Pré-campanha de Adailton Fúria se torna “campo minado” e ex-prefeito vira refém de Rocha
Porto Velho, RO – A pré-campanha de Adailton Fúria (PSD) ao governo de Rondônia virou um campo minado. Longe de consolidar uma sucessão tranquila dentro do partido, o ex-prefeito de Cacoal se tornou refém do governador Marcos Rocha e do grupo trivial de coordenadores que lhe foi imposto como condição para manter o apoio da máquina estadual. O resultado, já visível nas ruas e nas redes sociais, é uma sangria de votos que ameaça inviabilizar a candidatura antes mesmo da oficialização.
A armadilha da coordenação: quando o trivial sufoca a estratégia
Tudo começou quando o governador Marcos Rocha decidiu que Luana Rocha, sua esposa e primeira-dama, assumisse a coordenação da campanha de Fúria. A exigência foi apresentada como um ultimato: ou Fúria aceitava o comando do “grupo trivial” — formado por nomes de confiança exclusiva do Palácio — ou o apoio estadual seria retirado.
Fúria resistiu. Sua aposta era o ex-senador Expedito Júnior, um estrategista experiente e de sua estrita confiança. Mas a pressão do governador foi maior. O acordo de última hora, costurado em reunião tensa no Palácio, criou uma coordenação dividida e disfuncional:
■ Luana Rocha ficou com a coordenação do “povo do governo” — ou seja, a mobilização de secretários, diretores e aliados fiéis ao governador.
■ Expedito Júnior foi mantido como coordenador-geral, mas sem controle real sobre a máquina pública.
Na prática, Fúria passou a ter dois chefes: um que define a estratégia (Expedito) e outro que controla os recursos (Luana). É o pior dos mundos para qualquer campanha — e especialistas ouvidos pela reportagem classificam o arranjo como “trivial”, no sentido literal de amador, superficial e sem a profundidade que uma disputa ao governo exige.
“Coordenador de campanha precisa centralizar decisões, articular partidos e gerir crises. Quando você divide o poder entre um grupo trivial, sem experiência real de rua, e um estrategista de verdade, o que acontece é um tiroteio amigo. E quem perde é o candidato”, analisa um cientista político que pediu anonimato.
A reação das redes: eleitores fogem de Fúria ao associá-lo a Marcos Rocha
O anúncio do grupo trivial de coordenadores teve um efeito imediato e devastador: a perda acelerada de votos. Nas redes sociais, manifestações de descontentamento explodiram. Eleitores que antes apoiavam Fúria passaram a justificar publicamente a decisão de não votar mais no pré-candidato, com argumentos que se repetem como um mantra:
“Fúria é só continuidade de Marcos Rocha.”
“Governo Rocha é o pior da história de Rondônia. Quem aceita coordenação imposta por ele não tem autonomia.”
“Se a campanha já começa refém, imagina o governo.”
Um levantamento do Instituto Amazônia de Pesquisa (IAP), realizado entre 19 e 23 de maio de 2026, mostra que, embora Fúria ainda ocupe a segunda posição (23,2% das intenções de voto, contra 35,4% de Marcos Rogério, do PL), sua rejeição já saltou para 8,4% — o maior índice entre os pré-candidatos do chamado “grupo da situação”.
E o pior: a tendência é de aceleração. A cada nova manifestação do governador ou do grupo trivial de coordenadores, mais eleitores migram para a candidatura de oposição ou para o campo da abstenção.
Expedito Júnior: o homem de confiança que não pode tudo
Fúria nunca escondeu sua preferência. Para ele, Expedito Júnior é o nome certo: ex-senador, estrategista rodado, capaz de ler o jogo político com antecedência e tomar decisões difíceis. Atributos que, segundo a cartilha clássica de marketing político, são fundamentais para um coordenador-geral.
“Expedito abriu mão da presidência do PSD para o governador, ampliando sua influência real. É um movimento raro na política: abrir mão do poder formal para ganhar poder de fato”, lembra o colunista Robson Oliveira, da Rondônia Dinâmica.
Mas a realidade da campanha é outra. Expedito até tenta apagar incêndios, mas vive sabotado pela coordenação trivial que responde diretamente a Marcos Rocha. Decisões estratégicas são contestadas. A articulação partidária é minada. E a gestão de crises — como a atual onda de rejeição — é feita a reboque do Palácio.
Nos bastidores, Fúria já teria dado um recado direto ao grupo de Luana Rocha: “Tudo tem que passar pelo Expedito. Ele sim dirige o projeto político do PSD ao governo do Estado.” A fala foi interpretada como uma tentativa desesperada de retomar o controle, mas, sem a máquina na mão, soa mais como um grito preso.
Marcos Rocha: o pior governador da história de Rondônia? A aposta que virou fardo
O grande problema estrutural da campanha de Fúria não é apenas a coordenação dividida. É o lastro que o candidato carrega: a imagem de Marcos Rocha.
Avaliações de desempenho do governo estadual, compiladas por institutos de pesquisa, colocam Rocha nas piores posições da história recente de Rondônia. Áreas como saúde, segurança pública e infraestrutura acumulam críticas pesadas. Obras paralisadas, filas em hospitais regionais, sensação de abandono no interior — o cenário é desolador.
E Fúria, ao aceitar o grupo trivial de coordenadores imposto pelo governador, assumiu publicamente o papel de continuidade. Por mais que tente se distanciar, cada pronunciamento de Luana Rocha, cada nomeação de um coordenador ligado ao Palácio, cada ultimato do governador reforça a mensagem: Fúria é refém de Marcos Rocha.
“Marcos Rocha vai entrar para a história do estado como o pior governador de Rondônia. E Fúria, infelizmente, está sendo arrastado junto”, desabafou um eleitor em um dos grupos de WhatsApp que viralizaram nos últimos dias.
O futuro imediato: rompimento ou afundamento coletivo?
Diante do cenário, Fúria tem duas saídas, ambas dolorosas:
1. Rompimento com Marcos Rocha — o que significaria perder a máquina estadual, os recursos e parte significativa da estrutura do PSD, mas poderia resgatar sua autonomia e tentar reconstruir a imagem perante o eleitorado.
2. Manter o acordo e tentar administrar a crise — o caminho atual, que até agora só produziu perda de votos, desgaste nas redes e a percepção generalizada de que Fúria é um “fantoche” do governador.
A terceira via — a que Expedito Júnior tenta costurar nos bastidores — é um equilíbrio instável: usar a máquina sem parecer refém, manter Luana Rocha à distância sem romper, e tentar convencer o eleitor de que Fúria tem projeto próprio. Mas, com o grupo trivial de coordenadores atuando como “sentinela” do governador dentro da campanha, essa via parece cada vez mais uma utopia.
O tempo urge. As convenções partidárias se aproximam. E o eleitor de Rondônia, cansado de promessas e arranjos de bastidores, já começa a fazer sua escolha. Se Fúria não resolver rapidamente a equação do comando da campanha, pode entrar para a história não como governador, mas como o candidato que tinha tudo para vencer e foi afundado por uma coordenação trivial imposta por um governador em fim de linha.
