Reforma Agrária pode perder 13,9 milhões de hectares para a mineração, aponta estudo

Publicado em: 17/04/2026 17:05
os projetos energéticos também têm um papel importante na reconfiguração do uso da terra, com as hidrelétricas sendo as mais impactantes. No total, 33.586 hectares de assentamentos Foram ocupados por hidrelétricas em 167 assentamentos, especialmente nas regiões Norte e Sudeste. Já os parques eólicos têm avançado principalmente no Nordeste, afetando 87 assentamentos e ocupando 9.443 hectares. Além disso, as linhas de transmissão e infraestrutura de transporte ampliam a pressão sobre mais de 1.800 assentamentos.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Rosa Luxemburgo e pela ONG FASE traz dados inéditos sobre as potenciais perdas de área de assentamentos de reforma agrária para atividades de mineração, projetos energéticos e de infraestrutura. No marco do mês de luta pela reforma agrária, o Abril Vermelho, as organizações divulgaram um resumo do trabalho, que será lançado na íntegra no mês de maio.

De acordo com o estudo “Assentamentos sob pressão: Análise sobre o avanço da fronteira mineral, energética e de infraestrutura sobre a reforma agrária”, 57,1% dos assentamentos do país sofrem sobreposição de projetos de mineração. Em termos de área, são 13,9 milhões de hectares, o equivalente a 19,1% de toda a área destinada à reforma agrária no país. A maior parte está localizada na região Norte, onde 65% dos assentamentos sofrem sobreposição de interesses minerários.

Diante do crescimento da mineração relacionada à transição energética (extração de minerais críticos, como cobre, fluorita, lítio, nióbio e terras raras, entre outros), o estudo destacou os dados dos processos minerários “críticos” e “não críticos” que afetam assentamentos de reforma agrária: Os projetos de extração de minérios “não críticos” – como ouro e ferro, chamados de metálicos, ou areia e cascalho, chamados de não metálicos – perfazem 72,8% das sobreposições a assentamentos, enquanto a de minérios “críticos” representam 27,2% dos casos.

Hidrelétricas têm maior impacto, mas eólicas avançam

Em relação a projetos energéticos que afetam assentamentos do INCRA, o destaque fica para as hidrelétricas, que ocupam uma área total de 33.586 hectares em 167 assentamentos, com destaque para as regiões Norte e Sudeste. Em relação aos parques eólicos, todos os projetos estão localizados na região Nordeste, afetando 87 assentamentos (59 no Estado do Rio Grande do Norte, 9 no Estado da Bahia, 9 no Estado do Ceará, 8 no Estado da Paraíba e 2 no Estado de Pernambuco) e ocupando um total de 9.443 hectares.

Ainda ligadas a projetos energéticos, as linhas de transmissão ampliam significativamente essa pressão, afetando 882 assentamentos, com destaque significativo para a região Nordeste, onde se expande a produção de energias eólicas. Por fim, a infraestrutura de transporte constitui outra dimensão central da pressão territorial. Rodovias estaduais e federais afetam conjuntamente mais de 1.818 assentamentos, enquanto ferrovias impactam 184 assentamentos.

Instrução Normativa do Incra regulamenta mudança no uso dos assentamentos

No final de 2021, o INCRA editou uma Instrução Normativa – a IN 112 -, que estipula regras para que áreas de assentamentos de reforma agrária sejam cedidas para atividades, projetos ou empreendimentos de mineração (incluindo pesquisa e lavra mineral), energias hidráulica, eólica, fotovoltaica, petróleo, gás, linhas de transmissão e linhas de distribuição, portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, infraestrutura e serviços de transporte e barragens, entre outros.

Para movimentos sociais do campo, a IN 112 impacta um eixo central da política agrária: em vez de priorizar a consolidação da produção de alimentos e a proteção dos assentados, abre caminho para negociar usos incompatíveis com os objetivos originais da Política Nacional de Reforma Agrária.

Segundo o estudo, uma combinação de interesses minerários, energéticos e logísticos tende a deslocar a função social da terra em favor de cadeias extrativas e corredores de exportação. “São projetos que reconfiguram o uso da terra, impactam negativamente a produção alimentar, geram incerteza sobre permanência das famílias, criam expectativa de ocupação futura, desestimulam o crédito agrícola e desorganizam investimentos produtivos locais, valorizando o território para fins alheios à reforma agrária”. 

O estudo “Assentamentos sob pressão: Análise sobre o avanço da fronteira mineral, energética e de infraestrutura sobre a reforma agrária” foi coordenado pela Coalizão Terra é para Plantar e Proteger, composta pelas seguintes organizações: Amazon Watch, Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA, Associação Regional de Produtores Agroecológicos – ARPA, Comitê em Defesa dos Territórios frente a Mineração – CDTM, Centro de Tecnologia Alternativa do Vale do Guaporé (MT) – CTA, Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares- CONTAG, cosmopoliticas, Federação das Associações de Moradores do Projeto de Assentamento Agroextrativista da Gleba Lago Grande – FEAGLE, FASE, Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM, Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra – MST, Movimento Xingu Vivo para Sempre, Núcleo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (UFJF, UFRJ, UFF, UFV, UEG), Observatório de Conflitos da Mineração, Rede Brasileira de Justiça Ambiental – RBJA

Sobre a Fundação Rosa Luxemburgo – É uma instituição alemã sem fins lucrativos vinculada ao partido Die Linke (A Esquerda). Fundada no ano de 1990, em Berlim, tem como principais desafios promover a formação política e a crítica social, pautadas na tradição dos movimentos trabalhistas, feministas, antirracistas e antifascistas. Desde 2000, suas iniciativas de cooperação internacional e solidariedade contam com apoio do Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento e do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. Com escritórios em mais de 24 países, a FRL abriu o escritório regional do Brasil e Paraguai, em 2003, na cidade de São Paulo. Na região, os eixos principais são: a defesa da democracia e de direitos políticos e sociais; críticas a modelos extrativistas, transgenia e mercantilização da natureza e da vida; e alternativas ao sistema capitalista, com o apoio a experiências coletivas e solidárias, bem como a divulgação de conceitos como Bem Viver e a luta contra o racismo e todas as opressões e por uma sociedade justa e livre. A nossa orientação política é um socialismo democrático, ecológico, feminista, internacionalista desde baixo.

Via Helyda Gomes

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