Primeira-dama defende regulação das redes sociais e alerta para riscos à democracia e à disseminação de desinformação
A primeira-dama Rosângela da Silva, conhecida como Janja, participou recentemente de um evento internacional na Espanha e classificou as redes sociais como um “quinto poder”. Segundo ela, esse poder seria invisível, difuso e sem controle, capaz de ultrapassar fronteiras, influenciar decisões políticas e moldar opiniões públicas, muitas vezes se colocando acima das instituições tradicionais.
Em sua fala, durante um painel sobre direitos humanos e combate à violência contra mulheres, Janja alertou para os riscos à democracia causados pela falta de regras claras nas plataformas digitais. Ela mencionou a disseminação rápida de desinformação, onde mentiras ganham aparência de verdade, e o aumento de ataques, especialmente contra mulheres e meninas, que ficariam sem consequência.
A primeira-dama defendeu a necessidade de regulamentação para limitar o impacto negativo das big techs, argumentando que as redes sociais teriam hoje mais influência que a imprensa tradicional, o chamado quarto poder.
Embora o discurso apresente preocupações legítimas com desinformação e violência online, a postura de Janja revela uma visão preocupante de controle estatal sobre o debate público. Rotular as redes sociais como um “quinto poder” descontrolado sugere que o governo federal enxerga a liberdade de expressão nas plataformas como uma ameaça que precisa ser contida, em vez de um espaço essencial para o pluralismo democrático.
Essa não é a primeira vez que Janja defende maior intervenção nas redes. Em ocasiões anteriores, ela chegou a elogiar modelos de regulação rigorosos, como o adotado na China, onde o Estado impõe censura pesada e pune usuários que desobedecem às regras oficiais.
Tal admiração por sistemas autoritários de controle digital levanta questionamentos sobre o verdadeiro objetivo por trás das críticas às big techs: proteger cidadãos ou silenciar vozes dissonantes?
No Brasil, o governo Lula tem discutido decretos e medidas para aumentar a transparência e a responsabilização das plataformas, com foco em temas como violência contra a mulher. No entanto, iniciativas semelhantes no passado, como projetos de lei sobre fake news, geraram acusações de censura seletiva, beneficiando narrativas oficiais enquanto restringem críticas ao poder.
Janja, que utiliza intensamente as mesmas redes sociais para se posicionar publicamente, parece incomodada quando o “quinto poder” amplifica vozes contrárias ao governo. Atribuir à falta de regras os ataques que recebe ignora que a exposição pública de figuras políticas sempre gerou debates acalorados, inclusive com excessos.
A solução não está em entregar mais poder ao Estado para definir o que é verdade ou o que pode ser dito, mas em fortalecer instituições independentes, educação digital e mecanismos de responsabilidade individual.
A primeira-dama viaja pelo mundo participando de fóruns progressistas e defendendo pautas globais, mas suas declarações revelam uma contradição: critica o suposto poder descontrolado das plataformas enquanto o governo busca ferramentas para controlá-las.
Essa abordagem arrisca transformar o ambiente digital em um espaço vigiado, onde o “campo progressista” que ela menciona ditaria os limites da liberdade de expressão.
Em uma democracia madura, o combate à desinformação e ao discurso de ódio deve ocorrer pela via da transparência, da concorrência entre plataformas e do debate aberto, e não por meio de regulamentações que concentrem poder nas mãos do governo.
As falas de Janja em Barcelona expõem uma tendência centralizadora que merece vigilância constante da sociedade brasileira.
Texto: Redação Diário 360
Foto: Reprodução