A esquerda reage em Rondônia: a direita segue avassaladora nas urnas, mas já não domina sozinha a internet

Publicado em: 07/11/2026 12:11
Rondoniadinamica.com
PORTO VELHO, RO – A direita venceu mais uma vez em Rondônia. E venceu com uma margem que não deixa dúvidas sobre sua predominância eleitoral. Nas eleições de 2026, Flávio Bolsonaro superou Lula nos 52 municípios rondonienses, tanto no primeiro quanto no segundo turno, apesar da vitória nacional do petista. Marcos Rogério, do PL, conquistou o Governo do Estado ainda na primeira etapa da votação, enquanto seu partido elegeu sete deputados estaduais. O resultado consolidou uma força política construída ao longo de sucessivas eleições, especialmente desde a ascensão do bolsonarismo em 2018. Entretanto, há uma mudança em andamento que os números das urnas, por si só, não revelam: a esquerda rondoniense voltou a disputar espaços que, nos últimos anos, foram ocupados predominantemente por políticos, militantes e influenciadores da direita.

O fenômeno merece atenção justamente porque não se confunde com uma recuperação eleitoral. A vantagem conservadora continua expressiva. O que começou a ganhar contornos diferentes durante a campanha de 2026 foi a disposição de setores progressistas para ocupar as ruas, produzir conteúdo, confrontar argumentos e participar de discussões que antes encontravam pouca resistência organizada no ambiente digital.

A presença da direita na política estadual tem raízes profundas. Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad em 2018 e impulsionou lideranças como o deputado federal Coronel Chrisóstomo. Em 2022, Jaime Bagattoli conquistou uma cadeira no Senado. Quatro anos depois, Fernando Máximo e Bruno Scheid foram eleitos para as outras duas vagas da representação rondoniense na Casa. O avanço conservador também se manifesta na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, com nomes como Lúcio Mosquini e Sofia Andrade compondo esse cenário de força eleitoral.

A própria vitória de Marcos Rogério ajuda a dimensionar esse ambiente. Depois da disputa de 2022 contra Marcos Rocha, o senador retornou à corrida pelo Governo do Estado em 2026 com uma postura percebida como menos confrontadora e mais aglutinadora. Venceu no primeiro turno. A mudança de apresentação política não pode ser isoladamente apontada como causa do resultado, mas integra o contraste entre duas campanhas realizadas em circunstâncias diferentes.

Do outro lado, a esquerda também conquistou representação na Assembleia Legislativa, com Cláudia de Jesus e Fátima Cleide, ex-senadora que alcançou seu primeiro mandato de deputada estadual. Ainda assim, é fora das instituições parlamentares que aparece um dos aspectos mais interessantes dessa movimentação.

Fátima Cleide e Cláudia de Jesus, eleitas para a Assembleia Legislativa de Rondônia, representam o campo progressista no Parlamento estadual.

Nas redes sociais, perfis ligados ao campo progressista vêm participando mais diretamente do confronto cotidiano de narrativas. O Instagram do PT Rondônia, @rondoniapt, reúne aproximadamente 34,5 mil seguidores. A página @juventuderondonia soma 12,2 mil e combina publicações sobre direitos, educação e fiscalização com registros de mobilização. Já Lucas Maximus, do perfil @lucasmaximuss, possui 9.060 seguidores e produz vídeos de comentários políticos, inclusive sobre o bolsonarismo e assuntos tradicionalmente explorados por comunicadores da direita.

Não se trata apenas de reproduzir discursos partidários. O movimento observado inclui conteúdos de reação, comentários sobre declarações adversárias, críticas à atuação de agentes públicos e manifestações sobre acontecimentos da política local e nacional. Essa variedade é importante porque a disputa pela atenção do público não se limita aos canais oficiais das legendas.

Um exemplo dessa atuação é a jornalista Luciana Oliveira, identificada com o campo progressista e uma das figuras veteranas desse segmento na comunicação digital rondoniense. Candidata ao Senado pelo PT em 2026, com votação superior a 96 mil votos conforme as informações apresentadas, Luciana manteve presença ativa na campanha, participou de manifestações e utilizou suas plataformas para críticas, convocações e posicionamentos políticos. Seu perfil, @lucianaoliveiradepvh, reúne aproximadamente 42,8 mil seguidores. Sua trajetória demonstra como a participação política pode transitar entre militância, produção de conteúdo e disputa eleitoral, sem ficar restrita ao funcionamento das estruturas partidárias. No caso de Luciana Oliveira, a influência digital ultrapassa o número de seguidores: entre 4 e 25 de outubro de 2026, período que compreendeu os dois turnos das eleições, seu perfil no Instagram acumulou 9.633.232 visualizações, mais de 1,27 milhão de interações e um saldo positivo de 15.887 seguidores, números que dimensionam a repercussão de sua atuação nas redes durante a disputa eleitoral.

