Quem é o tenente-coronel preso por matar esposa PM

Publicado em: 18/03/2026 15:43
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Foto: Reprodução/UOL

O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, foi preso em São José dos Campos, interior de São Paulo, pela morte de sua esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos. Ela foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento onde o casal morava no Brás, em São Paulo, em 18 de fevereiro.

Natural de Taubaté, no interior de São Paulo, Geraldo é formado em ensino superior, segundo os autos do processo, mas curso específico não tenha sido revelado. Ele ingressou na Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) e foi promovido ao cargo de tenente-coronel em 2025, uma das mais altas patentes da corporação.

Antes da promoção, ele era major e atuava no 11º Batalhão da Polícia Militar, responsável por áreas importantes da capital paulista, como a Avenida Paulista e os bairros da Bela Vista e Jardins. Ele foi transferido para o Comando de Policiamento de Área Metropolitana Cinco (CPA/M-5) quando recebeu a patente de tenente-coronel.

Geraldo pediu afastamento das funções após a morte de Gisele e 35 anos na Polícia Militar. Ele participou da Força Tática e esteve em diversas unidades da corporação, incluindo no Litoral Norte e na capital. Sua remuneração mensal bruta era de R$ 30.861,87, com um total líquido de R$ 17.270,56, de acordo com o Portal da Transparência do Governo de São Paulo.

Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e a soldado Gisele Alves. Foto: Reprodução

Em seu depoimento à polícia, Geraldo afirmou ter conhecido Gisele em 2021 e oficializado o relacionamento em 2023, casando-se no ano seguinte. Ele disse que a relação se tornou “conturbada” em 2024, com várias discussões, principalmente após ele ser alvo de denúncias anônimas na Corregedoria da Polícia Militar.

Segundo ele, essas acusações de infidelidade eram uma “vingança” devido a alterações que ele realizava no batalhão. As denúncias incluíam imagens alteradas e perfis falsos, gerando constantes brigas entre o casal.

Geraldo afirmou que as acusações de infidelidade e as mensagens de perfis falsos para Gisele foram fatores que contribuíram para o desgaste do relacionamento, levando o casal a dormir em quartos separados desde agosto de 2025.

A prisão foi determinada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) após o pedido da Polícia Civil pela prisão preventiva do tenente-coronel.

A justiça chegou tarde: o feminicídio anunciado da PM Gisele Alves

Geraldo Leite Rosa Neto e Gisele Alves Santana. Foto: Reprodução

O caso da PM Gisele Alves está finalmente sendo tratado como feminicídio.

Segundo laudo citado na decisão que prendeu o tenente-coronel Geraldo Rosa Neto por suspeita de feminicídio, violência doméstica e fraude processual, a policial militar Gisele Alves foi imobilizada por trás e baleada na têmpora, um crime premeditado para que parecesse suicídio. E era assim que o caso vinha sendo tratado antes do aprofundamento das investigações.

Sim, uma PM treinada talvez pudesse ter se defendido. Mas a mulher foi covardemente imobilizada por trás — e isso deve ser tratado como feminicídio qualificado pelo emprego de meios que impossibilitam a defesa da vítima, uma qualificadora que já existe no sistema penal brasileiro e que, sem sombra de dúvidas, deve ser aplicada ao caso.

Não se trata de um homicídio simples. E é preciso dizer isso quantas vezes forem necessárias para que esse crime seja não apenas punido, mas punido com todo o rigor da lei.

A própria filha da vítima, uma criança, relatou não aguentar mais as brigas e gritos do padrasto com a mãe, um forte indício de violência doméstica prévia.

Alguns — talvez tão canalhas quanto o assassino — usarão isso para culpar a mulher, dizendo que ela deveria ter denunciado antes que a violência resultasse em morte.

Pra quê?

A justiça garante, no máximo, uma medida protetiva frequentemente descumprida pelo agressor, que só fica com mais raiva e se torna ainda mais perigoso.

Momento em que o coronel Geraldo Leite é preso. Foto: Reprodução/TV Globo

Medida protetiva não cumprida não protege e ainda coloca a vítima em maior risco. Segundo o DataSenado 2025, cerca de 555 mil medidas foram concedidas no Brasil, e mais de 100 mil foram violadas.

Como confiar em uma justiça dessas?

Aliás, algo provavelmente deu errado no caminho: no Brasil, PM não é investigado com seriedade e eles sabem disso.

Protegem-se mutuamente e frequentemente garantem a impunidade uns dos outros, como um acordo tácito selado por uma farda.

Para esse feminicídio agora tratado como feminicídio — e, esperamos, punido com rigor — há centenas de outros feminicidas impunes.

Nunca é demais dizer que Gisele não é uma exceção: é um caso que, por algum motivo, rompeu a regra do descaso. Antes dela, muitas outras morreram em silêncio, arquivadas como estatística ou mentira conveniente.

E enquanto o Estado continuar chegando depois da morte, investigando melhor o cadáver do que protegendo a mulher viva, o feminicídio seguirá sendo não uma tragédia, mas um método.

