decisões políticas e processos de licenciamento ambiental. O motivo seria a participação da mineração na economia e a geração de empregos. O Ministério de Minas e Energia informou que, em 2024, o setor respondeu por quase 4% do Produto Interno Bruto (PIB) e manteve empregados 230 mil trabalhadores diretos e mais de 832 mil indiretos.
Mas, em contraste, o IBGE já mostrava no Censo Agropecuário de 2017 (última edição do censo) que a agricultura familiar ocupava cerca de 10,1 milhões de pessoas, o que corresponde a 67% da mão de obra dos estabelecimentos agropecuários brasileiros; os outros 33% trabalhavam na agricultura não familiar, ligada sobretudo a grandes propriedades e ao agronegócio empresarial. “Onde está o poder de influência desses 67% nos rumos das políticas ambientais? Políticas essas que podem determinar o tamanho do desastre climático que suas terras e plantações vão enfrentar?”, questiona Áurea. “Fica claro que o lucro de poucos é que detém o poder.”
Transição agroalimentar e soberania alimentar
O mesmo mecanismo da mineração vale para o agronegócio empresarial, que, por meio da bancada ruralista, exerce forte influência sobre as leis ambientais no Brasil, mesmo insistindo em se apresentar como um modelo de negócio nocivo à sustentabilidade para maximizar seus lucros. De acordo com o relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), em 2024, o Brasil emitiu 2,145 bilhões de toneladas de gás carbônico, com 42% vindos da mudança de uso da terra, especialmente pelo desmatamento, 29% da agropecuária e 20% da energia — essas são as principais fontes de emissão brasileiras. Apesar da queda de 16,7% nas emissões em comparação a 2023, o país se mantém como 5º maior emissor global de gases de efeito estufa. A título de comparação, o Brasil emite, sozinho, mais carbono por desmatamento do que todas as emissões do Canadá juntas, que somam 760 milhões de toneladas de carbono.
Esses índices nos levam ao debate sobre o modelo agroalimentar brasileiro. Professor sênior do Instituto de Estudos Avançados e do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Abramovay avalia que o Brasil vive uma crise estrutural no atual padrão agrícola baseado em monoculturas (especialmente soja e milho), dependência de insumos químicos importados e crescente consumo de ultraprocessados.
O modelo consolidado, adotado na Revolução Verde, tinha o objetivo de acabar com a vulnerabilidade alimentar no mundo por meio de um aumento drástico na produção de alimentos. Isso foi possível pelo avanço tecnológico dos fertilizantes, agrotóxicos e seleção de sementes, assim como de antibióticos para animais, cuja produção se concentrou em um pequeno grupo de corporações. Após 30 anos desse modelo no Brasil, Abramovay o considera saturado. “Temos solos arrasados pela monotonia produtiva e microrganismos cada vez mais resistentes aos agrotóxicos. Com isso, a quantidade de insumos para a produção só aumenta. Com a venda de insumos controlada por grandes corporações oligopolistas, nossa produção está cada vez mais cara e insustentável”, aponta o especialista. “Já produzimos alimentos o suficiente. A palavra de ordem, hoje, é soberania alimentar”, enfatiza.
A área propícia ao cultivo de grãos no Cerrado está se reduzindo em função do avanço dos eventos extremos, por isso a pressão pela falta de respeito às áreas protegidas da Amazônia. Abramovay alerta que “parar de desmatar não deve ser nosso ponto de chegada, deve ser o ponto de partida” tanto para uma transição agroalimentar quanto para a diminuição das emissões de carbono por parte do Brasil, que atuam diretamente sobre a crise climática. Para o pesquisador, o país precisa reorganizar sua política agrícola em torno da regeneração ambiental, da diversificação produtiva e da redução da dependência de insumos químicos, com investimento em bioinsumos.
Território, raça e resistência
A disputa sobre como lidar com a crise climática passa também pela disputa de territórios. Um caso emblemático é o da Serra do Curral, símbolo histórico de Belo Horizonte e alvo de sucessivos projetos minerários. Em 2023, a Justiça Federal suspendeu as licenças para a mineração da região graças à ação movida pelo quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, que tem uma relação ancestral com a mata aos pés da Serra.
“Faz parte do nosso modo de vida, desde que os primeiros quilombolas chegaram aqui. As madeiras, frutas, ervas, tudo era colhido na Mata da Baleia”, conta Makota Kidoialê, líder do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango. Foi ali, na década de 1970, que a mãe de Makota fundou o Terreiro de Umbanda Senzala de Pai Benedito. “A gente chama a Serra do Curral de quintal de casa”, diz.
O caso é exemplar da relação entre preservação ambiental e direitos territoriais. O dossiê Reparação, do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), observa e sugere que “os povos quilombolas, indígenas e demais povos e comunidades tradicionais possuem conhecimentos que devem estar integrados nos processos de mitigação e adaptação locais” no contexto da crise climática.
O dossiê também denuncia a situação das pessoas negras, que, empurradas para territórios vulneráveis, são as mais afetadas pela crise climática. “Favelas, periferias urbanas, comunidades tradicionais e áreas rurais precarizadas sofrem os efeitos diretos da desigualdade racial na exposição a riscos, na ausência de políticas públicas”, expõe o documento. Por isso o dossiê defende não ser possível fazer justiça climática sem fazer justiça racial.
Para Áurea Carolina, estas eleições também são sobre disputar o sentido de desenvolvimento. “Não faz sentido um modelo que concentra riqueza, destrói territórios e produz zonas de sacrifício enquanto chama isso de progresso”, afirma.
Duda Salabert, que é pré-candidata à reeleição para a Câmara dos Deputados por Minas Gerais, concorda. “O papel central da esquerda não é corrigir o capitalismo, o nosso papel não é corrigir o modelo que já está errado, é construir um novo modelo, um novo projeto econômico, e isso eu falo da esquerda global. É em cenários de crise econômica que tiram da gente o que nos faz humanos, tiram da gente a possibilidade de sonhar, que é uma marca humana; uma máquina é incapaz de sonhar. Então quanto mais sonhos nós temos, mais humanos nós somos”, conclui.
Sobre Áurea Carolina -Áurea Carolina é cientista política, educadora popular e ativista com trajetória nas lutas de mulheres, negritude, juventudes, comunidades tradicionais e populações periféricas. É formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em Gênero e Igualdade pela Universitat Autònoma de Barcelona, e mestre em Ciência Política também pela UFMG. Filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), foi eleita em 2016 a vereadora mais votada de Belo Horizonte e, em 2018, deputada federal por Minas Gerais, a mulher mais votada do estado, com atuação de destaque nas áreas de cultura, meio ambiente, direitos humanos e inovação democrática. Em 2019, foi eleita uma das 100 jovens negras mais influentes do mundo pelo Most Influential People of African Descent (Mipad), iniciativa criada no âmbito da Década das Nações Unidas para os Afrodescendentes. Em 2020, recebeu o Prêmio Congresso em Foco como uma das melhores parlamentares na categoria Clima e Sustentabilidade. Áurea é pré-candidata ao Senado Federal por Minas Gerais.
Via Júlia Pelinson / MayaPR

