Por que tantos agressores miram o rosto? O padrão brutal contra mulheres

Os ataques ao rosto de mulheres em casos de violência de gênero acenderam um alerta às vésperas dos 20 anos da Lei Maria da Penha, em 2026. Pesquisadores afirmam que agressões dirigidas à face revelam uma intenção que vai além de ferir fisicamente: buscam marcar, desfigurar e atingir a identidade da vítima por meio de força desproporcional.
Um dos casos recentes envolve a estudante Alana Anísio Rosa, de 20 anos, moradora de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Ela não mantinha relacionamento nem vínculo com Luiz Felipe Sampaio, de 22 anos, que frequentava a mesma academia e passou a enviar flores e doces anônimos. Após a jovem recusar as investidas, ele invadiu o quintal da casa dela armado com uma faca e desferiu 30 golpes; a mãe de Alana interrompeu o ataque ao voltar do trabalho minutos mais cedo. A estudante ficou duas semanas em coma induzido e sobreviveu. “Eu continuo sendo a mesma pessoa com a mesma identidade. Tenho os mesmos objetivos”, disse Alana.
A subnotificação dificulta a dimensão real desse tipo de violência. Um estudo com 3.193 usuárias do SUS na Grande São Paulo apontou que 76% relataram violência psicológica, física ou sexual, mas apenas 3,8% tinham o registro formalizado em prontuários médicos. Em Santos, a médica Samira Khouri, de 27 anos, também teve o rosto atingido pelo então namorado, o fisiculturista Pedro Camilo Garcia Castro, de 24 anos, durante uma viagem a São Paulo. Ele deu socos por seis minutos e continuou mesmo após ela perder a consciência; Castro permanece preso aguardando julgamento.
Organizações civis oferecem tratamento e acolhimento a vítimas que convivem com marcas físicas e psicológicas. Em São Paulo, o Instituto Um Novo Olhar, idealizado pela médica Carla Góes, reúne voluntários para reconstrução facial, apoio psiquiátrico e psicológico, orientação jurídica e assistência social, em parceria com o Hospital das Clínicas. Na Câmara, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher aprovou um projeto que agrava penas para agressores que provoquem lesão, mutilação ou traumas no rosto, no pescoço ou nas partes íntimas de mulheres; a proposta ainda aguarda análise da CCJ antes de seguir ao plenário e ao Senado.
