Letalidade Policial no Brasil tem alta de 4,5% em 2025: Rondônia registra aumento de 488% e Bahia lidera em números absolutos

Publicado em: 10/02/2026 15:12
Como sintetiza Adilson Paes de Souza: “Continua matando muita gente, continua morrendo muitos policiais e ninguém está ficando seguro. Temos uma espetacularização das mortes produzidas pela polícia e cada vez mais a aposta na letalidade como sinônimo de eficiência.”

Enquanto o Brasil registra queda histórica nas mortes violentas pelo quinto ano consecutivo, um indicador crítico segue na contramão: as mortes cometidas por policiais cresceram 4,5% em 2025, segundo dados oficiais do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O levantamento revela um cenário fragmentado — com 17 estados apresentando alta, 9 registrando redução e o Distrito Federal mantendo estabilidade —, mas aponta tendências preocupantes que desafiam o discurso de modernização das políticas de segurança pública.

Rondônia: O Caso Mais Extremo de 2025

Nenhum estado ilustra melhor a escalada da letalidade policial que Rondônia. Em 2024, foram registradas 8 mortes em operações policiais; em 2025, o número saltou para 47 — um aumento de 488%. Porto Velho concentrou a crise, especialmente em janeiro, mês mais violento do ano com 12 mortes decorrentes de confrontos entre policiais e integrantes do Comando Vermelho. A escalada começou após a morte de um líder da facção em operação policial, seguida pelo assassinato de um cabo da PM dias depois.

Segundo o promotor Pablo Viscardi, do Ministério Público de Rondônia, a explosão nos números está ligada à intensificação de operações em resposta a conflitos entre facções criminosas. “A crescente intervenção policial, seja na realização de operações decorrentes de investigações, seja no policiamento ostensivo, aliada à extensão territorial do município — um dos maiores do Brasil —, ajuda a explicar esse cenário”, afirma. Diante da crise, o MP estadual criou em dezembro um grupo especial para estudar a segurança pública no estado.

Bahia, São Paulo e Rio: Os Três Estados que Concentram 55% das Mortes

Em números absolutos, a Bahia lidera com 1.569 mortes em operações policiais — o equivalente a 4,3 mortes por dia. São Paulo aparece em segundo lugar (835 casos) e Rio de Janeiro em terceiro (798), somando juntos 3.202 óbitos, ou 55% do total nacional. No Rio, uma megaoperação em outubro contra o Comando Vermelho nos Complexos da Penha e Alemão resultou em 121 mortes (117 suspeitos e 4 policiais), contribuindo para o aumento de 13% no estado.

Quando analisada a taxa por 100 mil habitantes — métrica que permite comparação justa entre populações —, o Amapá lidera com 17,11 mortes, seguido pela Bahia (10,55) e Pará (7,28). Esses números revelam que a letalidade policial não é fenômeno restrito a grandes centros urbanos, mas afeta proporcionalmente mais estados da Região Norte e Nordeste.

Menos Violência, Mais Letalidade Policial

O dado mais paradoxal do levantamento é a divergência entre tendências. Enquanto homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios e lesões seguidas de morte caem pelo quinto ano seguido — indicando redução da violência interpessoal —, as mortes em operações policiais seguem trajetória oposta. Em uma década, o Brasil acumulou alta de 170% nesse indicador, sinalizando que a “guerra às drogas” e operações ostensivas continuam priorizando confronto em detrimento de investigação e prevenção.

Para Adilson Paes de Souza, tenente-coronel aposentado da PM de São Paulo, o fenômeno transcende ideologias políticas: “Persiste a ideia de que não se trata de algo ideológico de uma determinada corrente. Esquerda e direita navegam nas mesmas águas, apostam na letalidade”. Ele observa que os três estados com maiores números — Bahia (PT), Rio (PL) e São Paulo (Republicanos) — representam espectros políticos distintos, mas compartilham lógicas operacionais semelhantes.

Policiais Também São Vítimas: Mortes Caem, mas Suicídios Persistem

Enquanto as mortes por policiais aumentaram, as mortes de policiais caíram 8% em 2025 (185 casos). O Rio concentrou 42% dessas mortes (77 casos), alta de 35% frente a 2024 — reflexo direto das operações de alto risco em comunidades. Já os suicídios de agentes de segurança caíram 13% (131 casos), mas mantêm ritmo alarmante: um policial tira a própria vida a cada três dias no Brasil. Em dez anos, 1.303 agentes cometeram suicídio, sendo 64% policiais militares.

Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, critica a falta de políticas efetivas para reduzir o uso da força letal: “Continuamos tendo no Brasil patamares muito altos de uso da força policial, ainda que existam projetos para recursos alternativos. Mas essa não é uma preocupação dos estados em geral”.

O Que os Dados Revelam Sobre a Segurança Pública Brasileira?

A análise dos números de 2025 aponta três conclusões críticas:

  1. A letalidade policial não é indicador de eficiência — estados com altos números não necessariamente têm menor criminalidade;
  2. Falta coordenação nacional — cada estado define suas próprias regras de uso da força, sem padrão federal unificado;
  3. Crise de saúde mental não resolvida — o alto índice de suicídios entre policiais revela pressão psicológica não tratada.

Enquanto o Brasil avança na redução de homicídios gerais, a persistência — e até aceleração — da letalidade policial expõe um nó não resolvido na segurança pública: a crença equivocida de que mais tiros significam mais segurança. Como sintetiza Paes de Souza: “Continua matando muita gente, continua morrendo muitos policiais e ninguém está ficando seguro. Temos uma espetacularização das mortes produzidas pela polícia e cada vez mais a aposta na letalidade como sinônimo de eficiência”.

Fonte G1 / Via Media Press

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