MPAC recomenda suspensão imediata de uso de agrotóxicos com drones em área de floresta nativa em Rio Branco
Cotidiano

Órgão aponta indícios de “corte químico” em 447 hectares de seringais na Fazenda União III, com possíveis danos ambientais e à saúde de comunidades extrativistas
O Ministério Público do Acre (MPAC) recomendou a suspensão imediata da aplicação de agrotóxicos e outros agentes químicos por meio de drones em áreas de floresta nativa nos seringais Porongaba, São Sebastião, Sacado e São Bernardo, na região da Fazenda União III, em Rio Branco. Segundo o órgão, há indícios de uma prática descrita como “corte químico/anelamento químico”, com possível uso de substâncias para provocar a morte de árvores nativas.
A medida foi tomada após o órgão reunir denúncias de moradores, informações técnicas e imagens de satélite que apontariam sinais de degradação ambiental, segundo o diário eletrônico da instituição desta quinta-feira (16). Na recomendação, o MPAC afirma que os elementos analisados indicam uma possível utilização de produtos químicos para provocar a morte de árvores nativas, prática classificada no documento como “corte químico/anelamento químico”.
De acordo com o Ministério Público, o Comunicado de Possível Irregularidade (COPI) nº 009/2026, elaborado pelo Núcleo de Apoio Técnico (NAT/MPAC), identificou nove alertas compatíveis com degradação florestal associada à aplicação de agente químico na área da Fazenda União III.
A análise técnica apontou uma área estimada de aproximadamente 447 hectares degradados, em um padrão considerado compatível com “dispersão de produto químico pulverizado por via aérea, e não com corte manual ou mecânico da vegetação”. Espécies como árvores de relevância econômica e cultural para famílias extrativistas – como seringueiras e castanheiras – estariam entre as espécies afetadas.
Além dos impactos ambientais, o MPAC destacou relatos de possíveis danos à saúde de moradores da região. Segundo a recomendação, famílias extrativistas relataram casos de adoecimento após o consumo de água de um riacho supostamente contaminado por substâncias utilizadas na área. O órgão afirmou ainda que parte da aplicação teria ocorrido em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e que, até o momento, não haveria comprovação de que a atividade estivesse sendo realizada com todos os requisitos legais, como produto autorizado, receituário agronômico, operador habilitado e autorização dos órgãos competentes.
Na recomendação enviada ao Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) e ao Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Acre (Idaf), o MPAC pediu que seja determinada a interrupção imediata de qualquer aplicação aérea de substâncias químicas na região investigada.
Os órgãos também deverão realizar uma fiscalização conjunta, preferencialmente por via aérea, para verificar a extensão dos danos, identificar as áreas atingidas e coletar amostras de água, solo e vegetação para análise. Caso sejam confirmadas irregularidades, o Ministério Público recomenda que sejam adotadas medidas como autuação, embargo da atividade e apreensão de equipamentos utilizados. Também deverá ser verificada a regularidade dos drones utilizados, dos operadores responsáveis, dos produtos aplicados e da documentação exigida para pulverização aérea.
Na decisão, o Ministério Público afirma que os indícios reunidos “superam o patamar de mera suspeita” e justificam uma atuação imediata para evitar danos considerados de difícil ou impossível reparação. O órgão também destaca que a situação envolve não apenas a preservação da floresta, mas a proteção de comunidades tradicionais extrativistas que dependem diretamente dos recursos naturais para sobrevivência.
O Imac e o Idaf têm prazo de 15 dias para informar ao MPAC quais medidas foram adotadas após a recomendação.
O documento foi assinado pelo promotor de Justiça Thalles Ferreira Costa, da Promotoria de Justiça Especializada de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania, em 15 de julho de 2026.
Segundo o órgão, há indícios de uma prática descrita como “corte químico/anelamento químico”, com possível uso de substâncias para provocar a morte de árvores nativas. Foto: ilustrativo
