Temporais expõem fragilidade das redes elétricas; interrupções por queimadas mais que triplicaram em cinco anos

Publicado em: 17/09/2026 16:58
Foto de: Miguel Á. Padriñán/Pexels – Um levantamento da ABRADEE, com dados da ANEEL, mostra que as interrupções de energia provocadas por queimadas mais que triplicaram em cinco anos, saltando de 24,9 mil em 2020 para 85,6 mil em 2025. Ao mesmo tempo, o setor tem um compromisso de R$ 130 bilhões em investimentos até 2030 para modernização e expansão das redes de distribuição.

Os temporais que atingiram o Brasil nos últimos dias voltaram a expor a vulnerabilidade da infraestrutura elétrica diante dos eventos climáticos extremos. Em 11 de setembro, uma forte ventania deixou cerca de 127 mil imóveis sem energia na Grande São Paulo. Já no Paraná, quase 12 mil clientes permaneciam sem luz no Vale do Ribeira em 14 de setembro, após chuvas que provocaram quedas de árvores, danos a equipamentos e dificuldades para o restabelecimento do serviço. Os episódios reforçam uma discussão que ganha cada vez mais espaço no setor elétrico: como preparar as redes brasileiras para resistir a tempestades, vendavais, ciclones e outros fenômenos capazes de comprometer o fornecimento de energia.

Para Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit, o desafio não está mais apenas em responder rapidamente aos eventos extremos, mas em antecipar seus impactos e incorporar o risco climático ao planejamento da infraestrutura. “Os eventos extremos estão deixando de ser exceções para se tornar uma variável que precisa estar incorporada ao planejamento energético. Quando uma tempestade derruba estruturas, uma onda de calor eleva a demanda ou uma queimada ameaça uma linha de transmissão, o problema não é apenas recuperar o sistema depois. É entender o risco antes, preparar os ativos e investir em uma infraestrutura capaz de absorver esses choques”, afirma.

A necessidade de adaptação já aparece no cotidiano das operações das concessionárias de energia elétrica. Levantamento da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (ABRADEE), elaborado com informações da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), mostra que as interrupções no fornecimento provocadas por queimadas mais que triplicaram em cinco anos, passando de 24.994 ocorrências em 2020 para 85.674 em 2025, alta de 242,8%.

O avanço dos extremos climáticos também amplia a pressão sobre a demanda, o planejamento e a resiliência do sistema. Estudo recente da i4sea, empresa de inteligência climática aplicada à gestão de riscos para empresas, por exemplo, projeta que o Brasil poderá passar dos atuais 6 para até 127 dias de calor extremo por ano até 2075, reforçando a necessidade de considerar a variável climática nas decisões de infraestrutura e operação.

Ao mesmo tempo, o setor já entra em um novo ciclo de investimentos. Em maio deste ano, o governo federal anunciou como contrapartida do processo de renovação das concessões um compromisso de investimento de R$ 130 bilhões até 2030 para modernização e expansão da distribuição de energia elétrica, contemplando 16 distribuidoras em 13 estados. O volume reforça a dimensão da transformação necessária nas redes brasileiras, mas também abre espaço para discutir quanto desses investimentos precisa estar associado à resiliência diante dos eventos extremos.

Para o Energy Summit, no entanto, a discussão precisa avançar além da expansão física da infraestrutura. Automação, monitoramento preditivo, sensores, inteligência artificial, armazenamento de energia e integração de dados meteorológicos podem permitir que distribuidoras e transmissoras identifiquem áreas de maior risco, antecipem falhas e reduzam o impacto dos eventos extremos sobre a operação.

“O Brasil já está investindo na modernização da sua infraestrutura energética, mas o novo desafio é garantir que esses investimentos sejam direcionados para uma rede preparada para o clima que teremos pela frente. Resiliência precisa deixar de ser uma resposta emergencial e passar a ser um critério de planejamento, investimento e operação”, comenta Mendonça.

A discussão sobre como adaptar transmissão e distribuição, antecipar riscos climáticos e direcionar investimentos para uma infraestrutura mais inteligente e resiliente ganha espaço nas pautas do Energy Summit, ampliando o debate sobre segurança energética e mostrando que a questão climática já não é apenas ambiental: é também uma questão de infraestrutura, competitividade e continuidade do fornecimento de energia.

Sobre o Energy Summit

Organizado em parceria com o MIT (Massachusetts Institute of Technology), o Energy Summit Global se consolidou como  o principal evento de inovação e empreendedorismo em energia e sustentabilidade do mundo, que acontece anualmente no Rio de Janeiro e segue para sua 4ª edição em 2027. Conecta os maiores nomes da transformação energética e sustentabilidade do Brasil e do Mundo, incluindo C-levels de grandes empresas e deep techs, autoridades governamentais, palestrantes internacionais, reitores de universidades e centros de pesquisa, empreendedores e capital de risco, que juntos lideram debates essenciais para acelerar os caminhos para o futuro da energia.

Via Thiago Tertuliano

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