Jorge Messias no STF: o jogo político que uniu dosimetria e Suprema Corte com manobra de Moraes

Publicado em: 01/05/2026 12:41

Jorge Messias no STF: o jogo político que uniu dosimetria e Suprema Corte com manobra de Moraes

Articulação envolvendo penas do 8 de Janeiro e indicação ao Supremo revela alianças improváveis e rearranjos de poder em Brasília

Jorge Messias no STF: o jogo político que uniu dosimetria e Suprema Corte com manobra de Moraes
📷 Brenno Carvalho / Agência O Globo
  • Davi Alcolumbre orquestrou articulação que conectou a dosimetria das penas do 8 de Janeiro à barragem da indicação de Jorge Messias ao STF
  • Alexandre de Moraes, historicamente aliado de Alcolumbre, recuou em resistência inicial para garantir concessões políticas estratégicas
  • O caso Banco Master alterou o equilíbrio de forças, fortalecendo André Mendonça como relator e enfraquecendo a posição de Messias
  • A votação revelou alianças improváveis e a percepção de fragilidade política de Lula junto ao centrão
  • Por que isso importa: o episódio reconfigura as relações entre Executivo, Legislativo e STF às vésperras do ciclo eleitoral de 2026

A derrota da indicação de Jorge Messias (ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo) ao Supremo Tribunal Federal não foi um acidente de percurso. Nos bastidores de Brasília, uma articulação conduzida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), conectou a revisão das penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro à barragem do nome cotado pelo Planalto. O movimento, que contou com a anuência estratégica do ministro Alexandre de Moraes, revela um rearranjo de poder com implicações diretas para o equilíbrio entre os Três Poderes.

A confiança que move os bastidores

A relação entre Davi Alcolumbre e Alexandre de Moraes não é circunstancial. Os dois, junto ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), cultivam amizade de longa data, com jantares frequentes e intimidade que transcende o protocolo institucional. Essa proximidade foi a base sobre a qual se construiu a operação que culminou na derrota de Messias.

“Era hora de barrar. Mas, para barrar, era preciso que a redução das penas passasse em troca de duas coisas: o enterro da CPI do Banco Master e a dosimetria.

Alcolumbre jamais promoveria um alívio nas penas dos condenados do 8 de janeiro sem consultar o relator do caso. Essa premissa é fundamental para compreender a lógica do movimento. Até pouco tempo atrás, evitar a redução das penas era ponto de honra para o relator. Aprovar a dosimetria, portanto, significaria enfraquecê-lo politicamente — a menos que houvesse uma contrapartida à altura.

O fator Banco Master na equação

O escândalo envolvendo o Banco Master funcionou como catalisador da mudança de cenário. A exposição midiática e as investigações em curso aumentaram a vulnerabilidade política de Alexandre de Moraes, especialmente após seu antagonista, André Mendonça, ser alçado à condição de relator do caso.

Nesse contexto, levar Messias ao Supremo deixava de ser apenas uma indicação presidencial e passava a representar uma possibilidade de fortalecimento daquele que poderia esclarecer as circunstâncias do contrato da esposa do ministro. Mendonça, vale registrar, foi um dos padrinhos de Messias no STF e recebeu o ex-ministro em sua residência na noite da derrota eleitoral de 2022, quando aliados se reuniram para “juntar os cacos e contabilizar as traições”.

A resistência de Moraes ao nome de Messias, contudo, é anterior ao escândalo. O ministro já considerava um equívoco a indicação de Lula e preferia ver Pacheco, seu outro amigo, engrossando as fileiras de aliados na corte. Com o Banco Master no centro do debate, esse objetivo tornou-se ainda mais premente.

A negociação: concessões em troca de barragem

A articulação, então, assumiu contornos de troca explícita: a aprovação da dosimetria das penas do 8 de janeiro em troca do enterro da CPI do Banco Master e da barragem à indicação de Messias. Foi assim que o chamado “herói da resistência” ao golpe abençoou um revés a si mesmo — um recuo calculado, não uma rendição.Sem Messias no STF, André Mendonça segue em parcial isolamento e em clara minoria na corte. A manobra, portanto, não apenas impediu a entrada de um aliado do Planalto, como também preservou o equilíbrio interno favorável à corrente de Moraes.

“O episódio mostrou um mundo invertido em Brasília, no qual antigos aliados transformaram-se em rivais e tradicionais antagonistas tornaram-se aliados de ocasião.”

Alianças improváveis e a moeda da traição

A votação expôs um tabuleiro político em transformação. De um lado, o governo e Alexandre de Moraes, antes alinhados na resistência ao bolsonarismo, agora em rota de colisão. De outro, André Mendonça e um ministro de Lula — Messias —, além de Moraes e Flávio Bolsonaro, por intermédio de Alcolumbre, transformados em aliados circunstanciais.

A traição desfilou sem inibição. Messias foi traído por gente até então próxima ao próprio governo. Mendonça foi traído por amigos da bancada evangélica que lhe prometeram votos a favor de Messias minutos antes da votação, mas entregaram a cabeça do candidato da mesma fileira religiosa. O voto evangélico, nesse caso, rendeu-se aos interesses do establishment.

No arsenal de votos contrários ao governo, houve de tudo: desafetos pessoais de Messias, parlamentares incomodados com Lula por razões diversas, e uma leitura compartilhada de oportunidade política.

A percepção de fraqueza e o fator imprevisível

O “strike” contra Lula só foi possível graças à convicção do centrão e de parte do STF de que o presidente está politicamente enfraquecido, em viés de derrota nas eleições de 2026. Essa percepção, contudo, pode ser volátil.A política não se escreve em linha reta. Se o presidente da República se recuperar e sair de outubro vitorioso, tudo pode mudar de novo. O que hoje parece um movimento definitivo pode revelar-se apenas um capítulo em um enredo ainda em construção.

Por ora, fica a lição: em Brasília, alianças são líquidas, lealdades são negociáveis e o poder se redistribui conforme a maré dos escândalos, das urnas e dos bastidores.

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