Crise na Venezuela escancara o Brasil frágil, desarmado e sem politica de defesa

Publicado em: 06/01/2026 23:28

 

Por Antônio Zacarias e George Tasso – A questão mais grave em torno da Venezuela não se limita às atitudes históricas ou contemporâneas dos Estados Unidos em relação àquele país — ou mesmo ao mundo. O ponto central é outro, muito mais inquietante: a fragilidade estrutural do Brasil diante de um cenário internacional cada vez mais hostil, no qual pretextos para intervenções externas são facilmente fabricados.

 

O Brasil encontra-se totalmente despreparado, inclusive do ponto de vista militar, para enfrentar qualquer tipo de pressão ou investida externa mais contundente. Somos, na prática, um país desarmado, com baixíssima capacidade de dissuasão e sem uma política de defesa nacional amplamente discutida, compreendida e legitimada pela sociedade.

 

Não se pode ignorar um dado fundamental da geopolítica contemporânea: intervenções não precisam de motivos reais; bastam narrativas eficazes. Nada impediria, por exemplo, que os Estados Unidos ou seus aliados inventassem acusações de calúnia ou difamação para justificar uma ação contra o Brasil. Já fizeram isso em outras partes do mundo. Poderiam alegar, sem grande esforço, que o país abriga narcotraficantes, desenvolve armas químicas ou comete crimes ambientais e humanitários — como o assassinato de povos indígenas ou a destruição deliberada da Floresta Amazônica.

 

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Esses discursos não seriam inéditos nem difíceis de construir. E, uma vez consolidados no imaginário internacional, serviriam como pretexto para sanções, bloqueios ou até intervenções diretas. O mais grave é que o Brasil não dispõe de meios eficazes para reagir a esse tipo de agressão.

 

Do ponto de vista militar e estratégico, basta imaginar um cenário relativamente simples: com navios de guerra posicionados a cerca de 200 milhas da costa brasileira, portanto fora do nosso mar territorial, seria possível paralisar toda a economia nacional. Um bloqueio naval atingiria o Porto de Santos e todos os principais portos da costa atlântica, interrompendo exportações, importações e cadeias produtivas essenciais. O Brasil não tem hoje capacidade real de impedir uma ação desse tipo.

 

A diferença em relação à Venezuela é significativa. Independentemente do juízo político que se faça sobre seu governo, é inegável que o país possui uma política de defesa estruturada, fortemente ancorada na mobilização popular. Os Estados Unidos sabem que uma invasão direta ali teria um custo altíssimo. Não se trataria de uma ocupação clássica, mas de um conflito prolongado, assimétrico, com resistência armada disseminada pela população — algo que poderia facilmente se transformar em um novo Vietnã.

 

A Venezuela conta com milhões de cidadãos treinados e armados, organizados em milícias populares, capazes de atuar em ambientes urbanos, florestais e montanhosos. Trata-se de um país com cerca de 30 milhões de habitantes, dotado de selvas densas, cadeias montanhosas e uma geografia extremamente desfavorável a forças invasoras. A história recente mostra que nem mesmo a superioridade militar absoluta garante vitória, como se vê no fracasso do Exército israelense em eliminar completamente grupos armados muito menores, como o Hamas.

 

O Brasil, por sua vez, apresenta uma vulnerabilidade ainda mais alarmante. Somos um país continental, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais cerca de dois terços correspondem à Amazônia, uma das regiões mais ricas do planeta em minérios estratégicos, biodiversidade, água doce, petróleo e outras fontes de energia. Paradoxalmente, é justamente essa imensa riqueza que nos torna mais expostos — e não mais protegidos.

 

O grande problema brasileiro é este: possuímos um território vasto, recursos estratégicos cobiçados e nenhuma política consistente de defesa nacional. Não há debate público sério sobre soberania, dissuasão, defesa do território ou proteção dos interesses estratégicos do país. Em um mundo em que os conflitos entre Estados, nações e civilizações se intensificam, essa ausência de preparo não é sinal de pacifismo — é sinal de fragilidade.

 

 

Ignorar essa realidade é um erro histórico. Em tempos de instabilidade global, a falta de defesa não garante paz; apenas convida à intervenção.

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