Arte indígena e venda por atravessadores: um dilema dos povos originários do Acre

Publicado em: 11/05/2026 10:26

Não faz muito tempo, uma das formas mais puras da ancestralidade amazônica tem ganhado vitrines de lojas, passarelas de moda e até mesmo o noticiário nacional. O artesanato indígena vem conquistando espaços cada vez mais estrangeiros e, de certa forma, conservando uma tradição nativa. Mas o que pode ter de ruim nisso? A venda por atravessadores (empresas e pessoas não indígenas) tem sido injusta com os povos originários do Acre. Tal afirmação chega como um desabafo dos Povos Indígenas.

Nacayara Yawanawá investiu no artesanato indígena para manter laços com aldeia (Foto: Arquivo Pessoal/cedida)

Um grito de resistência afronta o cenário que se desenha em torno da arte proporcionada pela floresta e comercializada por CNPJs (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) consolidados mundo afora. A artesã acreana Nacayra Brasil Yawanawá, 25 anos, pertence ao povo Yawanawá, banhado pelo Rio Gregório, em Tarauacá, interior do Estado. Após muitas tentativas de parcerias com sua loja online @yawa_atelie, resolveu fabricar e vender ela mesma a sua arte. Uma maneira de conquistar lucro real nas vendas.

“Nosso artesanato não é valorizado. A maioria das pessoas pensam assim: se vai ao centro da cidade, onde tem a barraquinha de um indígena, com um preço justo, a pessoa não quer comprar. Mas se a mesma pessoa entrar numa loja bonita, toda arrumada, uma loja de pessoas não indígenas, ela compra. As pessoas querem comprar de atravessadores, que não dão o lucro que o indígena deveria receber”, afirma Nacayara.

Produtos da Yawa Ateliê são vendidos de forma online e entregues em todo o Brasil (Foto: Arquivo Pessoal/cedida)

Por outro lado, a artesã acredita que o trabalho desempenhado por essas comunidades pode receber o devido prestígio no momento em que o cliente compra do próprio indígena, do artesão, de quem faz. “Assim a pessoa tem o real lucro de 100% de tudo que é investido, seja material, tempo, dedicação. Mas quando compram de quem não faz, desvaloriza muito o artesanato indígena. As pessoas ainda preferem comprar um padrão de imagem que vem agregado com a peça”, relata.

Arte com essência

Yawa Ateliê é o empreendimento que Nacayara abriu recentemente, dentro de casa mesmo, para expressar os saberes adquiridos com a vivência na aldeia. Em agosto de 2024, fez a primeira publicação da loja no Instagram. “Até então, eu só fazia esses acessórios para mim mesma, porque usava e gostava muito. Meu pai é figura de liderança em uma das aldeias no Rio Gregório. Não nasci na aldeia, mas pertenço, frequento a Terra Indígena e sou apegada ao meu povo. Me apaixonei e me liguei muito a eles [indígenas]”.

O envolvimento de Nacayara com o artesanato indígena iniciou quando mudou-se à capital acreana, Rio Branco, para cursar faculdade. “Com essa mudança, me afastei muito do meu povo, porque não conseguia mais visitar eles com frequência. Aí aprendi a mexer com artesanato. Foi o que me manteve ligada com a aldeia. Uma maneira de me manter próxima, já que eu não conseguia ir até lá por conta dos estudos. O custo de ir e voltar era e ainda é muito caro”.

Logo percebeu que as pessoas ao redor gostavam dos acessórios que usava e decidiu investir no próprio ateliê. Os grafismos encontrados nos brincos, colares, pulseiras, etc. possuem significados milenares e individuais. “Existe muita representatividade nesse trabalho. Para nós, a arte com a miçanga mantém essa ligação. Quando vendemos uma peça, estamos doando parte da nossa alma. O artesanato indígena é resistência, mantém tradição e ancestralidade vivas através desses acessórios”, diz a jovem.

