Fungo da Amazônia revela pigmento natural promissor para a indústria de cosméticos

Publicado em: 06/02/2026 15:51

Pesquisa brasileira mostra que corante microbiano pode substituir sintéticos com segurança e ação antioxidante.

Um corante natural produzido por um fungo amazônico pode abrir caminho para uma nova geração de cosméticos sustentáveis. Testes laboratoriais iniciais indicam que o pigmento extraído do fungo Talaromyces amestolkiae pode ser aplicado em produtos como cremes faciais, xampus e bastões em gel, oferecendo propriedades antioxidantes e antibacterianas sem comprometer a saúde da pele.

 

A descoberta ganha relevância em um cenário global em que o uso de corantes sintéticos vem sendo cada vez mais questionado. Diversos países têm restringido ou proibido determinadas substâncias artificiais após associações com alergias e outros efeitos adversos, impulsionando a busca por alternativas naturais e ambientalmente responsáveis.

Os pigmentos produzidos pelo fungo chamam atenção pela intensidade e variedade de cores, que vão do amarelo e laranja ao vermelho vibrante, com potencial para uso industrial em diferentes segmentos. Além do apelo ecológico, a pesquisa demonstra que o ingrediente pode agregar benefícios funcionais às formulações cosméticas.

 

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RESULTADOS LABORATORIAIS ANIMADORES

De acordo com os dados publicados na revista científica ACS Omega, o extrato do fungo reduziu em mais de 75% a presença de compostos reativos ao oxigênio ao entrar em contato com a pele substâncias associadas a danos celulares e envelhecimento precoce. Os testes também indicaram que mais de 60% das células analisadas permaneceram viáveis, sugerindo boa compatibilidade com a pele humana.

 

Segundo Juliana Barone Teixeira, primeira autora do estudo, o corante foi avaliado diretamente dentro de formulações cosméticas completas, o que permite uma análise mais próxima da realidade do mercado. “Demonstramos que o pigmento pode ser incorporado sem prejudicar a segurança, a textura ou a experiência de uso do produto”, explicou a pesquisadora.

 

 

PARCERIA INTERNACIONAL E PESQUISA DE LONGA DURAÇÃO

 

O estudo foi desenvolvido na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, em Araraquara, sob orientação da professora Valéria de Carvalho Santos-Ebinuma, em parceria com a Universidade de Lisboa e com pesquisadores da USP de Ribeirão Preto. A pesquisa levou mais de uma década até alcançar a etapa atual de testes aplicados.

 

Segundo Ebinuma, o interesse pelo fungo começou pela intensidade de sua coloração. “Foram anos de investigação até chegar a um processo capaz de produzir o pigmento em laboratório”, afirmou. Para reproduzir a produção natural do corante, os pesquisadores simularam condições semelhantes às altas temperaturas de Manaus, ambiente ideal para o desenvolvimento da espécie.

 

ORIGEM AMAZÔNICA E IMPORTÂNCIA DA BIODIVERSIDADE

 

O Talaromyces amestolkiae foi identificado inicialmente pela professora Maria Francisca Simas Teixeira, da Universidade Federal do Amazonas, referência nacional em micologia. O fungo foi encontrado em árvores no campus da universidade e incluído na coleção científica da instituição, tornando-se objeto de estudo por sua capacidade de gerar pigmentos naturais intensos.

 

Para os pesquisadores, o caso reforça o potencial ainda pouco explorado da biodiversidade amazônica. A expectativa é que novas espécies com propriedades semelhantes possam ser descobertas nos próximos anos.

 

PRÓXIMOS PASSOS E EXPANSÃO DAS APLICAÇÕES

 

Atualmente, cerca de 20 estudantes participam das pesquisas, que buscam ampliar o uso do corante para outras áreas, como a indústria têxtil e alimentos, incluindo gelatinas e outros produtos coloridos naturalmente.

 

Um dos principais desafios agora é aumentar a escala de produção. Hoje, os laboratórios conseguem produzir cerca de 1 grama do pigmento por processo, e a meta é alcançar pelo menos 10 gramas, passo essencial para viabilizar aplicações comerciais.

 

Para os cientistas, o avanço reforça o papel da biotecnologia no desenvolvimento de soluções sustentáveis. A ideia é transformar microrganismos  muitas vezes vistos apenas como agentes nocivos em aliados na criação de produtos mais seguros, naturais e alinhados às demandas ambientais do mercado.

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