Rondônia: onde a direita radical tomou conta da política
João Paulo Viana e Patrícia Vasconcellos
Paradoxalmente são os eleitores moderados e de esquerda que poderão decidir um eventual segundo turno
Com cerca de 1,2 milhão de eleitores (pouco menos de 1% do eleitorado nacional), Rondônia vivencia pelo menos desde 2018 uma guinada radical à direita que o coloca em posição singular na política brasileira. Situado na Amazônia Ocidental, o estado tem o terceiro maior PIB (Produto Interno Bruto) do Norte, atrás somente do Pará e do Amazonas. A unidade federada é também uma importante produtora de commodities, principalmente arroz, cacau, café, mandioca, soja e minérios. Na pecuária, ocupa a sexta posição entre os maiores rebanhos bovinos do país.
Um estudo publicado em 2024 traz um raio X da guinada radical à direita na política rondoniana. Nas eleições de 2018 e 2022, Rondônia foi o único estado em que Jair Bolsonaro (PL) venceu em todos os municípios nos quatro turnos disputados. Em média, contabilizando os dois pleitos, o ex-presidente obteve êxito em 97% das seções eleitorais. Mais que isso, em 40% dos municípios, o candidato não perdeu em nenhuma seção eleitoral, em nenhum turno das eleições presidenciais de 2018 e 2022.
O quadro ultraconservador emergiu a partir da segunda metade da década passada, mas o fenômeno sente a influência de uma formação histórica desde os tempos em que era território federal, sob períodos distintos de autoritarismo. Some-se a isso o fato de o estado ter proporcionalmente um dos maiores eleitorados evangélicos do país desde a década de 1980, a intensa e definidora colonização agrária de expansão da fronteira agrícola liderada pelo regime militar, que chega ao ápice no mesmo período, e a força do agronegócio na atualidade. Eis o combo perfeito da radicalização à direita na Rondônia bolsonarista.
O essencial da notícia, sem ruído
Conforme pesquisa Real Time Big Data divulgada em meados de julho, Marcos Rogério (PL) lidera a corrida ao governo estadual com 36% de intenções de votos. Bolsonarista dos mais vocais, o senador empunha uma faca de dois gumes. Ainda que seja o favorito ao Palácio Rio Madeira, suas chances de sucesso dependem, sobretudo, de sua capacidade de diálogo com os setores mais moderados.
Tudo aponta para a manutenção de um quadro de radicalização à direita
Para isso, o maior trunfo eleitoral de Marcos Rogério é a aliança com o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes (Podemos), um político de centro-direita bem avaliado pela população da capital. Mas, se a aliança com o Podemos era uma oportunidade de construir uma chapa mais moderada, o que se observa é diferente: o escolhido do partido para ser vice é o delegado de Polícia Civil e deputado estadual Rodrigo Camargo, bolsonarista do mesmo matiz do candidato que encabeça a chapa.
Em segundo lugar na pesquisa, com 28%, aparece o ex-prefeito de Cacoal Adailton Fúria (PSD). Ele deixou o cargo muito bem avaliado e também se posiciona como apoiador de Bolsonaro. Entre seus principais aliados, estão o atual governador, Marcos Rocha (PSD), e o ex-senador Expedito Júnior (PSD). Ainda assim, Fúria tem conseguido dialogar com setores moderados e pode lograr êxito em avançar ao centro, principalmente se Marcos Rogério não ocupar esse espaço.
Em terceiro, com 13% de intenções de votos, está outro quadro de um conservadorismo menos radical, o ex-prefeito de Porto Velho Hildon Chaves (União). Embora também tenha deixado o cargo com bons índices de popularidade, Hildon tem dificuldades para conquistar eleitores de fora da capital – e o apoio de Léo Moraes a Marcos Rogério torna sua tarefa difícil até em Porto Velho. São enormes os seus desafios para chegar ao segundo turno, embora suas chances não possam ser descartadas.
Entre os demais candidatos, aparecem nomes de uma nova geração de políticos, alguns já bastantes conhecidos do eleitorado. Um deles é o ex-deputado federal Expedito Neto, recém-filiado ao PT e filho de Expedito Júnior, um dos mentores da campanha de Adailton Fúria. Em quarto lugar nas pesquisas, Neto tem hoje muito mais a oferecer ao PT rondoniense do que o contrário. Diante de um forte sentimento antipetista que se arrasta há mais de uma década em Rondônia, sua candidatura pode ajudar o partido a reconstruir suas bases no estado, depois de duas eleições seguidas sem sequer lançar candidatos ao Executivo estadual.
Além disso, a disputa pelo governo do estado neste ano será marcada, mais uma vez, pela ausência de candidatas mulheres tanto a governadoria quanto a vice-governadoria. A situação reforça o alerta sobre a sub-representação feminina na política, especialmente em cargos de comando.
Na disputa ao Senado, entre os cinco candidatos mais bem posicionados na pesquisa Real Time Big Data, quatro são bolsonaristas. O deputado federal Fernando Máximo (PL) lidera as intenções de voto, seguido pela também deputada federal Sílvia Cristina (PP). O terceiro colocado ganhou na Justiça o direito de usar o sobrenome do ex-presidente: Bruno Bolsonaro (PL), pecuarista ultraconservador neófito nas urnas.
Diante de uma conjuntura altamente radicalizada, são mínimas as chances de mudança na mediana ideológica conservadora, que também marca as bancadas na Assembleia Legislativa e Câmara dos Deputados. Tudo aponta para a manutenção de um quadro de radicalização à direita, entendida como o processo de total esfacelamento do campo progressista, no contexto de domínio de forças conservadoras, onde até mesmo o centro moderado foi esvaziado.
Paradoxalmente, são os eleitores moderados — especialmente à esquerda, que não têm candidatos competitivos a quem recorrer — que poderão decidir um quadro eleitoral bastante acirrado, numa disputa voto a voto num eventual segundo turno.
João Paulo S. L. Viana é cientista político, professor da Universidade Federal de Rondônia, professor colaborador da Universidade Federal do Pará, pesquisador de pós-doutorado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e coordenador estadual do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal.
Patrícia M. C. de Vasconcellos é cientista política, professora da Universidade Federal de Rondônia, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da mesma instituição e pesquisadora do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal.
