Justiça cancela matrícula de aluno de direito da Unir que se passou por indígena
Um estudante que entrou no curso de Direito da Universidade Federal de Rondônia (Unir) usando vaga destinada a indígenas teve a matrícula cancelada pela Justiça. O caso levanta alerta sobre fraudes em cotas no estado.
O que aconteceu
Tudo começou em 2024, quando o candidato se declarou indígena para disputar uma vaga reservada.
Ele chegou a ser reprovado pela banca de heteroidentificação, mas conseguiu uma decisão liminar na Justiça e passou a estudar normalmente.
Agora, a situação mudou.
Após investigação, a Justiça determinou o cancelamento da matrícula, apontando que o estudante não é indígena e ocupou irregularmente a vaga.
Investigação e provas
O caso ganhou força após denúncia de indígenas do povo Karitiana ao Ministério Público Federal (MPF).
Segundo o MPF, ficou comprovado que o aluno não tem vínculo com nenhuma comunidade indígena.
O procurador da República, Leonardo Caberlon, foi direto:
“Não basta se autodeclarar. É preciso ser reconhecido pela comunidade.”
Acusação de fraude
Lideranças karitianas afirmaram que o estudante nunca teve ligação cultural, histórica ou familiar com o povo.
O documento enviado ao MPF revela ainda um ponto grave:
Ele teria enganado indígenas para conseguir assinaturas em uma falsa declaração.
Segundo o relato, o estudante disse ser do povo Parintintin e alegou não ter tempo para buscar documentos no Amazonas. Alguns indígenas acreditaram e assinaram.
Mas a fraude foi descoberta.
A própria banca da Unir desconfiou e entrou em contato com os signatários, que confirmaram o engano.
Falhas na identificação
Durante a entrevista, o estudante não soube responder pontos básicos:
- Não conhecia a cultura do povo
- Não sabia sobre tradições ou lutas indígenas
- Não tinha vínculos sociais com a comunidade
- E sequer sabia onde fica a aldeia Karitiana
“Índio de papel”
Um laudo antropológico reforçou a irregularidade.
A antropóloga Andréa Carvalho Mendes de Oliveira Castro alertou para o risco de aceitar apenas documentos:
“Isso cria o ‘índio de papel’ e prejudica os povos indígenas de verdade.”
Ela destacou que não existe pertencimento legítimo sem reconhecimento da própria comunidade.
Contexto preocupante
O problema não é isolado.
Segundo o laudo, até 2018, cerca de 80% dos alunos que se declaravam indígenas na Unir não conseguiam comprovar pertencimento.
Na época, apenas a autodeclaração era aceita.
As bancas de heteroidentificação só passaram a funcionar em 2024, após pressão de movimentos sociais.
O que vem agora
O MPF informou que existem várias denúncias semelhantes sendo investigadas.
Os casos fazem parte de um inquérito civil em andamento.
A tendência é de mais fiscalizações e possíveis novas anulações de matrículas.
