Sem Confúcio e com Abib a 1%, o MDB encolhe em Rondônia

Publicado em: 05/08/2026 16:14

Senador anunciou que não buscará a reeleição ao Senado, cogitou-se a volta do ex-ministro Amir Lando, mas a legenda encolheu: candidato ao governo tem 1% nas pesquisas e o partido perdeu seu principal pilar eleitoral no estado

Sem Confúcio e com Abib a 1%, o MDB encolhe em Rondônia
📷 Pedro França/Agência Senado
  • O senador Confúcio Moura (MDB-RO) anunciou em 31 de julho que não disputará a reeleição ao Senado nas eleições de 2026
  • A desistência foi catalisada pelo PT de Rondônia, que em convenção lançou Expedito Netto ao governo e Luciana Oliveira ao Senado, rompendo a aliança que poderia tornar Confúcio candidato único das forças progressistas
  • O partido lançou Pedro Abib Hecktheuer como candidato ao governo, mas ele aparece com apenas 1% nas pesquisas — e nunca disputou cargo eletivo
  • O ex-senador e ex-ministro Amir Lando foi cogitado para a disputa ao Senado, mas avalia que não tem tempo hábil para montar campanha majoritária desgastante e sem perspectivas
  • O ex-senador Acir Gurgacz (PDT), condenado pelo STF por fraude em compra de ônibus, garantiu liminar de Nunes Marques que restabelece sua elegibilidade e também disputa o Senado, fragmentando o eleitorado de centro-esquerda
  • Na última pesquisa Real Time Big Data, Confúcio aparecia em terceiro lugar para o Senado, com 13%, empatado tecnicamente
  • Por que isso importa: A crise do MDB em Rondônia espelha o enfraquecimento regional de legendas históricas diante da ascensão do bolsonarismo e do centrão, com implicações diretas para a composição do Senado em 2027
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O senador Confúcio Moura (MDB-RO) anunciou na última sexta-feira (31) que não disputará a reeleição ao Senado Federal nas eleições de outubro. A decisão, tomada após o que ele chamou de “reflexão profunda”, não surgiu do nada: dias antes, o PT de Rondônia havia oficializado em convenção sua própria chapa — Expedito Netto ao governo e a jornalista Luciana Oliveira ao Senado —, rompendo a articulação que poderia tornar Confúcio o candidato único das forças progressistas ao Senado e esvaziando de vez suas pretensões eleitorais.

Com o PT fora da sua coluna, Confúcio viu seu espaço político encolher de dois lados: à esquerda, Expedito Netto e Luciana Oliveira passaram a dividir o eleitorado progressista; à direita, o ex-senador Acir Gurgacz (PDT), que também disputa o Senado, garantiu uma liminar do ministro Nunes Marques do STF restabelecendo sua elegibilidade — e com isso consolidou-se como mais um nome a sugar votos do campo que Confúcio pretendia dominar. O resultado é que o MDB de Rondônia, uma das legendas mais antigas e estruturadas da região Norte, agora enfrenta o risco concreto de encolher de vez.

“A desistência de Confúcio Moura expõe uma verdade incômoda: o MDB de Rondônia construiu sua relevância em torno de uma única figura e não soube cultivar alternativas.”

Como o PT rompeu a aliança e esvaziou o terreno de Confúcio

A convenção do PT de Rondônia, realizada em 26 de julho, selou o destino de Confúcio Moura. Ao oficializar Expedito Netto para o governo e Luciana Oliveira para o Senado, o partido deixou de lado o apoio ao senador emedebista, que vinha sendo um dos principais interlocutores do governo Lula no estado.

A decisão do PT não foi isolada. Ela faz parte de uma estratégia mais ampla da legenda em Rondônia: fortalecer candidaturas próprias, ampliar a votação de Lula no estado e aumentar a representatividade feminina no Congresso — hoje, das 88 cadeiras do Senado, apenas 15 são ocupadas por mulheres.

Para Confúcio, o golpe foi duplo. Sem o PT, ele perdeu a chance de ser o candidato único das forças progressistas ao Senado — posição que lhe daria vantagem em uma eleição fragmentada. E sem a perspectiva de liderar uma frente ampla, a viabilidade de sua reeleição se tornou matematicamente mais difícil. Aliados próximos afirmam que o senador avaliou que o tempo restante até as eleições, somado à dificuldade de montar uma campanha competitiva sem o apoio robusto da direção nacional do partido e sem a base petista, tornava a disputa desgastante e de resultado incerto.