Tempo de produção pode levar de dois dias até meses, dependendo da peça (Foto: Arquivo Pessoal/cedida)

Atualmente, a loja só comercializa de forma online. “Já tentei fazer parceria com lojas físicas para expor meu trabalho, mas o lucro seria muito baixo e não quis seguir adiante. Não é apenas um acessório que a gente entrega, então precisamos ser mais valorizados”. Para Nacayara, quem compra pensa estar adquirindo apenas uma peça, um adorno, mas quem produz tem consciência de estar repassando objetos que contam a história local.

O ateliê comercializa pulseiras, colares, brincos e encomendas personalizadas de como o cliente quer o produto. “Também faço pintura, escaneio, além do trabalho com as miçangas. Aqui em Rio Branco, o que mais vendo é brinco. A saída é muito boa”, destaca a jovem. A peça com menor valor que possui hoje é uma pulseira de R$ 150. Já a peça de maior valor financeiro é um maxi colar de micro miçangas, de R$ 600. Há produções de maxi colares que chegam a R$ 2 mil, a depender do tamanho da peça. “Esses só faço por encomenda, pois demoram meses para ficarem prontos”.

O tempo de produção das peças é bem relativo, a depender do modelo e tamanho de cada produto. “Uma pulseira, por exemplo, preciso de dois dias para fazer. Dependendo do tamanho, o brinco também dura dois dias. O colar já demora uma semana. Maxi colar mais de um mês. Uso material mais resistente, que não desbota, não muda a cor, não quebra com facilidade e é reciclável”, assegura.

Quando visita a aldeia da família, Nacayara destaca que também costuma colher peças artesanais indígenas de meninas da comunidade para vender em Rio Branco, porém, excluindo a logística de atravessador, fazendo o repasse obtido sem exploração financeira.

Artesã indígena do Acre luta contra venda por atravessadores e melhores lucros (Foto: Arquivo Pessoal/cedida)

Desafios

Nacayara Yawanawá ainda não consegue viver somente do artesanato, necessitando conciliar com outro serviço, mas a artesã acredita ser uma ideia possível. “Quando a gente entender que temos valor e que nossa mão de obra é valorizada, que nossa ancestralidade é firmamento, vamos conseguir consolidar esse negócio. Muitas vezes desvalorizamos uma peça nossa porque não lembramos tudo que nosso povo passou para estarmos vivos. Seja o artesanato com miçanga, pintura ou a própria medicina da floresta”.

A artesã lamenta ainda a situação de precariedade nas rodovias do Acre, que dificulta o acesso às aldeias em boa parte do Estado, além dos preços exorbitantes em voos ao interior, dificultando o acesso ao artesanato tradicional. “Nossos governantes poderiam ajudar nosso povo indígena melhorando nossas estradas e baixando os valores das passagens aéreas, pois a maioria dos indígenas vive de turismo estrangeiro”.

De acordo com a artesã, 80% dos povos originários do Acre dependem dessa locomoção e os altos preços reduzem a clientela. “O lugar mais caro para viajar no Brasil hoje é o Acre. Se as passagens fossem mais justas, teriam muito mais turistas, inclusive brasileiros. Temos muitos artesãos bons que não conseguem apresentar seu trabalho porque é difícil sair e chegar aqui”.

Questionada sobre o recente movimento de desejo em torno de peças artesanais indígenas, Nacayara diz ser positivo, mas que ainda aparenta ser um processo político e deve ser melhor trabalhado. “As pessoas compram muito de atravessadores. Tem até marcas famosas que fazem essa campanha e compram dos indígenas mais baratos, vendendo mais caro e não repassando o valor certo. Isso é muito complicado. Mas os olhares estão se voltando para o artesanato da floresta. Muitos estrangeiros que conheci na ideia voltam a entrar em contato e comprar peças conosco. Fazemos envios internacionais, pois eles procuram bastante”, concluiu.

Compartilhar

Faça um comentário

Ir ao Topo