Imposição de práticas ecológicas pode gerar efeito contrário, apontam especialistas

Publicado em: 19/01/2026 11:19

Um novo estudo revela um dilema para a política climática: as pessoas não gostam quando dizem a elas o que fazer

Combater as mudanças climáticas pode parecer particularmente difícil nos dias de hoje. Países, estados e municípios ao redor do mundo estão deixando de cumprir metas de redução de emissões de gases de efeito estufa e, nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump revogou elementos centrais da agenda climática de seu antecessor.

 

Diante dessa trajetória, pode ser tentador para formuladores de políticas pró-clima recorrerem a medidas mais agressivas para fazer com que as pessoas ajam, como normas, proibições ou restrições. Assim, as pessoas teriam de salvar o planeta.Mas um estudo publicado na semana passada na revista Nature Sustainability sugere que essa abordagem pode trazer riscos reais.

 

A pesquisa constatou que políticas climáticas voltadas a forçar mudanças de estilo de vida – como proibições à circulação de carros em centros urbanos – podem sair pela culatra ao enfraquecer valores pró-ambientais já existentes e provocar reações políticas contrárias, inclusive entre pessoas que já se preocupam com as mudanças climáticas. Os resultados indicam que a forma como a política climática é desenhada pode ser tão importante quanto o grau de agressividade adotado.

 

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“Medidas obrigatórias às vezes podem ajudar a superar um obstáculo e alcançar um ponto de inflexão, mas elas têm custos”, afirmou Sam Bowles, autor do artigo e economista do instituto sem fins lucrativos Santa Fe Institute. “Pode haver impactos negativos que as pessoas não antecipam.”

 

Por que forçar as pessoas a adotar práticas ecológicas pode sair pela  culatra - ((o))eco

Foto: Reprodução

 

Pesquisadores entrevistaram mais de 3.000 alemães e constataram que até mesmo pessoas que se preocupam com as mudanças climáticas reagiram de forma significativamente negativa a medidas obrigatórias ou proibições que, por exemplo, limitavam a temperatura de termostatos ou o consumo de carne, por perceberem essas ações como restrições às suas liberdades. O artigo também comparou essa reação com a resposta das pessoas a exigências relacionadas à COVID, como a obrigatoriedade de vacinas e do uso de máscaras. Embora os pesquisadores tenham identificado um efeito de reação adversa – ou “custo do controle” – em ambos os casos, ele foi 52% maior no caso das políticas climáticas do que nas políticas relacionadas à COVID.

 

 

 

“Não esperava que a oposição das pessoas a um estilo de vida imposto pelas mudanças climáticas fosse tão extrema”, disse Katrin Schmelz, a outra autora do estudo que também atua no Instituto Santa Fé. Ela afirmou que a confiança das pessoas em seus líderes pode mitigar o impacto negativo e observou que, em comparação com os Estados Unidos, os alemães têm um nível relativamente alto de confiança no governo. Isso, segundo ela, significa que “esperaria que as medidas impostas fossem menos aceitas e provocassem mais oposição aqui”.

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