Alisson Sandubas, comunicador identificado com a direita, reúne cerca de 146 mil seguidores no Instagram.

Entre os comunicadores identificados com a direita, Alisson Sandubas, @alissonsandubas, soma cerca de 146 mil seguidores no Instagram. O perfil @divadointerior, também associado ao campo conservador, reúne aproximadamente 106 mil. No quesito seguidores, são audiências individuais ainda superiores às dos exemplos progressistas apresentados e ilustram a vantagem numérica de importantes vozes da direita nesse recorte.

É necessário, porém, distinguir seguidores de influência efetiva. Os números representam registros de um determinado momento, não demonstram quantas pessoas acompanham regularmente as publicações, quantas concordam com elas ou qual foi o crescimento de cada página durante as eleições. Tampouco permitem medir a correlação de forças de toda a internet rondoniense. O que mostram é a coexistência de estruturas digitais de dimensões diferentes, agora envolvidas em uma disputa política mais visível.

Diva do Interior, perfil de opinião associado à direita, soma aproximadamente 106 mil seguidores no Instagram.

Essa distinção impede duas conclusões precipitadas. A primeira seria anunciar que a esquerda alcançou a direita em presença digital. Não alcançou, ao menos segundo os exemplos disponíveis. A segunda seria considerar que a expressiva votação conservadora tornou irrelevante a reorganização progressista. Uma vitória eleitoral não significa controle absoluto da discussão pública, assim como uma militância ativa nas redes não se converte automaticamente em votos.

Durante a campanha, as manifestações de rua e a participação de jovens ligados ao campo progressista acrescentaram outra dimensão a essa reação. A mobilização não permaneceu restrita a publicações institucionais. Houve participação em atos, circulação de mensagens e uma tentativa de transformar a presença digital em expressão pública. A articulação entre essas frentes ajuda a explicar por que a movimentação merece ser examinada para além dos resultados eleitorais.

A renovação dessa militância também encontrou expressão em nomes como Adah Maria e Mayra Mello, que ajudaram a conectar a mobilização digital às manifestações de rua. Adah, vinculada à Juventude Rondônia, utilizou as redes sociais para convocar estudantes e estimular a participação juvenil no debate político. Mayra, por sua vez, atuou de maneira autônoma, mobilizando seguidores para manifestações após Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro. Com aproximadamente 5,5 mil e 4,7 mil seguidores no Instagram, respectivamente, as duas representam uma dimensão importante dessa reorganização: a participação de jovens comunicadoras que não dependem de grandes audiências, mandatos ou estruturas partidárias tradicionais para convocar, organizar e dar visibilidade a manifestações políticas. São exemplos de uma esquerda que procura transformar posicionamentos publicados na internet em participação presencial. E, neste aspecto, é sintomático o engajamento feminino no contexto de insurreição da esquerda local.

O cenário, portanto, apresenta uma diferença importante em relação à imagem de uma esquerda local pouco presente no enfrentamento cotidiano ao bolsonarismo. Há sinais de uma disposição mais organizada para responder, comentar, contestar e produzir interpretações próprias dos acontecimentos. Ainda não existem indicadores históricos suficientes para quantificar essa mudança ou assegurar sua continuidade. Mas as iniciativas identificadas permitem reconhecer uma atuação progressista que não se resume aos mandatos conquistados ou às votações obtidas.

Fabrícia Lopes e a jornalista Luciana Oliveira: a participação feminina também integra a mobilização política retratada no editorial.

Também seria um equívoco confundir o aumento da confrontação com uma melhoria automática da qualidade do debate. Criatividade, velocidade de resposta e capacidade de mobilização podem ampliar a pluralidade, mas não substituem compromisso com fatos, responsabilidade pelas acusações e disposição para discutir problemas concretos de Rondônia. Esse critério precisa valer tanto para os influenciadores conservadores quanto para os progressistas.

A principal novidade política de 2026, nesse aspecto, talvez não esteja em quem venceu, mas em quem decidiu participar mais intensamente da conversa. A direita preservou sua força nas urnas e continua reunindo comunicadores com audiências expressivas. A esquerda, por sua vez, apresenta sinais de que não pretende manter a mesma postura atribuída aos anos anteriores, quando o debate digital parecia oferecer uma vantagem ainda mais confortável ao campo bolsonarista.

O desafio progressista agora é reduzir essa distância sem imaginar que ela desaparecerá apenas com mais publicações ou confrontos. A tentativa de equilibrar forças passa pela criatividade, pela construção de espaços próprios de comunicação, pela presença nos comentários e discussões e pela participação de pessoas e movimentos que não dependem necessariamente de candidaturas ou cargos partidários para atuar. A direita continua predominante em Rondônia. O que está em disputa é se essa predominância também continuará significando uma vantagem tão ampla na ocupação das redes sociais. A campanha de 2026 não resolveu essa questão, mas deixou sinais de que o ambiente digital rondoniense poderá ser menos unilateral do que aquele observado nos últimos anos.

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