Índio Galdino a mancha negra da impunidade no Brasil

Publicado em: 06/11/2026 14:00

Na madrugada de 20 de abril de 1997, cinco jovens de famílias ricas de Brasília encontraram um homem dormindo em um ponto de ônibus. O que fizeram com ele foi uma das maiores brutalidades da história recente do país.

A vítima era Galdino Jesus dos Santos, indígena do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, de 44 anos, agricultor, marido e pai de três filhas. Ele estava na capital federal participando de reuniões com representantes do governo para defender as terras de seu povo, no sul da Bahia.

Depois das atividades do Dia do Índio, Galdino voltou à pensão onde estava hospedado, mas encontrou a entrada fechada. Sem conseguir entrar, deitou-se em um ponto de ônibus próximo e adormeceu.

Enquanto isso, cinco rapazes circulavam pela cidade em um Chevrolet Monza: Max Rogério Alves, Eron Chaves de Oliveira, Antônio Novély Cardoso Vilanova, Tomás Oliveira de Almeida e Gutemberg Nader de Almeida Júnior, que tinha apenas 16 anos.

O grupo vinha de famílias de classe alta. Um deles era filho de um juiz federal; outro, enteado de um ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Pouco antes do crime, os jovens compraram dois litros de álcool em um posto de combustível. Depois, encontraram Galdino dormindo, despejaram o líquido inflamável sobre seu corpo e atearam fogo. Enquanto o indígena era consumido pelas chamas, os cinco fugiram de carro.

Galdino foi socorrido por um advogado que passava pelo local e levado ao hospital ainda consciente. Mas 95% de seu corpo havia sido queimado. Ele sofreu falência respiratória e renal e morreu poucas horas depois.

Quando foram presos, os jovens disseram que tudo não passava de uma brincadeira. Alegaram que queriam apenas assustar o homem, imaginando que ele acordaria e sairia correndo. Um deles chegou a afirmar que o grupo pensou em voltar para ajudá-lo, mas ficou apavorado e foi embora.

Em 2001, os quatro maiores de idade foram condenados a 14 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado. Gutemberg, por ser adolescente, recebeu medida socioeducativa e deixou a internação ainda em 1997.

Mas a condenação não significou que os quatro permaneceriam presos durante os 14 anos. Em 2002, conseguiram autorização para trabalhar e estudar fora da prisão, retornando à noite. O benefício gerou revolta quando vieram à tona registros de que alguns deles aproveitavam momentos de lazer enquanto deveriam cumprir as condições impostas.

Em 2004, os quatro conseguiram liberdade condicional e deixaram a prisão antes de cumprir toda a pena em regime fechado.

Anos depois, a história ganhou outro capítulo: os cinco construíram carreiras no serviço público.

Gutemberg ingressou na Polícia Rodoviária Federal e chegou a ocupar uma função de chefia. Tomás tornou-se técnico do Senado Federal; Eron, agente de trânsito do Detran-DF; Antônio, fisioterapeuta da Secretaria de Saúde; e Max, analista do Tribunal de Justiça do Distrito Federal.

Em 2014, Gutemberg chegou a ser barrado em uma seleção para a Polícia Civil por causa de sua participação no assassinato, mas contestou a decisão na Justiça. Em 2016, conseguiu ingressar na PRF por decisão judicial.

O contraste é difícil de ignorar: Galdino estava em Brasília tentando defender as terras de seu povo. Era um agricultor que tinha esposa, três filhas e uma comunidade. Naquela madrugada, só queria dormir.

Os cinco jovens, por outro lado, decidiram transformar um homem indefeso em alvo. Depois da condenação e dos benefícios judiciais, conseguiram construir carreiras estáveis em instituições públicas.

Galdino morreu com 95% do corpo queimado. Sua família nunca mais o teve de volta. E os responsáveis pelo ataque seguiram suas vidas, conquistando cargos e salários no serviço público.

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