FELIZ DIA DO NORDESTINO – O POVO MAIS ARRETADO DO BRASIL!

“Oxente”, “aperreado”, “arriégua” e “mangar”. Quatro expressões repletas de regionalismo e que são frequentemente usadas na rotina de quem é nordestino. A região, por contemplar nove estados, apresenta uma vasta cultura que vai além do turismo e das tradições: ela está na linguagem do povo.

Nesta quinta-feira, 8, é comemorado o Dia do Nordestino, em homenagem ao grupo tão geograficamente unido e, ao mesmo tempo, tão variado em seus costumes e expressões. A data foi estabelecida no ano de 2009, em São Paulo, através da Lei Municipal nº 14.952.
O Nordeste e a importância da oralidade
Com o surgimento da homenagem, muito da cultura regional passou a ser mais valorizado e disseminado para outros lugares, principalmente as expressões populares. Apesar da linguagem ter características e palavras únicas em cada estado, algumas delas são comuns em locais diferentes.
Por se tratar de um patrimônio imaterial, os costumes e expressões orais diariamente utilizados pelo povo nordestino, assim como qualquer outro grupo, é um legado que atravessa gerações. As palavras e o jeito de falar revelam raízes mais profundas do que se pode imaginar.
Para Helonis Brandão, doutor em História e professor da rede pública de Fortaleza, a diversificação da maneira de se falar no Nordeste vem, justamente, da mistura de povos, raças e etnias, um traço que também se estende por todo o Brasil.
“O linguajar nordestino é miscigenado: tem forte presença dos ibéricos, dos mouros e do medievo europeu. Há também as línguas dos povos africanos, especialmente o yorubá e o kimbundo, além da permanente presença das centenas de línguas dos povos indígenas, que nomeiam até hoje a fauna, a flora e a geografia brasileira!”, explica ele.
É por isso que, ainda que o território conte com nove estados diferentes e cada um deles tenha suas próprias manifestações tradicionais, há um elo que une a comunicação e a história dessa região. Mesmo que seja apenas falando, o nordestino revela sua rica herança cultural.

Expressões populares do Nordeste: conheça origens e significados
- Aperrear: significa incomodar, atormentar, tirar a paciência de alguém. O verbo tem origem do termo castelhano do substantivo castelhano “aperreamiento“, que se refere à ação de atiçar cães ferozes contra alguém. A prática violenta era usada por colonizadores na América, com o intuito de amedrontar ou atacar os povos nativos;
- Tô avexada: é utilizado para expressar pressa, quando alguém está em uma situação de inquietação ou atraso para algum compromisso. Surgiu do latim “vexare“, que significa a agitação ou atormento;
- Lá ele: é uma gíria que funciona como contragolpe, uma defesa utilizada por alguém que foi alvo de algum comentário ou piada, geralmente de cunho sexual. A expressão tem origem baiana e, através das redes sociais, foi popularizada em outros lugares do Brasil;
- Arriégua: usada para expressar uma ampla variedade de emoções, a interjeição popular vem da junção do prefixo arre com o substantivo égua, que também é presente em outras expressões. O termo é comumente falado no Ceará e Piauí, principalmente;
- Mangar: o verbo significa rir, fazer graça de uma situação ou de alguém. O termo é proveniente de Portugal e, por sua escrita, geralmente é atribuída ao substantivo “manga”;
- Arretado: outra palavra que pode assumir mais de um significado. No sentido positivo, pode ser algo ou alguém corajoso, legal, ao mesmo tempo que pode indicar alguém nervoso, irritado. A expressão, porém, sempre carrega um cunho de intensidade, e surgiu a partir do antigo verbo “arretar”, que vem do latim “adrectare“;
- Tabacudo: a expressão significa uma pessoa boba, ingênua ou sem noção. Não há uma origem etimológica única e comprovada para o termo, mas a palavra integra o vocabulário popular;
- Ai dento: trata-se de uma expressão de negação, rejeição ou discordância. Como um “de jeito nenhum”. Pertence à linguagem coloquial nordestina e é formada pela combinação de “aí” com “dentro”, usada de maneira irônica para rejeitar uma proposta ou situação. Não há registro de uma origem histórica específica;
- Buliçoso: é usada como característica de uma pessoa inquieta, agitada, que mexe em tudo ou não consegue ficar parada. Sua origem é o verbo “buliçar”, relacionado a mexer, movimentar ou remexer;
- Rebolar no mato: significa jogar fora, descartar ou se desfazer de alguma coisa. A expressão possui uma origem associada aos hábitos de descarte de moradores do interior cearense. Com o tempo, “rebolar” passou a ser usado no sentido de arremessar ou jogar fora;
- Oxente: muito conhecida no País, é uma interjeição usada para expressar surpresa, espanto, indignação, dúvida ou estranhamento. Sua origem é frequentemente associada à transformação popular de expressões como “ô gente” ou “ó, gente”, mas não existe consenso absoluto sobre a etimologia;
- Pegar o beco: significa ir embora, sair de algum lugar ou seguir caminho. A expressão está relacionada ao sentido literal de “beco”, uma passagem estreita ou caminho. A ideia de “pegar o beco” teria se consolidado na linguagem popular como “ir embora”;
- Peba: é utilizado para caracterizar algo ruim, malfeito, de baixa qualidade ou inferior. A palavra é registrada como regionalismo, especialmente no Nordeste, e sua origem nunca foi documentada;
- Só quer ser as prega: caracteriza uma pessoa que se acha muito importante, superior ou melhor do que os outros. Existem registros de uma forma mais antiga e completa: “Fulano só quer ser as pregas, mas o pano não dá”. A ideia é comparar a pretensão da pessoa com algo que o “pano” não consegue sustentar;
- Ficar com a gota: significa ficar muito irritado, nervoso ou com raiva. É uma expressão popular especialmente associada à fala paraibana e nordestina e surgiu na linguagem coloquial;
- Arengueiro: é a pessoa que gosta de provocar discussões, arrumar confusão ou criar conflitos. Vem de arenga, palavra usada para designar discussão, briga, desavença ou conversa prolongada;
- Fazer pantim: expressão que significa “Fazer drama, exagerar uma situação, fazer cena ou chamar atenção de maneira teatral”. “Pantim” é uma palavra de uso popular no Nordeste, relacionada a frescura, manha ou comportamento exagerado.
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Dia do Nordestino: por que é celebrado em 8 de outubro?
Além da necessidade de reconhecer a participação do povo nordestino na construção do território paulista, a data relembra que o estado, depois do próprio Nordeste, é onde se concentra o maior número de pessoas dessa região. Por tamanha contribuição, a homenagem foi estabelecida.
A escolha do dia também faz menção a um grande nome da cultura nordestina: o poeta, compositor e repentista popular Patativa do Assaré. O cearense, cujo nome de batismo era Antônio Gonçalves da Silva, foi responsável por encantar gerações com seus versos simples e cativantes.
Retratando a dura rotina sertaneja, a injustiça social e seu amor pelo Nordeste, Patativa ultrapassou limites geográficos e se tornou um símbolo universal da cultura popular. Seu apelido surgiu em referência a um pássaro de mesmo nome, conhecido pelo canto doce e melodioso.

