Fatima Gavioli:DE DOMÉSTICA A SECRETÁRIA DE EDUCAÇÃO EM TRÊS ESTADOS
Conheça a trajetória de Fatima Gavioli, que fez história em Rondônia e Goiás, e agora vai servir ao Paraná.

A professora Fátima Gavioli está de malas prontas para mais um desafio. Depois de comandar a Educação de Rondônia e passar mais de sete anos à frente da rede estadual de Goiás, ela foi convidada pelo governador eleito do Paraná, Sérgio Moro (PL), para assumir a Secretaria de Educação daquele estado a partir de janeiro de 2027.
O anúncio foi feito nesta terça-feira, 27 de outubro. Moro destacou a experiência da educadora e o trabalho realizado por ela em Goiás como fatores determinantes para a escolha.
Natural de Goioerê, no interior do Paraná, Fátima retorna ao estado onde nasceu com uma trajetória profissional pouco comum: começou trabalhando como empregada doméstica, tornou-se professora concursada e chegou ao comando da educação pública de três estados brasileiros.
UMA HISTÓRIA QUE COMEÇOU LONGE DOS GABINETES
Aparecida de Fátima Gavioli nasceu em uma família humilde, na zona rural do Paraná. Ainda criança, precisou interromper os estudos para ajudar a família no trabalho agrícola.
Em 1985, mudou-se com os familiares para Rondônia. Foi naquele estado que retomou os estudos, aos 14 anos, conciliando a escola com o trabalho doméstico.
Concluiu a educação básica, ingressou no curso superior de Letras e foi aprovada em primeiro lugar em um concurso público para professora da rede estadual.
Sua primeira experiência no magistério foi em um pequeno distrito de Rondônia. Ali, começou a desenvolver iniciativas para combater a evasão escolar, chegando a alfabetizar pais de alunos fora do horário regular das aulas.
A dedicação chamou a atenção de lideranças políticas e abriu caminho para funções administrativas na educação.
Anos depois, durante o governo de Confúcio Moura, assumiu a Secretaria de Educação de Rondônia, cargo que exerceu entre 2014 e 2016.
RONDÔNIA FOI SEU PRIMEIRO GRANDE TESTE
Na administração estadual de Rondônia, Fátima passou a trabalhar com planejamento, acompanhamento de resultados, formação de professores e parcerias para melhorar a aprendizagem.
Em entrevista publicada em 2020, ela relatou que Rondônia avançou da 11ª para a 6ª posição em um dos rankings do Ideb durante o período em que participou da gestão educacional.
A própria professora fez questão de reconhecer que resultados dessa natureza não pertencem exclusivamente a um secretário. São consequência de políticas continuadas, investimentos, participação dos professores e trabalho desenvolvido dentro das escolas.
A experiência rondoniense consolidou seu perfil de gestora voltada ao acompanhamento de indicadores e à busca de resultados concretos.
Foi esse currículo que despertou o interesse de Ronaldo Caiado, eleito governador de Goiás em 2018.
O DESAFIO DE MELHORAR UMA EDUCAÇÃO QUE JÁ ERA DESTAQUE
Fátima Gavioli assumiu a Secretaria de Educação de Goiás em janeiro de 2019.
Ao contrário do que acontece com gestores chamados para recuperar sistemas educacionais em crise, ela encontrou um estado que já ocupava posições de destaque no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
O desafio, portanto, não era simplesmente tirar Goiás das últimas posições, mas preservar os avanços anteriores e conseguir melhorar ainda mais a qualidade do ensino.
Durante sua gestão, a rede estadual registrou evolução nos indicadores de aprendizagem, especialmente no ensino médio.
Segundo dados divulgados pela Secretaria de Educação, o Ideb dessa etapa alcançou 5,0, o melhor resultado da série histórica estadual.
O indicador é importante porque considera tanto o desempenho dos estudantes nas avaliações de português e matemática quanto as taxas de aprovação escolar.
Isso significa que melhorar a nota exige avanços que vão além da simples aprovação dos alunos.
Os resultados também precisam ser compreendidos como consequência de um trabalho coletivo, envolvendo professores, diretores, servidores, estudantes, famílias e investimentos realizados pelo governo estadual.
