PF aponta rios Acre e Iaco como novas rotas do tráfico de cocaína peruano

Publicado em: 21/04/2026 23:35
Assis Brasil e Epitaciolândia são os municípios de maior risco na fronteira; Reserva Extrativista Chico Mendes também é usada para desvio da fiscalização, segundo ofício da PF à CPI do Crime Organizado

A Polícia Federal afirma que as duas principais facções criminosas do país, o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital), estão fortemente estabelecidas na Amazônia Legal. Foto: captada 

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A PF também alertou para o risco elevado de tráfico em áreas rurais da Reserva Extrativista Chico Mendes, frequentemente utilizadas para desvio da fiscalização

Um ofício assinado pelo diretor-executivo da Polícia Federal, William Marcel Murad, enviado à CPI do Crime Organizado do Senado (encerrada em 14 de abril sem relatório final), mostra que os rios Acre e Iaco estão sendo utilizados por narcotraficantes peruanos para a entrada de cocaína no Acre. Também há novos caminhos do narcotráfico cortando a Reserva Extrativista Chico Mendes.

As informações fazem parte de uma reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo, assinada pelas jornalistas Thaísa Oliveira e Raquel Lopes.

Municípios de maior risco

A PF apontou os municípios de Assis Brasil e Epitaciolândia como os pontos no Acre de maior risco para a entrada e saída de drogas na região amazônica, devido ao intenso fluxo na BR-317 e em estradas vicinais.

Análise política
  • Assis Brasil fica na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia, colada ao município peruano de Iñapari.

  • Epitaciolândia fica na fronteira com Cobija, na Bolívia, a 115 km de Assis Brasil e a 220 km da capital Rio Branco.

A PF também alertou para o risco elevado de tráfico em áreas rurais da Reserva Extrativista Chico Mendes, frequentemente utilizadas para desvio da fiscalização.

A PF apontou os municípios de Assis Brasil e Epitaciolândia como os pontos no Acre de maior risco para a entrada e saída de drogas na região amazônica. Foto: captada 

Rotas do tráfico

A PF apontou três eixos principais para o escoamento de drogas, especialmente de cocaína:

  1. Via terrestre – pela BR-317 e estradas vicinais.

  2. Rotas fluviais – pelos rios Negro e Solimões (origem na Colômbia e Peru) e pelos rios Acre e Iaco.

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  3. Rotas aéreas – helicópteros e aviões clandestinos provenientes da Colômbia e do Peru, indicando modernização do tráfico.

O ofício enviado

O ofício da PF foi enviado à CPI do Crime Organizado, que foi encerrada no dia 14 de abril sem aprovação de relatório final.

No ofício, a Polícia Federal afirma que as duas principais facções criminosas do país, o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital), estão fortemente estabelecidas na Amazônia Legal. No Acre, o grupo conhecido como B13 também possui alcance estadual relevante.

Pequenos grupos locais, segundo Murad, também atuam na aquisição de entorpecentes de fornecedores estrangeiros e na redistribuição para outros estados.

Para combater essa expansão, a corporação apontou que há integração operacional com forças estaduais e cooperação internacional pontual com autoridades do Peru e da Bolívia, especialmente em operações conjuntas e trocas de informações para desarticulação de rotas.

Assis Brasil fica na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia, colada ao município peruano de Iñapari. Foto: captada 

Análise política

Além disso, o governo federal implementou o Plano AMAS (Amazônia: Segurança e Soberania), o Centro de Cooperação Policial Internacional, como foco no fluxo de informações e atuação integrada em áreas transfronteiriças, e criou a Diretoria da Amazônia e Meio Ambiente na PF.

Em outro ofício enviado à CPI, a Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, afirmou que as principais organizações atuam também em crimes ambientais, como garimpo ilegal, desmatamento e grilagem de terras públicas.

“Com base nas análises produzidas pela Inteligência Penitenciária, o tráfico de drogas, especialmente a cocaína, é o principal motor do crime organizado na Amazônia”, disse a Senappen.

“Neste contexto, foram identificadas duas rotas para o escoamento do tráfico: (a) Rota Solimões (fluvial), ligação importante no eixo Amazonas-Pará, utilizada pelas principais organizações criminosas intercontinentais do país; e a (b) rota terrestre BR-364, principal via do sudoeste amazônico, ligando Acre e Rondônia ao Mato Grosso e, subsequentemente, ao Sul e Sudeste do Brasil.”

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A Senappen também entregou à CPI o panorama de 2025 das facções criminosas. Foram identificadas 90 organizações em atuação no território nacional —ante 88 em 2024 e 70 em 2023.

O levantamento classifica esses grupos conforme o alcance territorial em quatro categorias: 74 locais (que atuam apenas no estado de origem), 14 regionais (presentes em mais de um estado), 2 nacionais e 2 transnacionais (que ultrapassam os continentes e as fronteiras do país) —o PCC e o Comando Vermelho estão nos dois últimos casos.

O documento, intitulado Mapa de Orcrims (organizações criminosas), apresenta o resultado de um monitoramento realizado nos últimos três anos pela Secretaria Nacional de Políticas Penais em parceria com a Rede Nacional de Inteligência Penitenciária.

Os dados do relatório mostram que a região Nordeste é a que possui o maior número de grupos mapeados, totalizando 46 organizações. Em seguida, aparecem o Sul (24), o Sudeste (18), o Norte (17) e o Centro-Oeste (9).

Iaco estão sendo utilizados por narcotraficantes peruanos para a entrada de cocaína no Acre. Também há novos caminhos do narcotráfico cortando a Reserva Extrativista Chico Mendes.

Um ponto de destaque é a presença de três organizações criminosas de origem venezuelana operando no Norte do país: o Sindicato de Las Claritas, o Tren de Aragua e o Tren de Guayana.

Os Estados Unidos designaram em fevereiro a gangue venezuelana Tren de Aragua e outros cartéis narcotraficantes como organizações terroristas globais, de acordo com um aviso no Registro Federal americano.

O governo Donald Trump avalia classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Autoridades brasileiras são contra a medida sob a alegação de que isso daria margem para interferências externas.

 

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