Vorcaro pagou suítes em Lisboa para Hugo Motta e Ciro Nogueira, diz PF

Publicado em: 16/06/2026 16:49
Ciro Nogueira e Hugo Motta

O ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, bancou a hospedagem do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do senador Ciro Nogueira (PP-PI) em Lisboa no fim de junho de 2024, segundo material apreendido pela Polícia Federal.

De acordo com a PF, Vorcaro também pediu a um auxiliar reforço na privacidade dos hóspedes. A viagem ocorreu em período de eventos na capital portuguesa, entre eles o Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza por ter o ministro Gilmar Mendes, do STF, entre seus organizadores.

No dia 18 de junho, Vorcaro informou a um auxiliar que precisaria de reservas em Lisboa entre os dias 24 e 30. A solicitação incluía quartos para ele e mais dois apartamentos identificados como destinados a “Ciro e Hugo”.

As reservas ocorreram no hotel Four Seasons. Procurados pela reportagem por meio da assessoria via WhatsApp às 13h30, Hugo Motta e Ciro Nogueira ainda não tinham se manifestado até a publicação da apuração.

Áudio indica preocupação com segurança e privacidade

Na análise do material, a PF afirmou que Vorcaro demonstrou “acentuada preocupação com a privacidade do evento, ressaltando, inclusive, a necessidade de privatização do espaço localizado em frente ao local, a fim de impedir qualquer visualização do que ocorresse em seu interior”.

Em áudio citado na investigação, Vorcaro cobrou atenção ao controle de acesso. “Preciso muito que você dê uma atenção na questão de segurança. Cidade está lotada, eu tive lá no lugar agora. Tive uma reunião lá no clube. Tem que ter certeza que o lugar em frente ao restaurante também esteja privatizado porque senão dá pra ver tudo lá dentro”, disse.

Na sequência, o dono do Banco Master reforçou a ordem sobre a lista de entrada. “Pode ser o papa que não pode entrar ninguém que não esteja na lista.”

Em maio, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços de Ciro Nogueira, presidente do PP, em uma fase da Operação Compliance Zero. O senador foi ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro (PL).

Entre as suspeitas investigadas pela PF estava a de que Ciro recebia quantias repassadas por Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro. A apuração também mencionou possível pagamento de despesas pessoais do parlamentar, como viagens de jatinho.

Segundo a investigação, Felipe teria feito uma parceria “ligada aos pagamentos mensais em favor do senador, correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil”. Felipe está preso, e o STF analisa se ele deve continuar detido ou ficar livre com medidas cautelares. À época da operação, Ciro negou ter cometido qualquer irregularidade.

Vorcaro pagou viagens de Ciro Nogueira a Paris, Lisboa e Nova York, diz PF

O banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira. Foto: Divulgação

A Polícia Federal apontou que o banqueiro Daniel Vorcaro mantinha uma relação considerada estratégica com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), supostamente voltada ao atendimento de interesses do Banco Master junto ao Congresso Nacional.

A conclusão consta de relatório incorporado ao inquérito que apura suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo os dois no Supremo Tribunal Federal (STF). O sigilo do processo foi retirado nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça, permitindo o acesso a detalhes das investigações.

Entre os documentos reunidos pela PF estão fotografias de viagens internacionais em que Vorcaro e Ciro aparecem juntos. As imagens foram incluídas pelos investigadores como parte do conjunto de elementos analisados no caso. No relatório, a Polícia Federal sustenta que a proximidade entre o banqueiro e o senador ultrapassava os limites de uma amizade comum.

“Tal vínculo de amizade transcende a mera relação pessoal, revelando-se, na verdade, uma relação funcional e instrumental, estruturada a partir da convergência de interesses ilícitos e orientada pelo benefício mútuo extraído por cada um dos envolvidos”, escreveu a Polícia Federal.

Segundo os investigadores, o parlamentar teria recebido diferentes benefícios financeiros atribuídos ao empresário. Entre eles estão a aquisição de participação societária por valor considerado inferior ao de mercado, repasses mensais de R$ 300 mil, utilização de um imóvel pertencente a Vorcaro e o custeio de despesas em viagens ao exterior.

Daniel Vorcaro aparece em nova foto com Ciro Nogueira. Foto: Reprodução

A PF afirma que essas viagens incluíam gastos com hospedagem, alimentação em restaurantes de alto padrão e deslocamentos em voos privados. Fotografias anexadas ao inquérito mostram Vorcaro e Ciro Nogueira em encontros, jantares e viagens internacionais realizadas ao longo do período investigado.

De acordo com o relatório, uma das despesas atribuídas ao banqueiro envolve a estadia de Ciro no Park Hyatt New York, hotel de luxo localizado em Nova York, além de pagamentos relacionados a restaurantes e outros gastos vinculados ao senador e à sua acompanhante.

Os investigadores também registraram a suposta disponibilização de um cartão destinado à cobertura de despesas pessoais. A investigação identificou ainda mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e uma pessoa responsável por intermediar pagamentos.

O diálogo foi incluído pela Polícia Federal como um dos indícios analisados no inquérito em tramitação no STF. Em uma das conversas, o interlocutor questiona se os pagamentos referentes às despesas do senadir deveriam continuar sendo realizados.

“Só uma pergunta rápida… eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até sábado?”, diz o interlocutor. Vorcaro, então, responde: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”.

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