Facções criminosas na Amazônia são desafio para candidatos a governador

Publicado em: 17/08/2026 19:25
Apreensão de drogas e prisão de quem a transporta tem sido insuficiente para combater as organizações criminosas, dizem estudiosos do tema (Foto: Divulgação/SSP-AM)
Por Marcelo Moreira, especial para o ATUAL

MANAUS – De 2023 a 2025, a influência do crime organizado em municípios da Amazônia Legal cresceu 93%. O levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2025 identificou a atuação de 17 facções criminosas na região, entre elas organizações estrangeiras. Na Amazônia, as facções disputam território, infraestrutura, narcotráfico, grilagem e tráfico de armas. O domínio em expansão desses grupos se transformou no maior desafio da segurança pública para os governos amazônicos.

Especialistas avaliam que os candidatos às eleições nos estados da Amazônia estão diante de um problema que não admite apenas o emprego de medidas paliativas de combate, como tem sido o enfrentamento ao crime organizado nas últimas décadas, mas de políticas públicas eficazes que atendam, especificamente, as populações socialmente desfavorecidas

“Em vez de prender e matar pessoas pobres, negras e indígenas, precisamos distribuir a renda e oferecer alternativas concretas de vida. Colocar a segurança pública no centro do debate eleitoral é esconder o que mais importa: a miséria em que vive a imensa maioria da população hoje, na capital e no interior, nos centros urbanos e nas comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas”, disse o sociólogo Fábio Candotti, professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) que estuda o encarceramento e a violência no estado.

O crime organizado percorre as longas distâncias amazônicas, alcançando as fronteiras por meio de rotas fluviais e as áreas de exploração de recursos naturais. As facções aproveitam a falta de presença estatal para expandir territórios e fortalecer o tráfico de drogas e armas. Dados das secretarias de segurança pública e das polícias estaduais mostram que, entre 2019 e 2024, foram apreendidas 162 toneladas de cocaína na região, um aumento de 574% para o período.

Apesar das apreensões e do trabalho de forças policiais, as organizações criminosas continuam exercendo influência de massa e formas de governança. No extremo oeste do Amazonas, o Alto Solimões é marcado pela ascensão do crime organizado e destacado pelo alto índice de mortes violentas. Na região, o município de Tabatinga (a 1.110 quilômetros de Manaus) é ponto estratégico para as rotas internacionais do narcotráfico por estar localizado na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru.

Entre 2024 e 2025, o tráfico de drogas cresceu 13,2% na região Norte. Enquanto isso, a população presa por esse crime aumentou 6% na Amazônia Legal no mesmo período, passando de 15.660 para 16.596 pessoas. O avanço foi concentrado principalmente no Maranhão. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Secretaria Nacional de Políticas Penais.

O levantamento mostra que as facções avançam não apenas no interior da Amazônia. As grandes cidades amazônicas sofrem com a disputa pelo controle de territórios, que se soma aos desafios históricos da segurança pública.

“É comum a prisão com maior frequência das famosas mulas, que normalmente são usuários de drogas ou pessoas cooptadas devido a promessa de dinheiro fácil, enquanto os principais articuladores do crime organizado ligado ao tráfico de drogas estão livres em suas mansões ou em outros países. Logo, os presídios estão lotados de pessoas pobres. Essa é a política de encarceramento predominante no Brasil”, disse a advogada e mestra em Segurança Pública Goreth Rubim, ao analisar os penalizados pelo crime organizado.

Sociólogo Fábio Candotti

Desafios para os próximos governos

A disparidade social na operacionalização do crime coloca em discussão o caminho pelo qual as propostas dos candidatos a governo deverão seguir. Especialistas defendem a presença em massa do Estado com ações permanentes e efetivas, especialmente nas regiões remotas onde não há presença estatal. Essa, segundo Rubim, é uma estratégia para prevenir a cooptação de jovens e criar possibilidades para a população.

“O Estado precisa se fazer mais presente nessas comunidades através de políticas públicas sociais. A polícia, o Ministério Público, a Defensoria Pública e o Poder Judiciário precisam estar mais próximos dessas pessoas, ouvindo mais as necessidades de cada um desses grupos de vulneráveis, e implementando atividades de cidadania. Implementando políticas públicas sociais de educação, saúde, assistência social e de acesso ao primeiro emprego, pois onde o Estado fica omisso, o crime organizado se fortalece atraindo jovens indígenas e ribeirinhos”, disse.

Para o professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) e doutor em ciências sociais Jaime Luiz Cunha de Souza, ao planejar o enfrentamento à criminalidade, um candidato a governador deve pensar em ações para além de operações policiais.

“O enfrentamento requer presença estatal permanente, inteligência sobre fluxos financeiros e cadeias econômicas ilegais, controle efetivo das rotas fluviais e fronteiriças, integração entre segurança pública, fiscalização ambiental e proteção territorial. Portanto, o ponto central que deveria aparecer com maior clareza nas propostas é que combater as facções na Amazônia significa disputar com elas o controle das redes econômicas, das rotas e do próprio território, e não somente prender seus integrantes”, disse o professor.

embarcação blindada da PM
Embarcação blindada da Polícia do Amazonas usada no combate ao crime organizado nos rios da Amazônia (Foto: Divulgação/SSP-AM)

Guerra às facções

Inspirado no modelo de combate às drogas pelos Estados Unidos na década de 1960, o Brasil repreende as organizações criminosas com penas e leis que miram grupos envolvidos em ações de violência e no tráfico. No entanto, analisas afirmam que essa forma de combate é como “enxugar gelo” porque ignora a raiz do problema e foca apenas nas pessoas atingidas pela estrutura do crime.

“A ideia de guerra às facções, prendendo muito e matando muito, já se sabe que não funciona. Os traficantes estão totalmente inseridos no sistema econômico, nos sistemas bancários e no sistema político. Sem ter um plano para atuar nessas frentes, os resultados, mesmo quando bem-intencionados, tendem a ser pífios”, disse Jaime Luiz.

Para Fábio Candotti, apesar de fazerem parte de mercados ilegais, as facções não os controlam. Ele afirma que, de alguma forma, o Estado ainda reprime a atuação desses grupos. “O que nós vivemos hoje na Amazônia brasileira é o auge da política de ‘guerra às drogas’. E é justamente isso que torna os mercados de drogas ilícitas violentos para quem transporta e vende nas ruas e, ao mesmo tempo, mais rentáveis para quem é dono das mercadorias”, disse.

“O nosso problema é que a segurança pública é conduzida na base do negacionismo científico, o que inclui a negação da participação de seus próprios agentes nos mercados ilegais e a negação das violências praticadas também por essas pessoas, que são de natureza racista. Negação também do fato, mais do que comprovado, que o consumo de drogas não diminui com esse modelo. Enfim, negação de que os ‘bandidos perigosos’, presos e mortos em ações que custam muito dinheiro público, fazem parte da parcela mais empobrecida e discriminada da nossa sociedade”, acrescentou Candotti.

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