Garimpo ilegal de ouro avança no Brasil com uso de cianeto e laboratórios sofisticados
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O garimpo ilegal no Brasil entra em uma nova fase, com laboratórios clandestinos, químicos altamente tóxicos e organização criminosa cada vez mais sofisticada, ampliando riscos ambientais, sociais e à saúde humana.
No dia 13 de janeiro, um caminhão que seguia de Roraima a Boa Vista capotou na rodovia que liga a capital à fronteira com a Guiana, deixando um morto e dois feridos. O veículo transportava equipamentos de mineração e 500 kg de carvão ativado, usado no processo de lixiviação do ouro, que envolve cianeto substância altamente tóxica.
A Polícia Federal (PF) e o Ibama alertam que esse tipo de prática vem se expandindo nos últimos anos e já é encontrado em garimpos clandestinos em Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Maranhão e Roraima. De acordo com Roberto Reis Monteiro Neto, diretor técnico-científico da PF, o uso do cianeto representa uma evolução operacional do garimpo ilegal, com maior organização, insumos controlados, conhecimento técnico especializado e cadeias logísticas complexas.
O manuseio inadequado do cianeto pode transformá-lo em gás letal o mesmo químico usado por nazistas nas câmaras de gás do Holocausto e também como método de suicídio por membros do alto escalão de Hitler. No Brasil, o uso do cianeto é controlado pelo Exército, que regula a comercialização, mas não o manuseio ou descarte da substância.
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Entre 2018 e 2022, o garimpo ilegal se expandiu consideravelmente, impulsionando o desmatamento e contaminando rios com mercúrio. Com a alta do preço do mercúrio no mercado ilegal, os garimpeiros passaram a utilizar o cianeto, que oferece maior eficiência na extração de ouro até 90% do metal, contra 50% com mercúrio, segundo a PF.
Cada laboratório clandestino gera grandes volumes de rejeitos tóxicos e funciona sem equipamentos de proteção. A destinação segura desses resíduos é um desafio para autoridades ambientais e policiais. Em 2025, operações desarticularam laboratórios em áreas indígenas e cidades do Norte, mas o lixo químico permaneceu no local devido ao risco à saúde dos agentes.
Investigações revelam grandes laboratórios abastecendo múltiplos garimpos, com participação de políticos locais. Na Bahia, operações da PF entre 2022 e 2024 identificaram um esquema em Santa Luz e Cansanção, liderado por Rodrigo de Almeida Santos e Jeosafa Carneiro da Silva. Explosivos eram usados para extrair rochas ricas em ouro, processadas em piscinas com cianeto e carvão ativado, de onde o ouro era separado, transformado em barras ou joias e lavado em postos de gasolina.
A PF estima que parte do lucro da venda do ouro foi usada em campanhas eleitorais, como na eleição de 2024, quando Silva se candidatou a prefeito. Em outra operação, um garimpo de 1,2 milhão de m² no Maranhão teria produzido 138,9 toneladas de ouro, equivalentes a R$ 96,2 milhões, tudo por meio de lixiviação ilegal.
O Ministério Público descreve o fenômeno como uma estrutura criminosa sofisticada, que ultrapassa o garimpo artesanal e opera como mineração industrial ilegal, com impactos graves ao meio ambiente, à saúde e à sociedade local.