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O problema jurídico de Acir Gurgacz e a liminar de Nunes Marques

Enquanto Confúcio Moura recuava, Acir Gurgacz avançava. O ex-senador, que também mira uma vaga ao Senado por Rondônia, conseguiu em 3 de agosto uma liminar do ministro Nunes Marques do Supremo Tribunal Federal (STF) que suspende os efeitos de sua condenação criminal e restabelece seus direitos políticos.

O caso tem raízes profundas. Gurgacz foi condenado em 2018 pela Primeira Turma do STF, na Ação Penal 935, a quatro anos e seis meses de reclusão em regime semiaberto pelo crime de desvio de finalidade na aplicação de recursos de financiamento obtido junto ao Banco da Amazônia.

A fraude era específica e documentada: Gurgacz supostamente apresentou documentos falsos para justificar a compra de sete novos ônibus ao custo unitário de R$ 290 mil, mas laudos técnicos apontaram que cada veículo custou apenas R$ 12 mil. Ele cumpriu a pena até setembro de 2022, mas a suspensão dos direitos políticos — efeito automático da condenação — se estenderia por oito anos, inviabilizando sua candidatura até 2030.

Nunes Marques, porém, concedeu a liminar suspendendo os efeitos do acórdão condenatório até o julgamento definitivo da revisão criminal pedida pela defesa. O ministro fundamentou a decisão no risco de ineficácia: se o mérito da revisão só viesse a ser julgado após o encerramento do calendário eleitoral — as convenções partidárias terminam em 5 de agosto e o registro de candidaturas expira em 15 de agosto —, a decisão final seria inútil para Gurgacz.

A liminar de Nunes Marques não absolve Gurgacz. Apenas adia os efeitos da condenação. Mas, do ponto de vista eleitoral, o efeito é o mesmo: o ex-senador está habilitado a concorrer. E, como consome votos do mesmo eleitorado de centro-esquerda que Confúcio Moura pretendia atrair, sua presença na disputa tornou a reeleição do emedebista ainda mais improvável.

“A liminar de Nunes Marques não absolve Gurgacz — apenas adia os efeitos da condenação. Mas do ponto de vista eleitoral, o efeito é o mesmo: ele está habilitado a concorrer.”

Quem é Pedro Abib, o candidato a governador que não decola

O MDB de Rondônia lançou em julho a pré-candidatura de Pedro Abib Hecktheuer ao governo do estado. A escolha, confirmada em convenção sob a presidência de Confúcio Moura, apostou em um perfil técnico e acadêmico: Abib é doutor em Direito e em Ciência Jurídica, mestre em Direito, formado em Medicina Veterinária, professor do curso de Direito e vice-reitor da Faculdade Católica de Rondônia.

O detalhe decisivo: esta é a primeira vez que Abib disputa um cargo eletivo. Ele nunca foi vereador, nunca foi deputado estadual, nunca ocupou cargo público eletivo. Sua trajetória é inteiramente acadêmica e institucional — coordenador e vice-coordenador do curso de Direito, diretor acadêmico, vice-reitor, pesquisador em direitos fundamentais e comunidades tradicionais da Amazônia.

Na pesquisa Real Time Big Data de julho, Abib não ultrapassou 1% no cenário estimulado para governador. Na pesquisa espontânea — quando o entrevistado cita o nome sem sugestão —, ele sequer aparece entre os citados.

A ausência de capilaridade política de Abib é um reflexo direto da estrutura do MDB em Rondônia: um partido que, apesar de ter governado o estado por duas gestões consecutivas (Confúcio Moura, 2011-2018), não conseguiu renovar sua base eleitoral. A legenda não tem prefeituras de grande porte, não domina a pauta midiática local e perdeu espaço para o PL de Marcos Rogério, para o PSD de Adaílton Fúria e para o União Brasil de Hildon Chaves. Lançar um acadêmico sem histórico eleitoral para governador, num estado onde o voto ainda responde fortemente à máquina política e à presença física nos municípios, é uma aposta que soa mais como desespero do que como estratégia.

A cartada de Amir Lando: o veterano relutante

Com a saída de Confúcio, o MDB nacional e regional passou a sondar um nome do passado: Amir Lando, ex-senador por dois mandatos (1995-2003, 2007-2015), ex-ministro da Previdência Social no governo Lula e ex-deputado federal. Aos 81 anos, Lando é um veterano da política rondoniense e, até pouco tempo atrás, avaliava retornar ao Congresso — mas como candidato a deputado federal, não ao Senado.

