PF vai revelar nomes de políticos envolvidos com Vorcaro; entenda

Publicado em: 19/03/2026 22:57
O banqueiro Daniel Vorcaro. Foto: Divulgação

A Polícia Federal prepara um relatório preliminar com os primeiros achados extraídos do celular e de arquivos do banqueiro Daniel Vorcaro, material que pode atingir figuras políticas com foro privilegiado. Investigadores identificaram menções ao senador Ciro Nogueira, presidente do partido, e avaliam se haverá pedido de abertura de inquérito.

O documento será enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator do caso envolvendo o Banco Master. Mensagens analisadas pela PF indicam que Vorcaro comemorou a apresentação de uma emenda do senador a uma Proposta de Emenda à Constituição que beneficiaria instituições financeiras em crise.

A proposta sugeria elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para aplicações como CDB. Nos diálogos, o banqueiro reagiu à repercussão da iniciativa: “Kkk todo mundo me ligando (…) Sentiram o golpe”. A medida acabou não avançando no Congresso por falta de apoio.

Durante tratativas para a venda do banco ao BRB, o Banco Central sinalizou que poderia rejeitar a operação. Nesse contexto, o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), aliado de Nogueira, articulou um requerimento para acelerar a tramitação de projeto que permitiria ao Congresso destituir dirigentes do BC.

A iniciativa contou com apoio de parlamentares de diferentes siglas, mas foi abandonada após reação negativa do mercado financeiro. Em troca de mensagens com a então namorada, Vorcaro se referiu ao senador como “um dos meus grandes amigos de vida”.

Questionado por jornalistas, Ciro Nogueira afirmou conhecer empresários de diversos setores, mas negou relação indevida. “ Sou convidado para jantares, palestras, encontros. Agora, o CPF dele é um, o meu é outro. O que vai nortear minha trajetória de vida é minha história, e podem ter toda a certeza: se surgir algum dia alguma denúncia que seja comprovada contra o senador Ciro, eu renuncio ao meu mandato”.

O senador Ciro Nogueira. Foto: Divulgação

Os investigadores afirmam que o material apreendido inclui também conteúdos de caráter privado, mas que apenas mensagens com possível relevância criminal serão consideradas. A PF busca elementos que indiquem atuação de autoridades com foro privilegiado no exercício do mandato, condição necessária para manter o caso sob análise do Supremo Tribunal Federal.

Outros diálogos analisados mostram que Vorcaro mencionava com frequência sua rede de contatos em Brasília. Em conversas com pessoas próximas, dizia ter feito “fortes amigos” e afirmava que “no Brasil não tem como andar se não tiver esse tipo de proteção”.

A PF avalia se essas declarações têm relação com tentativas de influência política em decisões sobre o banco. Entre as mensagens extraídas do celular, há também conversas envolvendo o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.

Em um dos diálogos, Costa relata ter falado com Antônio Rueda, presidente do União Brasil, durante as negociações para a venda do Master. O conteúdo foi preservado por Vorcaro em capturas de tela armazenadas no aparelho, que agora fazem parte do material analisado pela PF e pela CPI do INSS.

A operação previa a compra de 58% do capital do Master pelo banco público do Distrito Federal por cerca de R$ 2 bilhões, mas acabou barrada pelo Banco Central, que posteriormente decretou a liquidação da instituição por suspeitas de irregularidades.

Por meio de advogados, Paulo Henrique Costa afirmou que as mensagens ocorreram no exercício regular das funções no BRB. A investigação também alcança relações do banco com dirigentes do União Brasil.

Antônio Rueda confirmou ter prestado serviços jurídicos ao Master e afirmou que a atuação ocorreu “em caráter estritamente técnico” e dentro da legalidade. Relatórios do Coaf apontam ainda que o ex-prefeito de Salvador ACM Neto recebeu R$ 3,6 milhões do banco e da gestora Reag entre 2023 e 2024. Ele declarou que os valores se referem a consultoria regularmente contratada.

Vorcaro assina termo de confidencialidade ao ser transferido para PF

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: reprodução

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou o pedido de prisão domiciliar do banqueiro Daniel Vorcaro e determinou sua transferência para a superintendência da Polícia Federal, em meio à possibilidade de um acordo de delação premiada. A decisão ocorre após a defesa informar a intenção de colaboração e firmar um termo de confidencialidade com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal.

A movimentação é vista como um indicativo de que o processo de colaboração já começou, segundo Andréia Sadi, da GloboNews. Na prática, a ida de Vorcaro para a PF nesta quinta-feira (19), facilita o acesso a depoimentos e marca o início do rito formal da delação, no qual o investigado apresenta informações que podem contribuir com as investigações. Ainda assim, o ministro deixou claro que não há garantia de benefícios antecipados.

Nos bastidores, Mendonça tem reforçado que só aceitará um eventual acordo caso ele seja robusto. Interlocutores afirmam que o entendimento do ministro é de que a delação precisa ser “consistente, completa e não seletiva”, sem omissões ou tentativas de proteger envolvidos. Caso contrário, o acordo pode ser rejeitado.

Outro ponto relevante foi o timing da decisão. O ministro optou por agir antes de um julgamento na Segunda Turma do STF que pode influenciar a situação de Vorcaro. Entre magistrados, a avaliação é que a medida também buscou evitar impactos do voto de Gilmar Mendes, previsto para esta semana.

Daniel Vorcaro chegando na Superintendência da Polícia Federal. Foto: Vinicius Schmidt/Metrópoles

A transferência para a Polícia Federal é considerada um passo estratégico dentro desse tipo de negociação. Nesse ambiente, o investigado pode prestar depoimentos gravados, indicando fatos, provas ou caminhos para obtenção de evidências.

O procedimento envolve a formalização das declarações, a análise das informações pela polícia e, posteriormente, a decisão do relator sobre a homologação do acordo.

Vorcaro foi preso no início de março durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal. Inicialmente, ele estava no Complexo Penitenciário de Potim, no interior de São Paulo, e depois foi levado para a Penitenciária Federal em Brasília.

A defesa do banqueiro, liderada pelo advogado José Luís Oliveira Lima, já sinalizou a possibilidade de colaboração às autoridades, mas evitou comentar detalhes do caso, citando a “sensibilidade do caso”. O encontro recente com Mendonça também tratou dos possíveis desdobramentos da investigação.

Compartilhar

Faça um comentário