Democratizar o monitoramento ambiental é garantir justiça no campo

Publicado em: 13/04/2026 23:23
José Renato da Costa Alberto, CEO e fundador da SpotSat, discute como pequenos e médios produtores podem ser prejudicados não por irregularidades, mas pela dificuldade em comprovar sua regularidade, enquanto grandes grupos já operam com estrutura técnica robusta. Ele também aponta caminhos para democratizar o acesso, como plataformas mais intuitivas, capacitação no campo e o papel de cooperativas e fintechs.

O avanço das tecnologias de monitoramento ambiental por satélite transformou profundamente a forma como o agronegócio brasileiro é observado, regulado e financiado. Ferramentas antes restritas a grandes instituições hoje permitem acompanhar, quase em tempo real, mudanças no uso da terra, desmatamento e conformidade ambiental. Esse movimento, impulsionado por iniciativas como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e sistemas como o PRODES, trouxe mais transparência ao setor. Mas também expôs uma nova desigualdade: o acesso, ou a falta dele, à capacidade de interpretar esses dados.

O agronegócio segue como um dos pilares da economia brasileira. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, o setor representou cerca de 23% do PIB nacional em 2024, movimentando mais de R$ 2,7 trilhões e gerando aproximadamente 28 milhões de empregos. Por trás desses números robustos, no entanto, está uma realidade heterogênea: cerca de 77% dos estabelecimentos rurais brasileiros pertencem à agricultura familiar, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, responsável por 67% da mão de obra no campo.

É justamente esse grupo, pequenos e médios produtores, que enfrenta maior dificuldade diante da crescente complexidade das exigências ambientais. A digitalização da fiscalização e do crédito rural, embora necessária e positiva do ponto de vista da governança, exige competências técnicas que nem sempre estão disponíveis no campo.

A recente Resolução CMN nº 5.268/2025 reforça esse cenário ao estabelecer novos critérios para a verificação de supressão de vegetação nativa na concessão de crédito. Na prática, isso significa que dados de sensoriamento remoto e análises geoespaciais passam a ter peso direto na aprovação de financiamentos. O problema não está na exigência em si, afinal, alinhar produção e sustentabilidade é um imperativo global, mas na desigualdade de condições para cumpri-la.

Grandes produtores e grupos empresariais já operam com equipes técnicas, softwares especializados e consultorias jurídicas capazes de traduzir imagens de satélite em relatórios de conformidade. Já pequenos produtores, muitas vezes, dependem de assistência técnica limitada ou inexistente. Sem acesso a ferramentas adequadas ou conhecimento para interpretá-las, esses produtores correm o risco de serem penalizados não por irregularidades, mas por incapacidade de comprovação.  Esse é o ponto central do debate: transparência sem acessibilidade pode aprofundar desigualdades. A tecnologia, quando não democratizada, deixa de ser instrumento de inclusão para se tornar mais uma barreira.

Por outro lado, o próprio avanço tecnológico oferece caminhos para reverter esse cenário. O desenvolvimento de plataformas mais intuitivas, com interfaces simplificadas e relatórios automatizados, pode reduzir a dependência de conhecimento altamente especializado. Além disso, políticas públicas e iniciativas privadas que promovam capacitação técnica no campo são fundamentais para garantir que produtores de todos os portes possam se adaptar a essa nova realidade.

Há também um papel importante para cooperativas, associações e fintechs do agro, que podem atuar como intermediárias no acesso a essas ferramentas. Ao oferecer soluções compartilhadas, essas organizações ajudam a diluir custos e ampliar o alcance da tecnologia.

A agenda ambiental no agronegócio é irreversível, e em muitos aspectos, desejável. O Brasil tem potencial para ser referência global em produção sustentável, mas isso só será possível se houver equilíbrio na forma como as regras são aplicadas. Democratizar o acesso à tecnologia de monitoramento não é apenas uma questão de eficiência, é uma questão de justiça.

Garantir que pequenos e médios produtores tenham as mesmas condições de comprovar sua regularidade ambiental que grandes players é essencial para evitar distorções e fortalecer todo o ecossistema agro. Afinal, sustentabilidade real não se constrói apenas com dados, mas com inclusão.

*José Renato Alberto é profissional com experiência em governança e transformação digital no agronegócio, reconhecido por liderar iniciativas estratégicas que conectam sustentabilidade, inovação e crédito ambiental. Ele se destaca por sua visão analítica e executiva, sendo capaz de traduzir métricas complexas em soluções práticas e escaláveis, especialmente no contexto de mercados emergentes como o de créditos de carbono.

Via Julia Dal

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