Professor que perdeu a visão aos 17 anos transforma dor em missão e lidera referência em braille no Amazonas

Publicado em: 11/04/2026 18:40
Professor que perdeu a visão aos 17 anos transforma dor em missão e lidera referência em braille no Amazonas
Foto: Divulgação

Após perder a visão de forma repentina na adolescência, professor Gilson supera desafios, constrói carreira e hoje comanda uma das maiores bibliotecas braille do Brasil.

O professor Gilson Mauro Pereira, hoje com 63 anos, é o responsável pela condução da Biblioteca Braille do Amazonas, um dos principais centros de acessibilidade e inclusão para pessoas com deficiência visual no país. À frente do espaço há 25 anos, ele transformou uma perda repentina de visão em uma trajetória marcada por superação, educação e defesa da acessibilidade.

 

A história de Gilson começou de forma inesperada em 1º de outubro de 1979, quando ele tinha apenas 17 anos. Na época, o jovem acordou no dia do próprio aniversário percebendo alterações bruscas na visão. O que parecia algo passageiro rapidamente se tornou um problema grave.

 

“Fui dormir normal e acordei vendo tudo verde. Achei que tinham trocado as lâmpadas, depois comecei a perceber que algo estava errado”, relembra. Após uma sequência de exames, consultas e mais de 15 cirurgias, veio o diagnóstico definitivo: descolamento de retina nos dois olhos, condição que resultaria na perda total da visão.

 

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Segundo Gilson, o momento mais difícil foi receber a confirmação de que a perda seria permanente. Após peregrinar por médicos em busca de uma solução, ouviu de um especialista que não voltaria a enxergar. “Doeu, mas foi quando parei de criar falsas expectativas e tive que reaprender a viver”, conta.

 

A partir desse ponto, iniciou um processo de reabilitação em São Paulo, onde retomou os estudos e teve contato com o Sistema Braille. Foi nesse período que encontrou uma nova forma de se relacionar com o conhecimento e com o mundo.

 

Professor Gilson Mauro Pereira, gestor da Biblioteca Braille do Amazonas, perdeu a visão aos 17 anos.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 

“É como enxergar com as mãos. Quando leio em braille, consigo descobrir tudo aquilo que não posso ver”, explica. Ele conta que aprendeu o sistema de forma autodidata, decorando os pontos e praticando diariamente até dominar a leitura e a escrita tátil.

 

Com o tempo, Gilson voltou à formação acadêmica e construiu uma carreira sólida na área da educação e acessibilidade. Hoje, ele dirige a Biblioteca Braille do Amazonas, localizada no Sambódromo, em Manaus, espaço que se tornou referência nacional em inclusão.

 

Painel de texturas permite a identificação de materiais por meio do tato, contribuindo para o processo educativo.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 

A unidade conta com aproximadamente 47 mil títulos em braille, áudio e formatos digitais, além de serviços de transcrição, produção de materiais acessíveis e cursos voltados a pessoas com deficiência visual. “Somos a terceira maior biblioteca braille do Brasil. Aqui é um espaço de autonomia e acesso ao conhecimento”, destaca.

 

Ao lado dele, a esposa Sandra Amazonas, de 56 anos, também desempenha papel fundamental na história. Ela atua com audiodescrição e acompanha Gilson há quase 40 anos. O trabalho começou de forma intuitiva, ainda na época da faculdade, quando ela descrevia conteúdos para ajudá-lo nos estudos.

 

Estúdio é utilizado para produção de conteúdos acessíveis, como audiolivros e materiais com audiodescrição.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 

“Eu nem sabia que isso era audiodescrição, mas já fazia naturalmente”, conta Sandra, que hoje já realizou mais de 400 apresentações no Teatro Amazonas. Para ela, o recurso vai muito além da descrição visual: é uma forma de ampliar a experiência cultural de pessoas com deficiência.

 

Apesar dos avanços, o casal ressalta que ainda há muitos desafios em relação à acessibilidade, especialmente nas ruas e espaços públicos de Manaus. Calçadas irregulares, falta de sinalização e barreiras urbanas ainda dificultam a autonomia de pessoas cegas.

 

Ricardo Alves perdeu a visão aos 52 anos e encontrou na biblioteca novas formas de aprendizado, como a música.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 

“A acessibilidade não é favor, é direito. O espaço precisa se adaptar à pessoa, não o contrário”, afirma Gilson.

 

Na biblioteca, histórias como a dele se repetem diariamente. Usuários como Ricardo Alves, Raimundo Nonato e Anastácio relatam como o espaço se tornou fundamental na reconstrução de suas vidas após a perda da visão, oferecendo não apenas aprendizado, mas também socialização e independência.

 

Raimundo Nonato ficou cego após um AVC e utiliza a biblioteca como espaço de reabilitação e adaptação.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 

Celebrado em 8 de abril, o Dia Nacional do Sistema Braille reforça a importância do método como ferramenta de inclusão. Para Gilson, o sistema vai muito além de um código de leitura.

 

Frequentadores da Biblioteca Braille utilizam o espaço para leitura, convivência e atividades de inclusão.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

Foto: Reprodução

 

“Sem o braille, a gente fica isolado do conhecimento. Ele não envelheceu, ele continua vivo e essencial para a nossa autonomia”, afirma.

 

 

 

A Biblioteca Braille do Amazonas funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e atende cerca de 1,8 mil pessoas por ano, oferecendo acesso gratuito a serviços educacionais, culturais e de reabilitação.

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