O perigo de usar canetas emagrecedoras sem procedência

Publicado em: 03/09/2026 16:54
Esse caso aconteceu em Belo Horizonte e virou um alerta sobre um mercado que cresceu junto com a popularidade das chamadas canetas emagrecedoras.
Kellen Oliveira Bretas Antunes tinha 42 anos quando decidiu usar um produto conhecido como Lipoless, adquirido de forma ilegal e vindo do Paraguai. O medicamento era vendido como se contivesse tirzepatida, a mesma substância presente no Mounjaro, mas havia um problema enorme: o produto não tinha registro no Brasil e Kellen começou a utilizá-lo sem prescrição ou acompanhamento médico.
Ela iniciou as aplicações no fim de novembro de 2025.
Algumas semanas depois, em meados de dezembro, apareceram os primeiros sinais de que alguma coisa estava errada. Segundo a filha, a urina de Kellen ficou muito avermelhada e ela começou a sentir dores abdominais. Ao perceber os sintomas, interrompeu as aplicações.
No dia 17 de dezembro, Kellen foi internada no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte. Depois de passar vários dias hospitalizada, recebeu alta no dia 25 com suspeita de intoxicação medicamentosa.
Só que, apenas dois dias depois, o quadro começou a ficar muito mais assustador.
Segundo a família, Kellen começou a perder força muscular rapidamente. Ela já não conseguia se levantar nem andar sozinha.
No dia 28 de dezembro, precisou ser internada novamente. Além da fraqueza intensa, apresentava urina escura, alterações neurológicas e insuficiência respiratória.
A situação se tornou tão grave que Kellen precisou ser transferida para o Hospital das Clínicas da UFMG.
No início, os médicos consideraram diferentes possibilidades para explicar o que estava acontecendo, incluindo uma doença rara chamada porfiria intermitente aguda. Posteriormente, segundo a família, Kellen recebeu o diagnóstico de Síndrome de Guillain-Barré.
Essa síndrome acontece quando o próprio sistema imunológico ataca os nervos periféricos. Em casos graves, a fraqueza muscular pode avançar a ponto de comprometer até mesmo a respiração.
Na atualização divulgada pela família em janeiro de 2026, Kellen estava traqueostomizada e conseguia movimentar apenas o pescoço e os dedos das mãos e dos pés. Apesar da gravidade, os familiares disseram que ela estava estável e começava a apresentar sinais graduais de melhora.
Mas existe um ponto muito importante aqui.
Não foi estabelecido que a caneta tenha causado diretamente a Síndrome de Guillain-Barré.
Especialistas alertaram que seria impossível fazer essa afirmação porque nem sequer havia certeza sobre tudo o que existia dentro do produto utilizado por Kellen. O Lipoless era vendido como tirzepatida, mas não possuía registro sanitário brasileiro e sua composição e qualidade não tinham as mesmas garantias de um medicamento regularizado.
O próprio frasco que estava na casa de Kellen chegou a ser levado pela família ao hospital, na tentativa de descobrir exatamente o que ela havia utilizado.
E o caso ganhou ainda mais repercussão porque, nos meses seguintes, a Anvisa intensificou as ações contra canetas emagrecedoras irregulares. A agência determinou a apreensão do Lipoless e de outros produtos sem registro e alertou que medicamentos de origem desconhecida podem apresentar problemas de composição, contaminação, armazenamento e concentração.
Então é importante separar duas coisas.
Isso não é simplesmente uma história sobre “tirzepatida fazendo alguém parar de andar”. Kellen utilizou um produto ilegal vendido como tirzepatida, de procedência e composição não garantidas, sem acompanhamento médico.
E depois disso desenvolveu um quadro gravíssimo que ainda exigia investigação médica.
O que assusta é perceber como um produto injetável sem garantia de origem conseguiu chegar tão facilmente até uma pessoa comum.

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