Sem projetos, candidatos usam ataques pessoais para engajar o eleitor

Por Thiago Gonçalves, do ATUAL
MANAUS – Ataques, escândalos e discursos de ódio tomaram o lugar das propostas nas eleições brasileiras. É o que afirmam três cientistas políticos ouvidos pelo ATUAL. Para eles, enquanto candidatos não tiverem projetos concretos e o eleitor continuar reagindo pela emoção, esse quadro não vai mudar.
“À medida que a política se torna cada vez mais baseada em ataques, o engajamento político do eleitor é limitado”, afirma Paulo Niccoli Ramirez, cientista político e professor da Fesp-SP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo). Segundo ele, temas relevantes para o desenvolvimento do país e a redução das desigualdades saem de cena. O que entra no lugar são as pautas morais. “Os focos acabam sendo Deus, pátria, família”.
Conforme o professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) Welton Oda, há uma espécie de cinismo que une eleitor e candidato. “O eleitor brasileiro é pouco exigente e quer ver suas demandas imediatas resolvidas. Asfaltamento, dinheiro, telhas, óculos, dentaduras no período eleitoral”, cita Oda.
Os planos de governo apresentados ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), exigência legal para o registro de candidatura, são vistos por Welton Oda como mera formalidade. “Prometem, não se cumpre, ninguém cobra e fica por isso mesmo”.
De acordo com Afrânio Soares, também cientista político, os projetos costumam ser elaborados por consultores com “o esqueleto” mais ou menos pronto e não atraem a atenção do eleitor. Segundo ele, parte do eleitorado tem instrução limitada para entender um plano de governo. Outra parte entende, mas desistiu de exigir a efetivação prática porque se decepcionou e porque não existe mecanismo de cobrança real. “O candidato ganhador não vai sofrer um impeachment se não cumprir o projeto”, cita.

Por que os ataques pessoais funcionam melhor que as ideias de políticas públicas? Para Afrânio Soares, a lógica é simples: as críticas e acusações reforçam o argumento do eleitor ideologicamente posicionado. “Isso desperta mais interesse no eleitorado do que os projetos, as propostas”, diz. “Na medida em que existem as trocas de acusações, isso reforça o argumento do eleitor para se colocar perante os seus diferentes”.
Segundo Paulo Ramirez, o conceito de pós-verdade ajuda a explicar o fenômeno. O dicionário Oxford de Filosofia define o termo como o momento em que fatos objetivos “se tornam menos relevantes do que opiniões pessoais e sentimentos”. “Um desvio do foco do eleitor através de temas bombásticos, nem sempre verdadeiros, na maioria das vezes, o resultado disso é um enfraquecimento da própria democracia”, afirma.
Para Oda, parte do eleitorado vive uma paralisia cognitiva. “Atualmente, parcela do eleitorado está ligada em pautas morais e sofrendo de dissonância cognitiva que é incapaz de pensar por si, percebendo a realidade pelos olhos de um pastor, de um padre, de uma liderança de extrema-direita”.
Um exemplo emblemático, segundo ele, é a questão da violência urbana. O eleitor acredita que eleger um “delegado tal” ou “coronel tal” resolve o problema e só muda de ideia quando alguém próximo é vítima.
Conforme os três especialistas, para a extrema-direita a ausência de propostas não é um acidente: é uma escolha. “Não havendo propostas políticas econômicas muito elaboradas, o que resta é apelar para as emoções do eleitor”, diz Ramirez.
Essa dinâmica, porém, contamina até quem teria projetos reais porque boa parte do eleitorado, de acordo com ele, “se habituou apenas a contar com escândalos e discursos de ódio”.
De acordo com Afrânio Soares, a polarização criou dois blocos que simplesmente não se ouvem. “Se a pessoa de direita opta pelo bolsonarismo, ela só vai conseguir ver qualidades no bolsonarismo e defeitos no lulismo. Não quer debater, não quer ouvir o contraponto”, afirma.
O mesmo vale para o outro lado. O efeito prático, para Afrânio, é uma segregação que invade famílias. “Você vê famílias brigando por causa de posicionamento político”.
Para Welton Oda, a comparação entre os dois eleitorados exige distinção. O eleitor do PT seria “com frequência mais crítico”, enquanto o eleitor bolsonarista estaria, em muitos casos, “fanatizado”.
Mas o antibolsonarismo como bandeira eleitoral tem rendimentos decrescentes: pode energizar a base lulista, mas afasta a direita moderada que também não aguenta mais ouvir o nome de Bolsonaro.
Segundo Paulo Ramirez, enquanto ataques gerarem mais cliques, votos e visibilidade do que planos de governo, a lógica vai se repetir eleição após eleição. “A tendência é que as propostas e projetos para políticas públicas fiquem em segundo plano, e o que predomine sejam esses ataques recíprocos”.
Na prática, lucra-se com a emoção do eleitor, que é excluído ou tratado com menor importância, das ações públicas de grupos políticos com interesses privados.
