O obstáculo de Marcos Rogério; Luciana e a retirada da pré-candidatura; e Lula e a estratégia para fortalecer Confúcio

ROBSON OLIVEIRA
MATREIRO
Quem apostou que Confúcio Moura pisaria no freio depois de tantos anos de vida pública errou o diagnóstico – a exemplo desta coluna. O senador colocou a candidatura à reeleição na rua antes mesmo de muitos adversários organizarem o próprio discurso. Fez o movimento clássico de quem conhece o tabuleiro: limpou o campo da esquerda, consolidou o apoio do centro-esquerda e segue amparado por uma militância disciplinada, que faz barulho, ocupa espaços e costuma seguir a orientação das direções nacionais alinhadas ao presidente Lula.
CARRASCO
Quem conhece Confúcio sabe que ele raramente revela o jogo inteiro. Fala por parábolas, cultiva a imagem de serenidade e transmite a calma de um monge tibetano. Mas, na política, o cajado é instrumento de combate. Nunca foi homem de desperdiçar oportunidade para neutralizar adversários e tampouco costuma demonstrar piedade quando alguém atravessa seu caminho.
EFEITO
Há, porém, um equívoco estratégico cometido por seus concorrentes. Transformar Lula no centro dos ataques contra Confúcio pode produzir exatamente o efeito contrário. O senador jamais escondeu sua relação com o presidente e a defende publicamente.
ATIVO
Em um estado majoritariamente conservador, isso parece um alvo óbvio. Mas eleição não se vence apenas com maioria absoluta; vence-se reunindo a parcela necessária do eleitorado. Se Confúcio conseguir colar sua campanha à estrutura nacional do lulismo e mobilizar esse contingente, terá um ativo eleitoral, não um passivo. Atacá-lo por isso pode servir mais para consolidar sua base do que para ampliá-la entre os indecisos.
FRAGILIDADE
Existe, entretanto, uma ferida política que nunca cicatrizou. A criação das unidades de conservação no fim de seu governo continua despertando forte resistência em parte significativa da sociedade rondoniense e permanece como um dos episódios mais controversos de sua trajetória. O tema voltou ao centro do debate recentemente, com o próprio senador reafirmando sua posição e defendendo a legalidade das medidas adotadas.
PAUTA
É justamente aí que mora o verdadeiro desgaste eleitoral. Enquanto a ligação com Lula mobiliza uma base já conhecida, a questão das reservas ambientais alcança produtores rurais, moradores do interior e segmentos que carregam ressentimentos antigos sobre o assunto. É um debate local, emocional e profundamente enraizado na memória política do estado. Pautar este tema pode pregar nele um desgaste que o rondoniense percebe.
ATALHOS
Confúcio continua sendo um dos políticos mais experientes de Rondônia. Sobreviveu a crises, reinventou alianças e atravessou governos porque conhece, como poucos, os atalhos da política. Mas até os veteranos carregam pesos difíceis de abandonar.
PEDRA
E, entre todos eles, nenhum parece tão pesado quanto o das reservas ambientais. É uma pedra que permanece no caminho do senador e que, diferentemente da polarização nacional, fala diretamente ao sentimento de uma parcela expressiva do eleitorado rondoniense. Fica a dica 0800.
CONVENÇÃO
A convenção do PL, realizada em pleno meio da semana -um dia pouco favorável para mobilizações de massa – conseguiu preencher boa parte da Casa de Shows Talismã e transmitiu uma imagem de organização e entusiasmo. A oficialização das candidaturas, com o apoio do Podemos, reuniu as principais lideranças da aliança e serviu como demonstração de força política.
PLATEIA
No palco estavam Marcos Rogério e Delegado Camargo, candidatos ao Governo e à Vice-Governadoria; o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes; os candidatos ao Senado Fernando Máximo e Bruno Scheid; além dos postulantes à Câmara Federal e à Assembleia Legislativa. Prefeitos, vereadores, dirigentes partidários e militantes formaram uma plateia numerosa e participativa, reforçando a percepção de que a coligação entra na disputa com uma estrutura política consolidada.
REJEIÇÃO
Mas convenção não elege ninguém. O verdadeiro teste começa quando o palanque dá lugar ao corpo a corpo com o eleitor. O desafio de Marcos Rogério será convencer que sua competitividade não se restringe ao primeiro turno e que possui condições reais de ampliar apoios em uma eventual disputa decisiva no segundo turno. Para isso, precisará reduzir índices de rejeição que hoje representam um obstáculo relevante à expansão de sua candidatura.
