Site ligado ao PT pode ter recebido uma boa grana do Vorcaro, PF investiga o caso
Paulo Moura

A Polícia Federal (PF) apura a suspeita de que o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teria autorizado repasses financeiros com a finalidade de influenciar a cobertura de um veículo de comunicação de viés de esquerda e de profissionais ligados a ele. A hipótese é de que os pagamentos buscariam evitar reportagens negativas e estimular publicações favoráveis ao banqueiro.

A suspeita aparece em mensagens trocadas entre Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de Sicário, reproduzidas na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a prisão tanto do empresário quanto de Mourão nesta quarta-feira (4).
Leia também1 Gleisi diz que deixará a Secretaria de Relações Institucionais
2 Homem é agredido e preso após assediar mulher em trem de SP
3 Ao ordenar prisão de Vorcaro, Mendonça citou ameaça a vidas
4 Vorcaro pagava R$ 1 milhão por mês para núcleo de intimidação
5 “Cuba passa fome porque não querem que tenha o que deveria”
Em um dos trechos citados na decisão, Mourão explica como dividiria cerca de R$ 1 milhão mensais que, segundo ele, recebia para atuar em favor de Vorcaro. Na conversa, ele menciona o repasse de valores a integrantes de uma “turma”, incluindo a sigla “DCM” e dois editores. A mensagem é anterior à primeira prisão do banqueiro, ocorrida em novembro.

Investigadores ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo afirmaram que a sigla seria uma referência ao site Diário do Centro do Mundo, publicação de linha editorial de esquerda e alinhada ao governo Lula. O veículo, no entanto, divulgou nota negando qualquer vínculo com os fatos investigados.
No comunicado, o veículo diz que a decisão apenas cita a sigla “DCM”, sem identificar formalmente o site, sua razão social ou integrantes da equipe. O portal afirmou não ter recebido recursos ou qualquer tipo de benefício das pessoas investigadas e declarou que tem publicado conteúdos críticos a Vorcaro. Para o veículo, não faria sentido que alguém financiasse um meio de comunicação que atua como seu crítico.
– No documento judicial, há a transcrição de uma conversa privada em que aparece a sigla “DCM”. Em nenhum momento a decisão identifica essa sigla como sendo o Diário do Centro do Mundo, tampouco menciona o nome do veículo, sua razão social (NN&A Produções Artísticas Ltda.) ou qualquer integrante de sua equipe – diz a nota.
A defesa de Daniel Vorcaro declarou que o empresário sempre colaborou com as autoridades e negou qualquer tentativa de obstruir investigações ou interferir na atuação da Justiça.
Vorcaro falou em “dar um pau” e “quebrar os dentes” de jornalista
Informação consta em decisão do ministro André Mendonça na qual foi ordenada prisão do banqueiro
Paulo Moura

Ao decretar a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), apontou indícios de que o empresário teria avalizado um plano para simular um assalto com o objetivo de agredir o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Segundo a decisão, a intenção seria desencorajar publicações contrárias aos interesses do banqueiro.

A conclusão do ministro foi embasada em mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal. Os diálogos estavam em um grupo de WhatsApp chamado A Turma. Nas conversas, o banqueiro teria sugerido que o jornalista fosse seguido e, em determinado momento, mencionou a ideia de “dar um pau nele” e “quebrar todos os dentes” durante um suposto assalto.
Leia também1 Unirio suspende por 120 dias aluno acusado de estupro coletivo
2 PF deflagra terceira fase da Operação Compliance Zero
3 Bate-boca marca aprovação de honraria a Ludmilla em Niterói
4 Subsecretário é exonerado após filho ser acusado de estupro
5 Líder militar dos EUA afirma que ação no Irã “acabou de começar”
MOURÃO: Esse Lauro Jardim bate cartão todo domingo? hrs hein Lanço uma nova sua? Positiva.
DV [Daniel Vorcaro]: Sim
MOURÃO: Cara escroto.
DV [Daniel Vorcaro]: Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele.
MOURÃO: Vou fazer isto.
(…)
DV [Daniel Vorcaro]: Esse lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto.
De acordo com a investigação, o Mourão que aparece na conversa – e que seria o responsável por mandar executar a ação – seria Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. A PF sustenta que ele atuaria na coordenação de atividades de monitoramento e coleta de informações sobre pessoas relacionadas a apurações ou críticas ao Banco Master.
Na decisão, o ministro optou por preservar o nome do jornalista, mas o Pleno.News conseguiu confirmar que o comunicador citado na conversa era, de fato, Lauro Jardim. Ainda segundo os investigadores, Mourão teria acessado ilegalmente sistemas restritos de órgãos públicos como a Polícia Federal e o Ministério Público Federal usando credenciais de terceiros.
Na decisão, Mendonça também mencionou que o grupo teria tentado remover conteúdos da internet por meio de expedientes fraudulentos, enviando comunicações que imitavam solicitações oficiais de autoridades.
O grupo A Turma, conforme a PF, reunia pessoas com diferentes funções, incluindo um ex-diretor do Banco Central, um ex-chefe de departamento da instituição, um policial civil aposentado e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. A suspeita é de que Mourão coordenasse as ações operacionais e repassasse determinações atribuídas ao banqueiro.
As investigações também apontam indícios de repasses financeiros mensais a Mourão, que poderiam chegar a cerca de R$ 1 milhão, valores que, segundo a apuração, seriam intermediados por Zettel e divididos entre integrantes da estrutura.
Em nota, o jornal O Globo afirmou repudiar “veementemente” a iniciativa criminosa contra o colunista e declarou que tentativas de silenciar a imprensa atentam contra “um pilar fundamental da democracia”. O jornal também afirmou que continuará acompanhando o caso e divulgando informações de interesse público.