Machismo, humilhação e xingamentos: as mensagens de coronel para esposa PM

A PM Gisele Alves Santana e o tenente-coronel Geraldo Leite. Foto: Reprodução/TV Globo

Mensagens encontradas no celular do tenente-coronel Geraldo Neto, marido da Gisele Alves, mostram que ele humilhava a esposa e tinha comportamentos abusivos. A extração dos dados do aparelho também mostrou que ele aparecia no local de trabalho da vítima para monitorá-la.

Em um dos diálogos, ela reclama do tratamento desrespeitoso e ameaça se separar caso ele não mude seu comportamento. Gisele ainda relatou em mensagens que o tenente-coronel a chamava de “burra” e a humilhava constantemente, dizendo-lhe para “arrumar um soldado”.

Ele fez declarações machistas, como “lugar de mulher é em casa, cuidando do marido”, tentando controlá-la. As mensagens foram interpretadas pela Corregedoria da PM como indícios claros de violência psicológica reiterada e controle sobre a vítima.

Gisele foi encontrada morta, com um tiro na cabeça, no apartamento onde vivia com o marido. Inicialmente, Geraldo alegou que a esposa teria cometido suicídio após uma discussão, mas a versão foi refutada após a investigação da Polícia Civil, que apontou sinais de manipulação da cena do crime e a morte como homicídio. Laudos periciais indicaram que o crime foi cometido com o uso de uma arma do próprio tenente-coronel.

Momento em que o coronel Geraldo Leite é preso. Foto: Reprodução/TV Globo

De acordo com a investigação, o comportamento abusivo de Geraldo estava presente antes do episódio. A polícia concluiu que Gisele já vivia em um ambiente relacional agressivo, com tentativas constantes de controle, humilhação e desqualificação da sua autonomia.

O comportamento de Geraldo foi classificado como agressivo e potencialmente violento, o que levou à conclusão de que o feminicídio foi premeditado. O tenente-coronel foi preso em São José dos Campos, no interior de São Paulo.

Geraldo foi detido em cumprimento a um mandado de prisão preventiva, e a sua defesa afirmou que a Justiça Militar não teria competência para julgar o caso, alegando um conflito de competência com a Justiça comum. No entanto, a prisão foi mantida.

PM foi imobilizada e baleada por marido coronel, diz perícia

Geraldo Leite e Gisele Alves. Foto: Reprodução

Laudos periciais apontam que a policial militar Gisele Alves foi imobilizada por trás e que o assassino usou a mão esquerda enquanto disparava com a pistola, uma Glock calibre .40. A vítima foi encontrada morta com um tiro na cabeça e seu marido, o tenente-coronel Geraldo Leite, foi preso por suspeita de feminicídio, violência doméstica e fraude processual.

A trajetória do projétil foi ascendente, o que confirma a versão de um ataque inesperado, sem chances de defesa para a vítima. Investigações revelaram que o local do crime apresentava vestígios de sangue em diferentes cômodos, além de estigmas digitais e ungueais no corpo de Gisele, indicando que ela foi imobilizada com força antes de ser baleada.

A perícia também constatou lesões recentes em seu rosto e axila, compatíveis com agressões físicas anteriores ao disparo fatal. O laudo de reprodução simulada descartou a hipótese de suicídio, indicando que o tiro foi disparado pelas costas de forma súbita e inesperada, impossibilitando qualquer reação da vítima.

A manipulação da cena do crime pelo tenente-coronel foi citada pela perícia, que apontou que a arma foi colocada na mão de Gisele após sua morte. Ele também demorou para acionar o socorro, fazendo diversas ligações a terceiros antes de chamar a polícia, o que indica a possível tentativa de limpar vestígios do crime e manipular a narrativa.

A reconstrução do ambiente também apontou inconsistências na versão do investigado, já que não seria possível visualizar o corpo da vítima na posição em que foi registrado nas fotos feitas pelos socorristas.

Arma encontrada na cena do crime. Foto: Reprodução/TV Globo

A Justiça Militar, com base nas provas apresentadas pela Polícia Judiciária Militar e pelo Ministério Público, acatou a prisão preventiva de Geraldo Rosa Neto. Os promotores destacaram a presença de requisitos legais e a consistência das evidências, como a descrição do comportamento ciumento e controlador do tenente-coronel.

Colegas de trabalho de Gisele relataram que ele a perseguia e se mostrava invasivo, chegando a fazer visitas ao local de trabalho da esposa sem justificativa. O inquérito revelou ainda mensagens extraídas do celular do tenente-coronel, nas quais ele fazia ameaças e praticava agressões físicas contra a vítima, o que reforça a tese de um histórico de violência doméstica.

O marido está no presídio militar Romão Gomes, na capital paulista, após a decisão da Justiça Militar, que aceitou o encaminhamento do Ministério Público e a fundamentação do inquérito da Polícia Civil.

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