Nos bastidores, avalia-se que Amir Lando não teria tempo hábil para montar uma campanha majoritária competitiva. Aos 81 anos, uma campanha ao Senado exigiria estrutura, tempo e recursos — três elementos que o MDB de Rondônia não tem em abundância neste momento. Além disso, Lando defendeu publicamente que o MDB mantenha neutralidade na eleição presidencial de 2026, em vez de se alinhar a Lula — posição que o coloca em contraponto à estratégia da direção nacional da legenda, que integra a base do governo federal.

Em 26 de julho, durante a convenção do MDB que oficializou Pedro Abib ao governo e Confúcio ao Senado, houve forte tentativa de convencer Lando a aceitar a vaga de vice na chapa majoritária. Ele pediu tempo para pensar, mas não se sabe quando dará a resposta final.

Nos últimos dias, com a desistência de Confúcio, Lando voltou a ser citado como possível candidato ao Senado — uma “última ponte”, como definiu um articulista local, entre o MDB e a relevância política em Rondônia. A questão é: mesmo que aceite, haveria tempo para construir uma campanha competitiva? O prazo para registro de candidaturas se aproxima, e o eleitorado rondoniense já mostra preferência consolidada por outros nomes. Como resumiu um emedebista de alto coturno: “Caso Lando não aceite o desafio, o último que sair apague a luz.”

“O MDB de Rondônia construiu sua relevância em torno de uma única figura e não soube cultivar alternativas.”

O cenário eleitoral de Rondônia e o vácuo deixado pelo MDB

Rondônia é um dos estados onde o bolsonarismo mais se consolidou na região Norte. O senador Marcos Rogério (PL), aliado histórico de Jair Bolsonaro, lidera todas as pesquisas para governador — com 36% no primeiro turno e vantagem em todos os cenários de segundo turno testados. Sua rejeição, porém, é a maior do quadro: 43% dos entrevistados dizem que não votariam nele de jeito nenhum.

O PSD, com Adaílton Fúria, e o União Brasil, com Hildon Chaves, disputam o espaço de centro-direita. O PT, com Expedito Netto, mantém sua base histórica, embora também com alta rejeição (40%).

Nesse tabuleiro, o MDB tinha uma posição estratégica: era o único partido com governabilidade recente, capaz de dialogar tanto com o governo federal quanto com setores do agronegócio e da infraestrutura. A saída de Confúcio e a candidatura estagnada de Abib jogam essa posição no lixo. A legenda, que já havia perdido o governo do estado em 2018 para o coronel Marcos Rocha (PSD), agora arrisca-se a não eleger nem senador, nem governador, nem sequer manter uma bancada federal relevante.

O que o MDB nacional tem a ver com isso

A crise do MDB em Rondônia não é um caso isolado. É sintoma de um partido que, ao integrar a base de sustentação de Lula no Planalto, ganhou ministérios e influência em Brasília, mas perdeu identidade nos estados. O presidente nacional da legenda, Baleia Rossi (MDB-SP), tem defendido a aliança com o PT como estratégia para 2026 — mas nos estados onde o bolsonarismo é forte, como Rondônia, essa posição enfraquece os quadros locais.

Confúcio Moura, ao manter diálogo com o governo federal e ao mesmo tempo tentar preservar a autonomia do MDB em Rondônia, estava numa corda bamba. Sua desistência pode ser lida, em parte, como uma admissão de que a tensão entre a agenda nacional do partido e a realidade eleitoral local se tornou insustentável. Sem ele, o MDB em Rondônia fica à deriva — dependendo de um veterano de 81 anos que não quer voltar, ou de um candidato a governador que 99% dos eleitores ainda não conhecem e que nunca disputou uma eleição.

A história do MDB em Rondônia é, em certo sentido, a história do próprio MDB no Brasil: um partido que sobreviveu à ditadura, à redemocratização, ao mensalão, ao impeachment de Dilma e à ascensão de Bolsonaro, mas que nunca resolveu uma questão central — para que existe, além de ocupar espaço? Em Rondônia, essa pergunta ganha contornos concretos: sem Confúcio, sem Amir Lando disposto a assumir o protagonismo e sem um candidato a governador competitivo, a legenda arrisca-se a ser irrelevante em 2026.

E a irrelevância tem preço. O Senado que será eleito em outubro terá papel decisivo em pautas como a reforma tributária, as regras fiscais e as indicações ao STF. Se o MDB de Rondônia não eleger ninguém, perderá não apenas um mandato — perderá uma cadeira em uma das mesas mais importantes do país. A pergunta que fica é: o MDB nacional, tão ocupado em administrar sua posição no governo federal, está olhando para o que acontece em seus quintais? Ou Rondônia será apenas mais um estado onde a legenda aprende, da pior maneira, que governar de Brasília não é o mesmo que ganhar eleições no interior?

Versão em áudio disponível no topo do post.

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