PESO
A favor da chapa pesa o apoio de prefeitos com boa avaliação administrativa e de lideranças municipais capazes de transferir capital político. Contra ela, permanece a necessidade de dialogar além do eleitorado já convencido. Em campanha eleitoral, entusiasmo de militância ajuda a produzir boas imagens; votos, porém, continuam sendo conquistados muito mais fora dos eventos do que dentro deles. A fama de arrogante ainda ronda ele e a campanha. É um traço que atrapalhar em razão de ser perceptível ao eleitor médio. É possível vencer. Eis aí a questão…
ACORDO
Em um Estado onde parte do discurso político transformou fiscalização em perseguição, proteção ambiental em “ideologia” e cumprimento da lei em incômodo ao setor produtivo, o acordo firmado entre o Ministério Público Federal e a Amaggi merece registro positivo. É a demonstração de que desenvolvimento e responsabilidade podem ocupar a mesma estrada.
LITÍGIO
Ao encerrar o inquérito civil mediante um Termo de Acordo Extrajudicial, o procurador da República Raphael Bevilaqua evitou uma longa disputa judicial e construiu uma solução prática: a empresa corrigirá procedimentos para impedir a saída de caminhões com excesso de peso e ainda destinará R$ 97,8 mil em equipamentos à Polícia Rodoviária Federal em Rondônia.
RISCOS
Não se trata apenas de punir uma irregularidade. Caminhões acima do peso deterioram rodovias, elevam o risco de acidentes e ampliam custos que acabam recaindo sobre toda a sociedade. Exigir o cumprimento das regras não é radicalismo; é administração pública responsável.
VIRTUDE
Em tempos de negacionismo institucional, quando qualquer iniciativa ligada à fiscalização ambiental ou ao interesse coletivo costuma ser atacada como se fosse obstáculo ao crescimento econômico, o acordo reafirma uma verdade elementar: produzir riqueza não autoriza descumprir a lei. Segurança viária, preservação da infraestrutura e respeito às normas são pressupostos de uma economia moderna, não inimigos dela. Além de ser uma virtude civilizacional.
RESULTADO
O MPF acerta ao privilegiar uma solução que produz resultado concreto, reforça a capacidade operacional da PRF e impõe mudanças efetivas na conduta empresarial. Em um ambiente político frequentemente dominado pelo confronto estéril, o bom senso ainda consegue abrir caminho. Há esperança ainda para humanidade.
DESAPEGO
A decisão da direção nacional do PT de priorizar a candidatura à reeleição do senador Confúcio Moura produziu seu primeiro efeito político relevante em Rondônia. A jornalista Luciana Oliveira anunciou a retirada de sua pré-candidatura ao Senado, declarou apoio à estratégia definida pelo partido e afirmou que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está acima de qualquer projeto pessoal. A mudança ocorre após a direção petista concentrar esforços em candidaturas consideradas mais competitivas ao Senado.
LEALDADE
Em manifestação nas redes sociais, Luciana adotou um discurso de absoluta fidelidade partidária. Disse que se submete à decisão da direção nacional por entender que derrotar o bolsonarismo em Rondônia é prioridade estratégica e comparou esse desafio à distância entre Brasil e China. Sem demonstrar contrariedade, confirmou apoio à reeleição de Confúcio Moura e reafirmou o compromisso com a campanha de Lula. A postura está em sintonia com declarações anteriores, quando já havia afirmado que abriria mão da própria candidatura caso essa fosse a orientação do partido.
REFORÇO
Há cerca de dois meses em intercâmbio na China- onde produz matérias maravilhosas sobre o país asiático, Luciana informou que retornará ao Brasil para participar ativamente da campanha petista em Rondônia. O objetivo, segundo declarou, é reforçar a mobilização da militância e atuar na disputa política contra o campo bolsonarista durante o processo eleitoral.
UNIDADE
A retirada da pré-candidatura elimina uma potencial disputa interna e consolida, ao menos por ora, a estratégia nacional de unificar o campo governista em torno de Confúcio Moura. O movimento evidencia que, para o PT, a matemática eleitoral prevaleceu sobre os projetos estaduais, numa tentativa de ampliar as chances de manter representação alinhada ao Palácio do Planalto no Senado Federal. É na Casa Alta do parlamento brasileiro que a direita concentra força para alcançar a maioria e impor uma agenda conservadora e devastadora a quem pensa contrário.