ESCOLAS REFORMADAS, TECNOLOGIA E INCENTIVO AOS ESTUDANTES
Uma das marcas mais visíveis da gestão de Fátima Gavioli em Goiás foi a transformação da estrutura física das escolas.
O governo estadual investiu na reforma e modernização das unidades, na construção de novos prédios, na aquisição de equipamentos e na ampliação do acesso à tecnologia.
A distribuição de uniformes e materiais escolares também passou a integrar as políticas de apoio aos estudantes.
Outra iniciativa importante foi o Bolsa Estudo, programa que oferece incentivo financeiro a alunos da rede estadual, condicionado ao cumprimento de requisitos como frequência escolar.
A proposta é ajudar a manter os jovens estudando e reduzir o abandono, especialmente entre aqueles que enfrentam dificuldades econômicas.
Na área de pessoal, a gestão também promoveu concursos públicos, medidas de valorização dos profissionais e ações de formação continuada.
Embora os resultados dessas políticas dependam de diferentes fatores, o conjunto de iniciativas ajudou a construir uma identidade administrativa para a educação goiana.
ALFABETIZAÇÃO: UMA PARCERIA COM OS MUNICÍPIOS
Outro destaque foi o programa AlfaMais Goiás, lançado em 2021.
A iniciativa fortaleceu a cooperação entre o governo estadual e as prefeituras para melhorar a alfabetização das crianças nos primeiros anos escolares.
A parceria é especialmente importante porque a maior parte dos alunos nessa fase está matriculada nas redes municipais.
O programa passou a oferecer apoio técnico, formação, materiais e acompanhamento dos resultados da aprendizagem.
A experiência recebeu reconhecimento nacional. Em 2024, Goiás conquistou o Selo Ouro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, concedido pelo Ministério da Educação.
O reconhecimento reforçou a posição do estado entre aqueles que desenvolveram políticas estruturadas de colaboração para melhorar a alfabetização.
AUTONOMIA PARA MONTAR A EQUIPE
Em entrevistas sobre sua passagem por Goiás, Fátima Gavioli apontou a autonomia administrativa como um dos fatores importantes para os resultados alcançados.
Segundo ela, Ronaldo Caiado permitiu que escolhesse sua equipe técnica e participasse diretamente das decisões sobre a aplicação dos recursos destinados à Educação.
A secretária também destacou o apoio da Assembleia Legislativa na aprovação de projetos considerados fundamentais para as mudanças implantadas.
A combinação entre decisões políticas, planejamento técnico e continuidade administrativa ajudou a sustentar as ações desenvolvidas ao longo dos anos.
UMA PASSAGEM PELA POLÍTICA ELEITORAL
Em março de 2026, Fátima deixou a Secretaria de Educação para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.
Não conseguiu se eleger.
Em outubro, voltou ao comando da Educação de Goiás, nomeada pelo governador Daniel Vilela.
O retorno, entretanto, será breve.
Com o convite de Sérgio Moro, ela deverá encerrar sua trajetória na administração goiana para iniciar uma nova etapa profissional.
O QUE ELA DEIXA EM GOIÁS
O principal legado de Fátima Gavioli não pode ser resumido a uma nota do Ideb.
Sua passagem pela Secretaria de Educação esteve associada à continuidade dos bons resultados da rede estadual, à modernização das escolas, à ampliação de programas de permanência estudantil e ao fortalecimento da cooperação com os municípios na alfabetização.
Isso não significa que todos os problemas da educação goiana tenham sido resolvidos. Desafios relacionados à aprendizagem, à valorização profissional e às desigualdades entre escolas e regiões continuam exigindo atenção.
Também seria incorreto atribuir exclusivamente à secretária os avanços registrados. Políticas educacionais produzem resultados ao longo de vários anos e dependem de decisões tomadas por diferentes governos.
Mas sua contribuição é reconhecida como parte importante da trajetória que manteve Goiás entre as referências nacionais da educação pública.
Agora, aos desafios que enfrentou em Rondônia e Goiás, Fátima Gavioli acrescentará um terceiro estado.
E há um detalhe simbólico nessa história: a menina que precisou interromper os estudos para trabalhar na roça e, mais tarde, foi empregada doméstica, retorna à terra onde nasceu para ocupar um dos cargos mais importantes da administração estadual.
