Arte indígena e venda por atravessadores: um dilema dos povos originários do Acre
Não faz muito tempo, uma das formas mais puras da ancestralidade amazônica tem ganhado vitrines de lojas, passarelas de moda e até mesmo o noticiário nacional. O artesanato indígena vem conquistando espaços cada vez mais estrangeiros e, de certa forma, conservando uma tradição nativa. Mas o que pode ter de ruim nisso? A venda por atravessadores (empresas e pessoas não indígenas) tem sido injusta com os povos originários do Acre. Tal afirmação chega como um desabafo dos Povos Indígenas.
Um grito de resistência afronta o cenário que se desenha em torno da arte proporcionada pela floresta e comercializada por CNPJs (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) consolidados mundo afora. A artesã acreana Nacayra Brasil Yawanawá, 25 anos, pertence ao povo Yawanawá, banhado pelo Rio Gregório, em Tarauacá, interior do Estado. Após muitas tentativas de parcerias com sua loja online @yawa_atelie, resolveu fabricar e vender ela mesma a sua arte. Uma maneira de conquistar lucro real nas vendas.
“Nosso artesanato não é valorizado. A maioria das pessoas pensam assim: se vai ao centro da cidade, onde tem a barraquinha de um indígena, com um preço justo, a pessoa não quer comprar. Mas se a mesma pessoa entrar numa loja bonita, toda arrumada, uma loja de pessoas não indígenas, ela compra. As pessoas querem comprar de atravessadores, que não dão o lucro que o indígena deveria receber”, afirma Nacayara.
Por outro lado, a artesã acredita que o trabalho desempenhado por essas comunidades pode receber o devido prestígio no momento em que o cliente compra do próprio indígena, do artesão, de quem faz. “Assim a pessoa tem o real lucro de 100% de tudo que é investido, seja material, tempo, dedicação. Mas quando compram de quem não faz, desvaloriza muito o artesanato indígena. As pessoas ainda preferem comprar um padrão de imagem que vem agregado com a peça”, relata.
Arte com essência
Yawa Ateliê é o empreendimento que Nacayara abriu recentemente, dentro de casa mesmo, para expressar os saberes adquiridos com a vivência na aldeia. Em agosto de 2024, fez a primeira publicação da loja no Instagram. “Até então, eu só fazia esses acessórios para mim mesma, porque usava e gostava muito. Meu pai é figura de liderança em uma das aldeias no Rio Gregório. Não nasci na aldeia, mas pertenço, frequento a Terra Indígena e sou apegada ao meu povo. Me apaixonei e me liguei muito a eles [indígenas]”.
O envolvimento de Nacayara com o artesanato indígena iniciou quando mudou-se à capital acreana, Rio Branco, para cursar faculdade. “Com essa mudança, me afastei muito do meu povo, porque não conseguia mais visitar eles com frequência. Aí aprendi a mexer com artesanato. Foi o que me manteve ligada com a aldeia. Uma maneira de me manter próxima, já que eu não conseguia ir até lá por conta dos estudos. O custo de ir e voltar era e ainda é muito caro”.
Logo percebeu que as pessoas ao redor gostavam dos acessórios que usava e decidiu investir no próprio ateliê. Os grafismos encontrados nos brincos, colares, pulseiras, etc. possuem significados milenares e individuais. “Existe muita representatividade nesse trabalho. Para nós, a arte com a miçanga mantém essa ligação. Quando vendemos uma peça, estamos doando parte da nossa alma. O artesanato indígena é resistência, mantém tradição e ancestralidade vivas através desses acessórios”, diz a jovem.
Atualmente, a loja só comercializa de forma online. “Já tentei fazer parceria com lojas físicas para expor meu trabalho, mas o lucro seria muito baixo e não quis seguir adiante. Não é apenas um acessório que a gente entrega, então precisamos ser mais valorizados”. Para Nacayara, quem compra pensa estar adquirindo apenas uma peça, um adorno, mas quem produz tem consciência de estar repassando objetos que contam a história local.
O ateliê comercializa pulseiras, colares, brincos e encomendas personalizadas de como o cliente quer o produto. “Também faço pintura, escaneio, além do trabalho com as miçangas. Aqui em Rio Branco, o que mais vendo é brinco. A saída é muito boa”, destaca a jovem. A peça com menor valor que possui hoje é uma pulseira de R$ 150. Já a peça de maior valor financeiro é um maxi colar de micro miçangas, de R$ 600. Há produções de maxi colares que chegam a R$ 2 mil, a depender do tamanho da peça. “Esses só faço por encomenda, pois demoram meses para ficarem prontos”.
O tempo de produção das peças é bem relativo, a depender do modelo e tamanho de cada produto. “Uma pulseira, por exemplo, preciso de dois dias para fazer. Dependendo do tamanho, o brinco também dura dois dias. O colar já demora uma semana. Maxi colar mais de um mês. Uso material mais resistente, que não desbota, não muda a cor, não quebra com facilidade e é reciclável”, assegura.
Quando visita a aldeia da família, Nacayara destaca que também costuma colher peças artesanais indígenas de meninas da comunidade para vender em Rio Branco, porém, excluindo a logística de atravessador, fazendo o repasse obtido sem exploração financeira.
Desafios
Nacayara Yawanawá ainda não consegue viver somente do artesanato, necessitando conciliar com outro serviço, mas a artesã acredita ser uma ideia possível. “Quando a gente entender que temos valor e que nossa mão de obra é valorizada, que nossa ancestralidade é firmamento, vamos conseguir consolidar esse negócio. Muitas vezes desvalorizamos uma peça nossa porque não lembramos tudo que nosso povo passou para estarmos vivos. Seja o artesanato com miçanga, pintura ou a própria medicina da floresta”.
A artesã lamenta ainda a situação de precariedade nas rodovias do Acre, que dificulta o acesso às aldeias em boa parte do Estado, além dos preços exorbitantes em voos ao interior, dificultando o acesso ao artesanato tradicional. “Nossos governantes poderiam ajudar nosso povo indígena melhorando nossas estradas e baixando os valores das passagens aéreas, pois a maioria dos indígenas vive de turismo estrangeiro”.
De acordo com a artesã, 80% dos povos originários do Acre dependem dessa locomoção e os altos preços reduzem a clientela. “O lugar mais caro para viajar no Brasil hoje é o Acre. Se as passagens fossem mais justas, teriam muito mais turistas, inclusive brasileiros. Temos muitos artesãos bons que não conseguem apresentar seu trabalho porque é difícil sair e chegar aqui”.
Questionada sobre o recente movimento de desejo em torno de peças artesanais indígenas, Nacayara diz ser positivo, mas que ainda aparenta ser um processo político e deve ser melhor trabalhado. “As pessoas compram muito de atravessadores. Tem até marcas famosas que fazem essa campanha e compram dos indígenas mais baratos, vendendo mais caro e não repassando o valor certo. Isso é muito complicado. Mas os olhares estão se voltando para o artesanato da floresta. Muitos estrangeiros que conheci na ideia voltam a entrar em contato e comprar peças conosco. Fazemos envios internacionais, pois eles procuram bastante”, concluiu.



